O pais acordou com a notícia do regresso da F1 ao Algarve. Luís Montenegro, Primeiro Ministro de Portugal, anunciou no verão que estava “tudo pronto para formalizar o regresso da Fórmula 1 ao Algarve”, no que foi a primeira referência ao campeonato do mundo por parte do poder político. Também nas autárquicas a F1 voltou a ser referida com o candidato vencedor à Câmara de Cascais, Nuno Piteira Lopes, a prometer o regresso da competição ao Circuito do Estoril.
A possibilidade de um regresso da Fórmula 1 trouxe de novo para a agenda as condições do circuito, o seu futuro, e até as tensões locais em torno do barulho e das infraestruturas. Bem antes da confirmação do regresso da F1 a Portugal para 2027 e 2028, Ni Amorim, presidente da FPAK, falou com o AutoSport sobre estes temas
AutoSport — A campanha autárquica trouxe o Estoril para o centro das atenções, com a proposta de que a Fórmula 1 poderia regressar aqui. Alguém falou consigo? E o que sabe sobre essa ideia?
Ni Amorim — “O que sei é aquilo que vi na imprensa durante a campanha eleitoral: havia uma vontade política de trazer a Fórmula 1 para o Estoril. Mas olhando para o Estoril tal como ele está neste momento, digo-lhe com toda a clareza que não tem espaço físico para receber a Fórmula 1 com as categorias de suporte que acompanham todos os Grandes Prémios. Nem vou falar de infraestruturas — basta o espaço. O tamanho dos carros mudou imenso, a logística mudou imenso. Quando os Fórmula 1 vinham aqui, pareciam quase karts comparados com o que são agora. O espaço de paddock deve acomodar as grandes motorhomes da F1 e o Estoril não tem esse espaço. As realidades mudaram completamente.”
“É verdade que a pista tem uma vantagem: está homologada em grau 1 até 31 de janeiro de 2026, e a Federação irá garantir o processo necessário para renovar essa homologação. Grau 1 quer dizer que pode receber Fórmula 1, WEC e todas as categorias equivalentes. Portanto, não é pela pista. O problema é toda a estrutura envolvente: bancadas fechadas, hotel desativado, falta de espaço. Assim como está, parece-me irrealista. Mas acredito que, ao manifestar essa vontade, o presidente da Câmara terá um plano de investimento para o futuro, porque sem ele a Fórmula 1 aqui não cabe.”

AutoSport — A Fórmula 1 tem sido usada como argumento político, tanto no Estoril como no Algarve. Em sua opinião, trata-se de ambição real ou de retórica eleitoral?
Ni Amorim — “No caso do Algarve, o primeiro-ministro falou com enorme convicção em agosto. Eu ouvi em direto e não acredito que pudesse ser tão claro sem ter uma base sustentável por trás daquela afirmação. Acho que há condições — desde que o governo queira. Já não estamos em pandemia e os critérios da Fórmula 1 são outros. O Algarve tem condições que não existem aqui no Estoril. São realidades completamente diferentes. Como presidente da Federação e como adepto ferrenho do automobilismo, digo-lhe: seria ótimo ter a Fórmula 1 em Portugal. Para o Algarve, acredito. Para o Estoril, não digo que não, mas seria preciso uma obra profunda.”
AutoSport — Tem uma noção aproximada do investimento necessário para requalificar o Estoril ao nível exigido pela Fórmula 1?
Ni Amorim — “Não posso dar valores exatos, não é a minha área. Nunca adjudiquei obras. Mas veja o exemplo do Grande Prémio da Catalunha: fizeram obras de remodelação, incluindo um restaurante suspenso com vistas panorâmicas. Gastaram 50 milhões de euros. E estamos a falar de um circuito implantado numa área muito maior do que o Estoril. Portanto, quanto seria aqui? Não sei. Mas sei isto: seriam sempre dezenas de milhões de euros.”
AutoSport — O Estoril tem estado no centro de polémicas relacionadas com ruído e vizinhança. Como vê essa questão?
Ni Amorim — “Com franqueza: não compreendo. O autódromo existe há mais de 50 anos. As pessoas que vieram morar para aqui já sabiam ao que vinham. Eu adoro automóveis como poucos, mas nunca compraria uma casa em cima de um autódromo. Quem comprou sabia. Do meu ponto de vista, não tem razão nenhuma. Claro que por trás disto há interesses: imobiliários, sociais… Há sempre uma motivação. Mas há decisões judiciais que permitem provas federadas, com limitações de horários. E compreendo que hoje se tenha de proteger escolas, lares, pessoas idosas — faz sentido limitar provas de 24 horas. Spa, uma catedral do automobilismo, também as limita. Agora, acabar com o autódromo por causa do barulho? Isso é uma prepotência irracional.”

AutoSport — Olhando para o futuro, já não teme pelo destino do Estoril? Acredita que há caminho?
Ni Amorim — “Eu acho que o autódromo deve migrar para a Câmara de Cascais. E tudo indica que isso pode vir a acontecer. Se assim for, fico muito mais descansado. A Câmara está muito mais apta a tratar dos assuntos do autódromo do que a Parpública, por razões óbvias. Isso seria uma excelente notícia para o desporto automóvel, porque acredito que a Câmara o preservaria para continuar a haver corridas. Agora, quem gere o autódromo depois dessa transição — isso é fundamental. Não interessa a Câmara ficar com o autódromo se não tiver uma equipa de gestão capaz, credível, com provas dadas, que faça o autódromo crescer e traga corridas de qualidade. E nessa decisão, acredito que as federações devem ser ouvidas: são elas que homologam a pista e autorizam as corridas. São elas que melhor conhecem quem deve gerir o autódromo. Neste momento? Nada nos foi comunicado. Mas aquilo que sinto e prevejo é que a transição para a Câmara é uma hipótese muito avançada. E, para mim, seria uma excelente notícia para o futuro do Estoril.”











