Olhando para o passado é muito fácil ver o que correu bem e o que podia ter corrido melhor. No caso da McLaren/Honda é fácil agora olhar para trás e pensar que a dupla deveria ter-se mantido mais tempo. Mas talvez não fosse o melhor desfecho.
A Honda chegou a uma McLaren diferente da que temos na atualidade. Ron Dennis tinha acabado de regressar ao leme da equipa e tratou pessoalmente de reiniciar a parceria com a marca japonesa. Mas a equipa ainda vivia com a ilusão de que era uma estrutura de topo e que facilmente chegaria aos títulos com o motor certo. Não foi esse o caso e juntando à abordagem insuficiente da Honda, a McLaren só entendeu que não tinha o que era preciso para vencer quando a “desculpa japonesa” deixou de existir.
O plano foi muito bem pensado mas, mal executado. A McLaren tinha uma fornecedora exclusiva, que ainda dava bom dinheiro para o projeto, além das unidades motrizes, tinha uma dupla de pilotos de topo, dois campeões do mundo, com experiência, muito talento, tudo numa estrutura que já tinha vencido num passado recente. No papel era um plano praticamente infalível.
Na realidade a Honda iniciou o projeto sem entender bem a dimensão do desafio e quando o entendeu, não teve a desenvoltura suficiente para resolver os problemas em tempo útil. A dupla de pilotos foi desaproveitada e se Jenson Button soube manter a compostura, Fernando Alonso partiu a loiça toda com constantes críticas no rádio às performances das unidades nipónicas, que foram minando ainda mais uma relação já frágil. Tudo isso desencadeou o desmoronamento do castelo McLaren, cujas fundações tinham enfraquecido ao longo do tempo. A estrutura tinha um ar moderno, mas estava ultrapassada, a liderança estava esgotada e era preciso repensar tudo.
O que teria acontecido se a parceria McLaren/Honda tivesse sido mantida por mais um par de anos? Jenson Button, que foi piloto Honda e voltou a trabalhar com eles na McLaren diz que foi uma pena a parceira ter-se desfeito:
“Eu estava com eles no início deste projeto [híbrido] e não foi fácil para eles”, disse Button à Motorsport.com. “Na era híbrida, eles tiveram dificuldades quando chegaram. Estavam obviamente um par de anos atrasados em relação a todos os outros. [Havia] muitos problemas de fiabilidade. E penso que é uma pena que a McLaren não se tenha agarrado a eles. Era muito fácil para eles apontar o dedo quando não eram competitivos e apontavam para a parte mais duvidosa, que era o motor. Mas agora avançando, trabalhando com uma equipa como a Red Bull e toda a sua experiência, parece que encontraram uma parceria realmente boa. É bom ver a Honda a ganhar novamente, porque a sua última vitória antes da era com a Red Bull foi minha em 2006, há muito tempo atrás. Por isso é ótimo vê-los a ganhar. Eles são muito apaixonados pelas suas corridas, e é uma pena vê-los partir novamente”, disse Button. “Mas tenho uma ideia de quanto estão a gastar, e é muito dinheiro, por isso percebo porque querem partir. Chegou a hora. Mas eles tiveram um ano fantástico no desporto e é muito bom, porque não tem sido fácil para eles”.
Anthony Davidson, que também esteve ligado à Honda, admite que Alonso estará arrependido de ter sido tão duro:
“Pela minha experiência passada com a Honda, sei que por vezes pode demorar algum tempo a ver progressos, mas no final acabam sempre por conseguir”, explicou ele. “Basta deixá-los encontrar o seu caminho e fazê-lo à sua maneira. Pergunto-me se Fernando pensa agora, ‘Se ao menos eu tivesse sido um pouco mais paciente e lhe tivesse dado um pouco mais de tempo’. É claro, ninguém pode ver o futuro. Mas gostava de saber como ele olha para a Honda, agora que eles têm uma unidade motriz tão forte. Se eles ainda tivessem aquela unidade motriz no carro e Fernando ainda estivesse lá, provavelmente teríamos agora um cenário muito diferente”.
“Claro que, atualmente, a McLaren tem um motor Mercedes que é tão forte como a unidade Honda. Mas também seria um orçamento extra. Este é talvez o ponto mais importante. Caso contrário, poderiam ter investido o dinheiro que gastaram no aluguer de motores no desenvolvimento do carro”.
Pessoalmente, acredito que a parceira estava condenada ao insucesso. No início, o entusiasmo foi claro e além da nostalgia do regresso da McLaren/Honda, pessimamente aproveitado de um ponto de vista de Marketing, havia também um novo começo para a McLaren que deixava motores Mercedes, a mesma marca que se impunha agora como líder da competição. Mas o “para o ano é que é” foi se repetindo demasiadas vezes.
As bases da parceria foram mal construídas, a comunicação sempre foi péssima, a atitude das duas partes nunca foi a melhor. Masashi Yamamoto disse recentemente “mesmo que tivéssemos continuado com o projeto McLaren, penso que não teríamos sucesso, nem a McLaren”, disse ele. “A maior razão provavelmente é que a forma que começámos não era realmente a mais correta. Portanto, o projecto precisava de ser iniciado com a forma correta ou com a comunicação certa, o que não podíamos fazer com a McLaren. E isso é algo que fizemos com a Red Bull Racing e a Toro Rosso. Isso foi muito importante. Começámos do zero. Foi um reinício e precisávamos dele”.
Era preciso um reset depois de três épocas negras. E esse reset nunca poderia ser feito com as mesmas personagens. No fundo, o divórcio entre as duas partes foi o melhor, pois permitiu um reconhecimento do que foi mal feito. Sim, se a Honda tivesse acertado mais cedo a McLaren poderia ter entendido que tinha problemas a resolver e a parceria teria ganho outro fôlego. Mas sem esta separação amarga, a reestruturação profunda feita em Woking talvez não tivesse acontecido, a filosofia da equipa e do grupo não teria mudado (comunicação mais aberta, uma estrutura mais alegre, mais solta e interessada em novos desafios). Sem esta separação a Honda não teria tido oportunidade de começar do zero, de rever tudo, sob a proteção feroz da Red Bull que soube esconder os fracassos e enaltecer os sucessos. Se a parceira que todos desejavam que desse certo tivesse continuado, talvez tivesse havido algum sucesso, mas ambas as partes teriam mantido alguns problemas que só um recomeço total permitiram que fossem eliminados. Foi uma pena não ver a McLaren/Honda dar o que todos queriam. Mas talvez graças a isso ambas as estruturas estão agora mais fortes e mais preparadas para o futuro.











