
Era perfeitamente esperada, mas a ausência do Grande Prémio de Portugal do calendário de 2022 do Campeonato do Mundo de Fórmula 1 causou alguma animosidade entre os adeptos lusos. Neste artigo explicamos o porquê deste afastamento.

Há uns anos atrás corria nas redes sociais um vídeo de uma entrevista a Nelson Piquet, então a gozar o seu segundo título, em que o seu interlocutor lhe perguntava o que motivava os pilotos de Fórmula 1 a correr, esperando uma resposta profunda e filosófica. Mas o brasileiro desmontou completamente a questão respondendo: “atrás da ‘grana’, meu amigo! Atrás da ‘grana’!”
Bem, a questão com o Grande Prémio de Portugal não é muito diferente… É uma questão de ‘grana’.
A versão mais recorrente entre alguns adeptos é que quando a Fórmula 1 precisou de Portugal para poder ter um número mínimo de provas durante a pandemia da COVID-19 não se escusou a fazer uso do Autódromo Internacional do Algarve, mas agora que existe menos constrangimentos de movimentos “deitou fora” a pista lusa.
A primeira coisa que temos de perceber é que, se a Fórmula 1 beneficiou da sua passagem pelo circuito algarvio, este, e o nosso país, também beneficiaram de inúmeras formas – projecção internacional, impacto na economia local, publicidade global da região e do país – por um valor muito abaixo daquilo que é normal pagar por uma prova da categoria máxima do desporto automóvel.
Para que um organizador possa ter um Grande Prémio terá de desembolsar uma quantia, no mínimo, na região das dezenas de milhões de euros, valor que está para lá daquilo a que a Parkalgar pode chegar sem apoios estatais.
Poderia fazer algum sentido estratégico para Portugal ter um Grande Prémio de Fórmula 1 no Algarve, mostrando ao mundo que a pandemia está controlada no nosso país e que estamos em condições de receber turistas.
Era ainda uma forma bastante eficaz de fomentar a economia local, sendo o Algarve a região portuguesa que mais sofreu com as restrições causadas pela COVID-19 por viver quase exclusivamente do turismo.
No entanto, como se verifica atualmente com a discussão do Orçamento de Estado para 2022, não existe ambiente político para que o governo possa investir cerca de trinta milhões de euros numa prova de Fórmula 1.
É claro que haverá sempre aqueles que dirão que a FOM poderia fazer um ‘desconto’ a Portugal, já que os pilotos gostaram tanto dos desafios apresentados pelo traçado do Autódromo Internacional do Algarve, mas é preciso ter em conta que, para além de um desporto, a Fórmula 1 é também um negócio que dá trabalho a muita gente através de diversas organizações e das equipas.
Estas dependem em grande parte do dinheiro distribuído pela FOM originado pelos direitos comerciais da categoria e dos quais fazem parte a taxa que cada organizador paga pela honra de ter um Grande Prémio.
Em 2019, o último ano da normalidade, a quantia que os promotores das provas pagaram na totalidade ultrapassou os seiscentos milhões de euros, deste bolo quase metade ruma aos cofres das equipas, dependendo algumas delas deste dinheiro para sobreviver.
Percebe-se, portanto, que não é possível à FOM começar a fazer descontos por agradecimento, até porque 2020 e 2021 foram anos em que as contas não foram as mais brilhantes. Bem longe disso.
Na verdade, Portugal beneficiou da pandemia da COVID-19 para ter um Grande Prémio de Fórmula 1 em dois anos consecutivos, foi fantástico para todos os adeptos e foi um esforço profundo da Parkalgar que conseguiu reunir as condições para que isso acontecesse.
Com o regresso à normalidade, para onde esperamos estar a caminhar, sem trinta milhões na mão, era natural que ficássemos de fora do calendário, como se verificou com a publicação do calendário de 2022… Tudo normal e esperado. Só para terem uma ideia dos valores que movimenta a Fórmula 1, o Rali de Portugal, prova do WRC, custa, mais ou menos, 3.5 milhões de euros. Como se percebe, a Fórmula 1 é quase 10 vezes mais…











