Muito se fala da personalidade, ou falta dela, de alguns pilotos da F1. Para alguns fãs, fazem faltam os “figurões” que não tinha medo de dizer o que pensavam. E mesmo que a grelha atual da F1 tenha um bom conjunto de pilotos, quer ao nível de talento, quer ao nível da sua postura, dentro e fora de pista, há sempre saudades de outros tempos, em que pilotos como Kimi Räikkönen não sentiam qualquer necessidade de agradar quem quer que fosse.
George Russell levantou uma questão interessante recentemente, em declarações ao motorsport-total.com. O britânico admitiu que gere cuidadosamente a sua própria imagem pública, afirmando que o que as pessoas veem nas redes sociais não é a «realidade», pois todos tentam apresentar o seu melhor lado. Ele reconheceu a dificuldade de manter a privacidade e, ao mesmo tempo, permanecer autêntico como piloto de F1, mas enfatizou a importância de interagir com os fãs e patrocinadores, dizendo: «Não se pode morder a mão que te alimenta».
“Para ser sincero, provavelmente não mostro a ninguém como realmente sou – porque esse também é o meu espaço seguro. Tudo o que se vê nas redes sociais, não importa quem seja, não é a realidade. Porque todos estão a tentar apresentar a melhor versão de si mesmos. Se tiras cem fotos, não publica aquela em que estás com os olhos fechados ou pareces um idiota. No fim das contas, os fãs que assistem à Fórmula 1 e me seguem são os que fazem do desporto o que ele é. É por isso que os patrocinadores pagam para fazer parte da equipa – e é assim que eu ganho a vida. Não se pode morder a mão que te alimenta. É preciso entender que os tempos estão a mudar.”
Em seguida, ele referiu-se diretamente a Raikkonen, dizendo que, embora o finlandês fosse uma «personalidade incrível», um Raikkonen de 18 anos entrando na F1 hoje, que não usasse as redes sociais ou fosse «frio», provavelmente desagradaria os fãs.
“Kimi Raikkonen era uma personalidade incrível”, disse ele. “Mas se ele entrasse na Fórmula 1 hoje, aos 18 anos, as pessoas provavelmente ficariam insatisfeitas se ele não usasse as redes sociais ou fosse frio. Esse é o desafio com que vivemos hoje.”
Este ponto é interessante de ser analisado. Kimi Räikkönen fez as últimas corridas já com esta nova geração com as redes sociais em força. Mas criou o seu legado e ganhou os seus fãs numa altura em que as redes sociais não tinham impacto. Quando as redes sociais ganharam força, já era o Iceman, o piloto que falava pouco e era adorado por isso. Um piloto chegar com esta postura, hoje em dia, dificilmente conseguira o espaço mediático que as marcas exigem.
Voltando à questão inicial, as queixas de que não temos pilotos como antigamente fazem sentido. Mas isso acontece porque não temos um mundo como antigamente e os pilotos não podem ser mais autênticos, porque as marcas pagam milhões para aparecerem e não querem ficar associados a um piloto que pode ofender os fãs. E, hoje em dia, é muito fácil ofender quem quer que seja. Por isso, os pilotos escondem-se. Numa sociedade que vive de aparências, os pilotos assumem esse papel também. Assim, a “falta de sal” dos pilotos, é muito motivada pela pouca “tolerância ao sal” dos fãs da atualidade. É por isso uma bênção ter pilotos como Max Verstappen que rapidamente atingiram um estatuto intocável e que diz o que pensa. Mas é um caso cada vez mais raro.








