Uma época tão intensa e com tanto drama estava quase condenada a terminar em polémica. Hoje, a Mercedes decidiu não apelar da decisão tomada pelos comissários no GP de Abu Dhabi, mas fica no ar a sensação de que a história está mal contada e a FIA fica mais uma vez mal na fotografia.
Escusamos de recordar tudo o que aconteceu em Abu Dhabi e que foi já exaustivamente analisado. A Mercedes recorreu da decisão e segundo o seu advogado, havia boas bases legais para um resultado favorável. Olhando ao que dizem os regulamentos, a Mercedes tem a razão do seu lado. Lendo os regulamentos que estão em causa neste caso, é fácil chegar à conclusão que se quis saltar por cima das regras para dar um final à Hollywood a uma época que nos fez vibrar. Mas não se pode passar por cima das regras ou deturpá-las de forma a beneficiar o espetáculo. Teria sido uma pena se a corrida tivesse acabado com Safety Car? Sem dúvida, mas se era o correto a fazer, então que se fizesse. Teria sido uma pena se a direção de corrida mantivesse a ordem como estava e Max Verstappen tivesse de passar os cinco carros à sua frente o que certamente lhe retiraria a hipótese de um último ataque ao Lewis Hamilton. Mas os regulamentos teriam sido cumpridos. Por isso a Mercedes avançou com o protesto.
Não está aqui em causa a justiça da vitória de Max Verstappen, qualquer que fosse o piloto, o título estaria bem entregue, mas está aqui um comportamento que já é costume na FIA, que é de dobrar certas regras para chegar aos fins desejados. Por um lado, é pena que a Mercedes tenha dado o passo atrás em relação ao apelo. Seria o castigo certo para a FIA, que teima em não resolver problemas e a manter-se envolta num manto de suspeitas. Mas por outro mancharia a festa de Max Verstappen que não tem culpa e talvez por isso a Mercedes tenha optado por fechar este assunto, para já, para que a festa de hoje fosse feita sem a sombra do apelo.
Mas já se sabe que nisto da F1 há sempre o reverso da medalha e a FIA já nos habituou a negociar com as equipas para que não haja falatório. Basta recordar o caso da Ferrari e do motor ilegal que foi abafado entre as duas partes. São estas decisões que fazem os fãs desconfiar e que dão asas a teorias da conspiração. Não é fácil gerir um desporto tão complexo, mas era evitável complicar ainda mais. A Mercedes calou-se agora, mas talvez não se vá calar no futuro e a Mercedes é uma parte importante do plano a médio prazo da F1. Caso a Mercedes batesse agora com a porta, seria péssimo para a F1 que agora começa a conquistar novos fãs. Mais uma fez a F1 é a sua pior inimiga.
Para já, a história está concluída, Verstappen pode fazer a festa e a Mercedes aceita este desfecho, no entanto nem Toto Wolff nem Lewis Hamilton vão à Gala, numa afirmação clara de que não aceitam o desfecho (talvez a casa mãe tenha feito pressão para acabar assim). A Mercedes e Toto Wolff já começaram a abanar com a carta da possível saída de Lewis Hamilton, o que seria também um golpe tremendo nesta fase. A F1 é um mundo muito político, com tudo o que isso implica.










