Regressando um pouco ao tema do Mónaco e da qualidade das corridas, muito se falou na semana passada de potenciais ideias para melhorar o espetáculo. E a tão falada conversa entre James Vowles e Toto Wolff pode dar uma ideia do que se pode fazer para melhorar o espetáculo, sem ter de fazer grandes mudanças na pista.
Mudar ou não mudar?
Todos os anos, por esta altura, o debate regressa: será que a F1 se deve manter no Mónaco? Já fizemos uma votação no AutoSport para entender a perceção dos leitores que, na sua maioria, mostraram vontade de manter a prova, mesmo que com alterações para promover mais espetáculo.
Falar do Mónaco não deveria servir para falar de falta de ultrapassagens. Sim, as ultrapassagens são o tempero das corridas, mas não têm de ser o foco de toda a atenção. O desafio do Mónaco vai muito para lá das ultrapassagens. É a emoção da velocidade num traçado estreito, que não permite erros, é a perícia dos pilotos que, ano após ano, vão baixando o tempo por volta.
A referência que deve ser mantida
Pouco se falou, mas o recorde de pista foi batido por Lando Norris. A volta de 1:09.954 foi a mais rápida de sempre. Basta pensar que no início da era híbrida, o melhor tempo na qualificação foi de 1:15.989. É verdade que já antes se rodara no segundo 13 (Jarno Trulli em 2004), mas, mesmo com as mudanças de regulamentos e filosofia, a F1 vai conquistando as ruas do principado a uma velocidade cada vez superior.
O Mónaco serve de referência, para entendermos o que era a F1, o que é, e o que pode ser. É valioso ter este tipo de referência que permite, pelo menos, a realização do quanto se evoluiu e o que mudou.

Mas é também verdade que a F1 é entretenimento e se o público quer ultrapassagens, é preciso dar, correndo-se o risco do fim de semana mais badalado do ano perder interesse e cor. É, portanto, necessário encontrar soluções. E a solução pode estar em Trás-os-Montes, Portugal. Mais especificamente em Vila Real.

Joker Lap como solução?
A capital transmontana já iniciou a sua transformação anual, em que as estradas da cidade se convertem num dos traçados mais exigentes e desafiante da Europa, onde os melhores pilotos a nível nacional e internacional vêm mostrar o seu valor. Também aqui o WTCC e o WTCR enfrentavam críticas pelas corridas não proporcionarem muitas ultrapassagens (nada que impedisse milhares de se deslocarem à “Bila” para ver as corridas). E a solução foi encontrada de forma original.
A Joker Lap é um conceito oriundo do ralicross, adotado no circuito de Vila Real no âmbito do WTCC (em 2017) para tornar as corridas mais estratégicas e imprevisíveis. Consistia numa variante do traçado normal, obrigatória uma vez por corrida para todos os pilotos, que acrescentava cerca de 86 metros à volta habitual. Localizada na última curva do circuito, esta alternativa foi aprovada pela FIA e autoridades locais.
O momento em que cada piloto escolhe fazer a Joker Lap é livre, dentro de uma janela definida pela organização, o que introduz uma componente tática importante. As equipas precisam considerar fatores como tráfego, distância para adversários e possíveis incidentes para tomar a decisão ideal. Um mau timing pode resultar na perda de posições, enquanto uma escolha acertada pode garantir vantagem competitiva.
A Joker Lap tornou-se uma das características mais marcantes das corridas em Vila Real, contribuindo para o espetáculo e a emoção, ao introduzir uma variável estratégica única no panorama do automobilismo em circuitos citadinos.

Troca de ideia entre Vowles e Wolff
E foi essa ideia que era falada por James Vowles e Toto Wolff. Na troca de palavras, que virou meme, entre ambos, o que parecia uma discussão acalorada devido às estratégias usadas nessa corrida, seria apenas uma troca de ideias, uma delas que já foi experimentada com sucesso no nosso país.
“O que eu estava a falar com o Toto é que eu me pergunto se podemos usar uma joker lap” disse Vowles num vídeo do canal YouTube da Williams. “Tal como o que George fez no final, em que ultrapassou efetivamente fora da pista. Será que se permite que isso aconteça várias vezes numa corrida para criar uma oportunidade diferente? Esta foi a conversa muito breve que teve lugar nas boxes”.
As primeiras impressões do uso da Joker Lap em Vila Real foi, no global, positiva. Alguns pilotos não gostaram da sua localização, ou do seu formato, mas ninguém se revelou fundamentalmente contra a sua utilização. Será que o Mónaco pode fazer o mesmo?
De todas as ideias já avançadas, parece ser aquela que permite uma mudança mais vincada, sem retirar a essência do traçado. E, uma vez que a solução das duas paragens obrigatórias, só por si, não resultou, quem sabe se, em conjugação com uma Joker Lap que impeça os pilotos de levantar demasiado o pé, se não podemos ter uma corrida mais intensa e emocionante?










