Se ontem elogiamos a decisão corajosa mas, a nosso ver, acertada de adiar o arranque da corrida, temos de referir a confusão final no protesto da Ferrari, que mostra claramente que a FIA não resolveu o problema que existia na direção de corrida.
No final da prova no Mónaco, a Ferrari apresentou um protesto, alegando que os carros da Red Bull saíram de forma ilegal das boxes, por terem tocado na linha que delimita a saída das boxes, uma penalização que já vimos aplicadas no passado. Olhando para as imagens ficou relativamente claro que Max Verstappen tinha tocado na linha amarela. O protesto era assim de esperar e o terceiro lugar de Verstappen estava em risco. No final ficou tudo na mesma… a posição de Verstappen e a desconfiança em relação à FIA e ao trabalho dos comissários.
O protesto relacionado com Sérgio Pérez foi logo esquecido, pois as provas mostravam que o mexicano não tinha cometido qualquer infração. Mas no caso de Verstappen, as imagens mostravam que o campeão em título tinha de facto tocado na linha amarela. A Ferrari, seguindo as notas do diretor de corrida, apresentou o protesto. A parte relevante das notas diz o seguinte: “Em conformidade com o Capítulo 4 (Secção 5) do Apêndice L do ISC, os pilotos devem manter-se à direita da linha amarela sólida à saída das boxes quando saem das boxes e permanecer à direita desta linha até terminar após a Curva 1”.
A interpretação da Ferrari é que a linha amarela não pode ser tocada, mas a explicação dos comissários refere que as notas não estavam em conformidade com o Código Desportivo Internacional que sofreram alterações este ano. A parte relevante do CDI que foi modificada, em vez de especificar que a linha de saída das boxes “não deve ser atravessada por qualquer parte de um carro que saia das boxes”, diz “qualquer pneu de um carro que saia da pitlane não deve atravessar” a linha de saída das boxes.
Ora, ao atravessar a linha, a roda deve ficar completamente do lado esquerdo desta, o que não aconteceu. Mas isso vai contra as notas do diretor de corrida. O CDI sobrepõe-se como é evidente e por isso o protesto também caiu, mas Eduardo Freitas teve de referir que as notas do diretor foram copiadas do ano passado, sem ter em conta essa alteração.
Mais uma vez se mostra que a solução da FIA para a direção de corrida da F1 não é forte o suficiente. Eduardo Freitas tem de lidar com as preparações de Le Mans e apanhou um dos GP mais importantes do ano na sua segunda corrida ao leme da operação. Freitas é uma pessoa metódica, com atenção ao detalhe, mas precisa de uma boa equipa à sua volta e parece que essa equipa não está a funcionar bem. Mesmo o “VAR” instalado na Suíça para ajudar, não parece trazer uma mais valia clara. No fundo, passou-se de um sistema que sobrecarregava um indivíduo, para um sistema que se tornou mais complexo e que usa dois indivíduos em vez de um. Isso prejudica a adaptação ao cargo, a continuidade nas decisões e pior que isso, coloca em posição de desvantagem quem tem de estar numa posição forte para comandar. Até que ponto o sistema de rotatividade é bom para a direção de corrida da F1? Até que ponto este sistema mais complexo é funcional? Perguntas que ficam no ar. Mas a FIA precisava de ter arrumado a questão da direção de corrida de forma mais convincente. Arranjou uma solução pomposa, mas nem por isso resolveu algumas questões. E nós sabemos que há pessoas naquela sala com capacidade para fazer esse trabalho com qualidade. Freitas está habituado a trabalhar com um pelotão bem mais vasto, com mais meios e com uma complexidade igual ou superior à da F1. O trabalho que tem feito é elogiado por todos. Este tipo de lapsos… não são normais e para nós evidenciam que o sistema precisa de ser revisto e melhorado. O problema talvez nunca tenha estado nos homens do leme, mas sim no próprio leme.











