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CRÓNICA de “um Rali que não foi…”

José Luis Abreu by José Luis Abreu
20 Setembro, 2021
in CRR - CAMPEONATO REGIONAL RALIS, Ralis
A A
CRÓNICA de “um Rali que não foi…”

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Por Rui Francisco Soares (Engº Elfyn Evans na Toyota Gazoo Racing WRT)

Rui Francisco Soares, Armindo Araújo, Bia Pinto e Pedro Queirós

Escrever sobre a minha participação no Rali de Santo Tirso 2021, seria uma triste e curta história sobre os 10,95 km do parque de assistência até à partida da primeira especial, uma vez que que o meu “projeto a longo prazo” decidiu que “não era” dia, na partida para a mesma, forçando-me a abandonar logo aí. Posto isto e porque eu tinha prometido uma crónica desta aventura, “por dentro”, achei por bem contar como chegámos até aqui.

Como muitos apaixonados dos ralis em particular, um dos meus ídolos foi o Colin McRae. O meu Pai, o maior dos meus ídolos, sempre seguiu o rali de Portugal e, em 1995, fui “mordido” pelo bicho da Subaru, principalmente pela condução exuberante do piloto Escocês. Enquanto criança sonhava em guiar um desses carros mas depressa percebi que seria um sonho bastante difícil de concretizar.

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Os anos passaram e, em 2011, tive a oportunidade de adquirir um Subaru Impreza GT de série. Não era um épico Grupo A, construído por um conceituado preparador Inglês, mas, tal como todos os carros dessa época – a minha preferida ainda hoje – tinha a carroçaria correta. Não passaram muitas semanas até decidir que iria construir a minha própria réplica daquele carro de sonho e o objectivo era simples – Teria de ser igual ao original por fora e poder participar no San Marino Rally Legends.

Este tem sido um “projeto a longo prazo”, que tentei tirar da garagem para ir fazendo algumas provas, incluindo o RallySpirit em 2015, mesmo não tendo o carro acabado. Fui contando com muitas ajudas que permitiram ir concluindo todas as fases do projeto e, durante o Rali Vinho Madeira deste ano, surgiu a ideia de fazer o rali de Santo Tirso “entre Amigos”, ou seja, com várias pessoas do Team Armindo Araújo. O carro já não estava “longe” da sua conclusão, mas o tempo entre as provas do CPR e do WRC não tornavam a logística simples no que toca a ter tempo para ter o carro pronto. Uma vez mais, a ajuda de vários Amigos, permitiram que eu estivesse à partida do rali.

Com o aproximar da data da prova, o apetite foi sendo aguçado – O regresso do Pedro Queirós ao lado do Armindo Araújo e o Nuno Coelho voltar a correr, ainda para mais, com o Luis Ramalho ao lado, foram duas daquelas “notícias” que só por si já me faziam querer estar no rali! Mas poder guiar um carro durante o rali seria a cereja no topo do bolo. Decidi convidar a Bia Pinto para me acompanhar nesta aventura e oficializamos a inscrição.

Para quem está habituado a preparar um rali “apenas” a pensar na afinação de um carro e numa possível estratégia para um piloto, ver-se a braços com toda a logística de fazer um rali, pode ser assustador. Licença desportiva, componentes homologados em dia, hotéis, mecânicos, reconhecimentos… são tudo “preocupações” diferentes, mas extremamente enriquecedoras quando fazemos uma prova. Tudo pronto? Vamos lá.

Chego do Rali da Grécia e começa verdadeiramente a semana do rali. Últimos preparativos feitos, decoração acabada, algumas surpresas e parece estar pronto. Mala feita e vou até Santo Tirso.

Começam os reconhecimentos. Enquanto Eng. de carro, faço reconhecimentos de todas as provas do WRC mas aqui as notas são outras. A fricção, ondulação, superfície, sombra… tudo isso deixa de fazer parte das “notas” e é trocado pelas Esquerdas e Direitas de 1 até 6 com as quais eu espero descrever tão bem quanto possível o que vamos apanhar e de uma forma que não aborreça a Bia de tédio. Passagem a “ditar” feita. Venha agora a passagem a “confirmar”… Ter alguém ao nosso lado a “cantar” o que vai aparecendo é um jogo mental do “ver e não ver” que acrescenta outro “gozo à coisa”.

Um “Topo (cego) sobre Direita 6” abre as hostilidades do nosso teste, mas também faz o “click” para confiar no que ouço e “guiar de ouvido”. A Bia revela-se uma ótima parceira nesta aventura e a confiança vai aumentando. O carro está bem mais dócil agora que está completo a nível mecânico e permite algum “abuso”.

Pequeno teste antes do rali concluído e vamos para as verificações. Primeiro as documentais e depois as técnicas. Ali está, o meu “projeto” a receber os olhares dos comissários, onde se incluía o Sr. Jorge Paulo, um dos meus ídolos na técnica no nosso país. Depressa a conversa entra nos detalhes e eu fico deliciado com a qualidade da “passagem de testemunho de conhecimento” que é feita em tão pouco tempo. Autocolante no arco de segurança de “Verificado” e estamos prontos para o rali.

No papel é simples. Inscrição, teste, reconhecimentos, verificações, carro em parque e rali. Na prática acontecem 1001 coisas pelo meio que reforçam esta “aura” que têm os ralis.

E então chegamos a sábado, dia de prova. O carro vai para o parque fechado de partida e aproveitamos o tempo até chegar a nossa hora de partida para “matar saudades” entre o pessoal que já conhecemos e vamos conhecendo mais gente. São muitas caras conhecidas e várias delas que tiveram um papel na minha carreira, mas é entre os nossos Amigos que acabamos por passar mais tempo em “amena cavaqueira”.

Uma última foto com um dos maiores impulsionadores desta presença, o Armindo Araújo, e chegava a hora – faltavam 10m para a saída e a Bia deu a ordem para entrar no parque. Normalmente, por esta altura, recebo a mensagem “carro arrancou ok”. Desta vez não precisava. O corpo vibrava e eu sabia que tinha arrancado. A ansiedade começa a chegar e o nervosismo também. São rotinas diferentes. Faço tudo o que me é pedido e estamos é-nos entregue a carta de controlo. Está oficialmente dada a partida para o nosso rali.

Ligação para o parque de assistência, uma última limpeza de vidro, últimas piadas da equipa sobre “o Eng que virou piloto por um dia” e as mensagens de Boa Sorte dos pilotos verdadeiros. É nesta altura que me sinto um privilegiado por ter tanta gente boa a apoiar-me. A responsabilidade cresce, afinal de contas tudo o que eu “lhes peço” eu agora ia ter de fazer.

Gasolina metida e lá vamos nós para o 1º troço. Aquecer pneus na ligação, uns últimos comentários sobre o troço e paramos atrás dos concorrentes que partem à nossa frente. Com o carro mais divertido de guiar que nunca, aviso a Bia que vai ser uma viagem emocionante”. Pressão de pneus revista, capacetes metidos, câmara ON e praticamos um último arranque antes do verdadeiro para o rali. E foi assim que acabou. Um problema de transmissão, “falta de uso” como diria um bom colega, deixa o carro com pouca capacidade de se mover. Tentamos arrancar para o troço, na esperança de que poderia dar para fazer algo na ligação seguinte mas não havia mesmo nada a fazer.

Pensei várias vezes durante a semana sobre as diversas possibilidades de abordar o gancho à esquerda, do asfalto para o paralelo, no troço da Mourinha-Hortal mas nenhuma delas era em frente, passando a cancela que delimita a saída de emergência e seguir caminho a reboque de Amigos. A frustração é enorme, fica um enorme amargo de boca pois, após tanto trabalho de preparação, nem conseguimos arrancar verdadeiramente para o rali.

São várias as emoções que passam por nós nestes momentos mas há uma que se sobrepõe a todas – a felicidade. Não escondo que ainda me sinto triste com o resultado, ou falta dele, nem sei bem como pensar, mas Feliz por ter Amigos e família tão bons como eu tenho a sorte de ter que, não só me apoiaram para estar no rali, como me deram o ombro quando tudo correu menos bem.

A todos muito Obrigado e espero regressar em breve, desta vez para arrancar a sério!

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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