Nicholas Latifi acabou por se tornar em personagem principal num filme que não era dele e com isso pagou uma fatura amarga. O piloto lançou um comunicado onde fala do que tem vivido nas últimas semanas, depois do seu erro que provocou a entrada do Safety Car e que virou do avesso a última corrida do ano.
Ser uma figura pública ou um atleta de alta competição implica estar sempre debaixo dos holofotes, estar constantemente a ser analisado, avaliado. É um fardo por vezes pesado mas indissociável da posição que se ocupa. Muitos atletas despertam ódios e paixões com tudo o que isso acarreta. Mas Latifi acabou por viver algo que nem as maiores estrelas do mundo deveriam viver. Depois do seu erro em Abu Dhabi, foi inundado por mensagens de ódio, violência e ameaças de morte. E isto deveria fazer-nos pensar um pouco no mundo em que vivemos e na forma como vemos o desporto.
Houve tempos em que era quase questão de orgulho separar as águas, e diferenciar de forma clara os adeptos do futebol e dos desportos motorizados. Se os primeiros eram sinónimo de confrontos, violência e vandalismo, os segundos faziam questão de mostrar a postura saudável de boa convivência num desporto emocionante e apaixonante. O problema é quando a paixão sobe para níveis superiores. O que vivemos este ano foi um “boom” no interesse na F1 com foco nas duas estrelas: Max Verstappen e Lewis Hamilton. Uns gostam mais de Max, outros gostam mais de Lewis e tudo bem com isso. É assim que deve ser. O que apodrece uma conversa que, apesar de por vezes acalorada, mas de qualquer forma interessante é quando se passa do esgrimir opiniões ao confronto verbal e às ameaças. Os jornalistas desta casa já estão habituados a serem brindados com regularidade com insultos gratuitos e por vezes injustificados, quando um texto beneficia mais um ou outro piloto. E não poucas vezes as mesmas pessoas elogiam quando outro texto já beneficia o piloto que apoiam. O facto de isso acontecer deixa-nos sossegados quanto à nossa vontade de nos mantermos neutros numa luta que nos apaixonou. Mas dá-nos também um pequeno vislumbre do que pode ser ter de lidar com o ódio e a parvoíce de pessoas que teimam em apodrecer algo de tão belo quanto o nosso desporto.
É ridículo que um piloto de F1, que não está ligado à luta pelo título e que até acaba por prejudicar a equipa com a qual a sua estrutura tem melhores ligações, ser ameaçado de morte por um erro, apenas porque estava a lutar por uma posição longe dos pontos. Apenas porque o seu erro tem consequências para outros pilotos, foi acusado, humilhado e ameaçado. É justo dizer que erro, acaba por ser inevitável avaliar as prestações de Latifi ao longo do ano e fazer juízos de valor sobre a sua qualidade. Isso faz parte do desporto. Agora ameaçar de morte um ser humano apenas porque errou traz um amargo de boca demasiado grande para ficar calado.
Os “bravos do teclado” continuam a ameaçar, a injuriar, a provocar sem consequências, num bullying que teima em ser mais intenso. Os “bravos do teclado” que insistem em degradar conversas saudáveis, que trazem questões raciais, sociais e políticos que não pertencem a este tipo de dialogo. Os “bravos do teclado” para quem o mundo ou é preto ou branco, quando afinal não é nem um nem outro. O radicalismo que se vê em certas opiniões despoleta este tipo de comportamento que deve ser severamente castigado e repudiado.
Felizmente a percentagem de comentários construtivos ainda é considerável e permite-nos, a todos, por vezes ver pontos de vista interessantes, que trazem mais cor ao debate, uma postura louvável que ainda vamos vendo. Mas num mundo do tudo ou nada, este tipo de fenómeno será cada vez mais frequente e é preciso arranjar formas de impedir que tal aconteça.
Que o desporto motorizado seja ainda um mundo onde fãs da Mercedes e da Red Bull, de Max Verstappen e de Lewis Hamilton possam beber um copo juntos e que possam dizer “os nossos rapazes deram-nos um espetáculo e tanto”. Que as corridas sejam, em pista e no mundo digital, um local de paixão, por vezes fervorosa, mas onde a razão acaba por imperar. Talvez assim possamos ter ainda alguma fé numa sociedade que teima em dar sinais negativos.
Eis a carta aberta de Latifi:
“Olá a todos,
Tenho-me mantido propositadamente afastado dos meios de comunicação social para deixar as coisas assentarem dos acontecimentos da última corrida.
Muito tem sido feito da situação que surgiu após a minha desistência em Abu Dhabi. Recebi milhares de mensagens para as minhas contas nos meios de comunicação social – publicamente e através de DMs. A maioria tem-me apoiado, mas também tem havido muito ódio e abusos.
Tenho tentado descobrir a melhor maneira de lidar com isto. Será que o ignoro e continuo a fazê-lo? Ou será que o aborde e enfrento a questão maior que, infelizmente, é uma realidade quando se utilizam as redes sociais?
Esta não é uma afirmação qualquer, mas sim eu a dizer o que penso, na esperança de que isto possa desencadear outra conversa sobre o bullying online e as consequências drásticas que pode ter para as pessoas. Utilizar as redes sociais como um canal para atacar alguém com mensagens de ódio, abuso e ameaças de violência é chocante – e algo para que estou a chamar a atenção.
Voltando ao fim-de-semana da corrida, assim que a bandeira axadrezada caiu, soube como as coisas iriam provavelmente correr nos meios de comunicação social. O facto de achar que seria melhor apagar o Instagram e o Twitter do meu telefone durante alguns dias diz tudo o que precisamos de saber sobre o quão cruel o mundo online pode ser.
O ódio, abuso e ameaças que se seguiram nos meios de comunicação social não foram realmente uma surpresa para mim, pois é apenas a dura realidade do mundo em que vivemos neste momento. Não me é estranho ser falado negativamente em linha, penso que todas as pessoas desportivas que competem no palco mundial sabem que estão sob escrutínio extremo e isto vem por vezes com o território.
Mas como já vimos vezes sem conta, em todos os desportos diferentes, basta um incidente na altura errada para que as coisas fiquem completamente desproporcionadas e para que o pior aconteça nas pessoas que são chamadas “fãs” do desporto. O que me chocou foi o tom extremo do ódio, abuso, e mesmo as ameaças de morte que recebi.
Reflectindo sobre o que aconteceu durante a corrida, havia realmente apenas um grupo de pessoas a quem eu precisava de pedir desculpa pelo DNF: a minha equipa. Fi-lo logo a seguir. Tudo o resto que se seguiu estava fora do meu controlo.
Algumas pessoas disseram que eu estava a correr por uma posição que não importava, restando apenas um punhado de voltas. Mas quer eu esteja a correr por vitórias, pódios, pontos ou mesmo o último lugar, darei sempre o meu melhor até à bandeira quadriculada. Sou o mesmo que qualquer outro piloto da grelha a esse respeito. Para as pessoas que não compreendem ou não concordam com isso, por mim tudo bem. Pode ter a sua opinião. Mas usar essas opiniões para alimentar o ódio, o abuso e as ameaças de violência, não só para mim, mas também para as pessoas mais próximas de mim, diz-me que estas pessoas não são verdadeiros adeptos do desporto.
Felizmente, estou suficientemente confortável na minha própria pele, e já estou neste mundo há tempo suficiente para poder fazer um bom trabalho, deixando que qualquer negativismo se sobreponha a mim. Mas sei que não sou o único a pensar que um comentário negativo parece ser sempre mais destacado – e por vezes pode ser suficiente para afogar 100 positivos.
As pessoas terão as suas opiniões, e isso é óptimo. Ter uma pele espessa é uma grande parte de ser atleta, especialmente quando se está constantemente em posição de ser escrutinado. Mas muitos dos comentários que recebi na semana passada cruzaram a linha em algo muito mais extremo. Preocupa-me a forma como alguém poderia reagir se este mesmo nível de abuso fosse alguma vez dirigido contra eles. Ninguém deve deixar que as actividades de uma minoria vocal dite quem eles são.
Os acontecimentos da última semana fizeram-me ver como é importante trabalhar em conjunto para impedir que este tipo de coisas aconteça e apoiar aqueles que estão a receber. Compreendo que é pouco provável que convença aqueles que agiram desta forma em relação a mim a mudar os seus modos – e podem até tentar usar esta mensagem contra mim – mas é correcto chamar a atenção para este tipo de comportamento e não ficar calado.
A todos os fãs e pessoas que me apoiaram durante toda esta situação, quero dizer um enorme obrigado. Já vi e li muitas das vossas mensagens e elas são muito apreciadas. É bom saber que tenho tantas pessoas a apoiar-me.
O desporto é, pela sua própria natureza, competitivo – mas deve unir as pessoas, não separá-las. Se partilhar os meus pensamentos, e destacar a necessidade de acção, ajuda apenas uma pessoa, então valeu a pena.
Enquanto aguardamos o Ano Novo, espero sinceramente que as minhas experiências após o Grande Prémio de Abu Dhabi ajudem a reforçar essa mensagem, e a minha resolução de Ano Novo é olhar para formas de poder apoiar esse processo. Sejam amáveis todos!
Quero desejar-vos a todos umas boas férias, que fiquem seguros, e espero que todos nós voltemos ao bom caminho em 2022.
Nicky”











