Foi preciso esperar nove anos, 3213 dias, mas a McLaren finalmente regressou ao lugar mais alto do pódio. Um prémio merecido para uma equipa que nunca baixou os braços e aos poucos recupera o seu estatuto na F1. Os sorrisos já era muito mais frequentes mas ontem foram maiores do que nunca.
Diz-se frequentemente que a F1 é dura, difícil e que só os melhores conseguem ser bem sucedidos. É preciso misturar talento, dedicação e ter força para enfrentar os maus momentos. Mas há alturas em que os maus momentos demoram mais a passar e para a McLaren foi uma travessia do deserto bem longa. Nove anos sem vencer é uma eternidade para uma estrutura com a qualidade e o pedigree da McLaren. Mas essa travessia foi concluída e a McLaren voltou a ser feliz.
A crise
Depois de anos a fio no topo da categoria, lutando sempre pelas melhores posições, 2013 mudou tudo para a equipa de Woking e começou um ciclo negativo que demorou sete épocas a ser contrariado. De 2008 a 2012 a McLaren terminou sempre no top3 em luta com a Red Bull e a Ferrari, com os Bulls a levarem a melhor e a McLaren a ter algum ascendente sobre a Scuderia, 2012 deu o terceiro lugar, mas com uma ponta final de época muito interessante, com o MP4/27 a mostrar ser um carro rápido e capaz de ganhar. Mas os engenheiros consideravam que o carro não dava garantias para 2013. Apesar de rápido, o monolugar não era uma plataforma completamente entendida pelos engenheiros da equipa sediada em Woking e para evitar surpresas desagradáveis, resolveram fazer um carro do zero, o MP4/28, um ano antes da mudança de regulamentos para motores híbridos. A mudança revelar-se-ia desastrosa e a McLaren acabou com um carro muito menos competitivo e que permitiu apenas chegar ao quinto lugar. A nova era híbrida não trouxe melhorias e apesar de terem o melhor motor da grelha e terem terminado no pódio a primeira corrida de 2014, a McLaren continuava com problemas e não conseguia ser competitiva o suficiente para ameaçar os líderes e terminou 2014 em quinto também, atrás de uma Ferrari perdida, uma Williams renascida, da Red Bull e dos Mercedes que se tornariam as referências desde essa altura.
Ron Dennis, que tinha abandonado o cargo de CEO para se focar apenas na presidência do grupo, estando mais focado no desenvolvimento da marca fora das pistas, regressou em 2014 para voltar a colocar a equipa no caminho do sucesso. O plano passava por reeditar a parceria de sucesso dos anos 80 com a Honda, que passaria a fornecer as unidades motrizes além de um cheque anual de 100 milhões. Com a McLaren a ser fornecida em exclusivo pela Honda, podia funcionar quase como a Mercedes e Ferrari, usando motores “próprios” e sem depender de fornecedores que também competem em pista. Na teoria a visão de Dennis era a ideal (tanto que a Red Bull tentou replicar isso passado alguns anos), mas a prática revelou-se um pesadelo.
Bater no fundo
Em 2015 a Honda entrou com pouca preparação e com uma unidade motriz longe de ser competitiva e fiável. Desde cedo se entendeu que a relação entre a McLaren e os japoneses não era harmoniosa e essa sensação foi se confirmando ao longo do tempo. 2016 não trouxe melhorias e no final da época a surpresa aconteceu… Ron Dennis, o homem que reergueu a equipa nos ano 80 e lhe deu a dimensão que tem hoje foi afastado do cargo de CEO pela maioria dos acionistas deixando para trás um legado de 35 anos. Em 2017 o britânico vendeu a sua percentagem da equipa e desligou-se definitivamente da “sua” McLaren. Ver a McLaren sem Dennis foi um choque para muitos e o segundo homem a colocar a equipa na rota do sucesso ficava de parte.
Com a saída de Dennis os acionistas foram buscar um nome conhecido do automobilismo… Zak Brown.
Brown, homem da Califórnia, correu durante dez anos, começando em 1986 nos, karts, F3 britânica, Indy Lights e GT2. Depois de um interregno entre 2001 e 2005, voltou de forma esporádica às pistas criando em 2009 a United Autosports com Richard Dean, além de começar a focar-se nos negócios onde se tornou uma referência na área do marketing ligado ao desporto motorizado e de ser presidente não executivo de uma das maiores plataformas mundiais de comunicação de desporto motorizado.
O recomeço
Brown chegou com a missão de devolver à McLaren a glória do passado, com uma herança pesada.
Zak Brown não tinha uma tarefa fácil quando assumiu o comando da McLaren. Ron Dennis era já um nome mítico da F1, que transformou a McLaren numa equipa de topo e numa marca globalmente conhecida. O contributo de Dennis é inquestionável e deu uma dimensão ainda maior ao legado de Bruce McLaren, fundador da equipa que ainda hoje, passado tantos anos é recordado com saudade pela sua tenacidade, caráter e talento.
A McLaren estava destinada a grandes feitos, com homens de visão, que não olharam a meios para atingir os fins. Foi esta herança pesada que Zak Brown começou a carregar em 2016. Chegou com a missão de reerguer uma equipa perdida, sem patrocinadores de monta, sem competitividade e sem ânimo e com uma das maiores estrelas da F1, Fernando Alonso, sem carro para mostrar o seu talento. Encontrou um cenário longe do ideal, mas veio determinado em usar todo o seu vasto conhecimento no automobilismo para ter sucesso.
Os primeiros tempos foram duros para Brown. A equipa estava convencida que tinha o melhor chassis e que apenas a deficitária unidade motriz da Honda impedia que se lutasse pelo título. O foco passou a estar na altura em Alonso, que chegou à equipa pela mão de Dennis, numa espécie de” All In” no espanhol. Era preciso dar-lhe as ferramentas mínimas para regressar ao topo o mais rapidamente possível. Esta pressão de dar a Alonso um carro minimamente decente, esperando pelos milagres do asturiano, colocaram ainda mais pressão na equipa, que por sua vez colocava mais pressão na Honda, deteriorando uma relação cada vez menos saudável. Sem esperança no trabalho dos nipónicos, a McLaren apostava nos motores Renault para chegar ao sucesso a curto prazo. Mas os problemas eram mais profundos do que Dennis e até Brown poderiam ter pensado.
As lacunas a nível estrutural ficaram expostas quando a McLaren já não se podia mais desculpar com a falta de capacidade das unidades da Honda… a performance de 2017 mostrou de forma clara que o problema da McLaren não era apenas o motor. Uma organização hierárquica que não permitia avanços rápidos, uma infraestrutura a precisar de melhorias e uma abordagem que tinha de ser repensada. Tudo tinha de ser revisto. Alonso bateu com a porta no fim desse ano, apesar de ter renovado no começo da época e a McLaren ficava sem a sua estrela, sem argumentos, com cinco anos de performances pobres e o ânimo arrasado.
A reestruturação
Foi o momento de definição para Brown e agora com já pouco menos de duas épocas de experiência tratou de fazer as mudanças necessárias, sem a pressão de dar um carro vencedor a um campeão do mundo. Foi inteligente na abordagem e ao invés de rasgar tudo e começar do zero, deixou que numa primeira fase o muito talento que reside em Woking estabelecesse as fundações enquanto procurava soluções para o futuro, sob a batuta de Pat Fry, que sairia no final da reestruturação. As adições de James Key para diretor técnico, um nome já há muito falado para grandes equipas, depois do excelente trabalho na Toro Rosso e de Andreas Seidl para diretor da equipa trouxeram a clarividência e o rumo que a equipa precisava.
O trabalho feito pelos homens da casa merece destaque e o carro de 2019 já apresentava uma base interessante, muito graças ao trabalho de Fry. Mas Key e Seidl foram duas apostas em cheio, em especial o alemão que foi arrancado do reino da Porsche para reeditar o seu excelente trabalho no projeto de endurance da marca alemã.
A evolução da equipa em 2019 foi clara. Olhando de uma forma simplista, apenas para os resultados da qualificação na última prova, em Abu Dhabi, em 2014 a diferença para a Mercedes era de 1,4 seg., Em 2015 foi de 2,4seg, distância que se manteve mais ou menos inalterada em 2016 e 2017. Em 2018 a diferença foi de quase três segundos, mas em 2019, passou a ser de apenas 1,6 seg. e em 2020… 0,5 seg. O salto que a equipa deu em 2019 foi tremendo, sendo consolidado em 2020. Em dois anos a McLaren foi a equipa que mais evoluiu na F1.
Brown teve também a estrelinha da sorte do seu lado e a aposta numa dupla jovem para esta nova era parecia demasiado arriscada, mas Carlos Sainz integrou-se de forma perfeita na equipa, criou uma ligação raramente vista com Lando Norris que se mostrou um jovem talentoso, irreverente mas com capacidade para assumir o desafio. A atmosfera sem pressão permitiu que ambos mostrassem o melhor de si desde cedo e o trabalho conjunto da equipa foi melhorando a cada corrida.
Em 2021 Sainz abandonou a McLaren para abraçar o desafio Ferrari, mas a McLaren foi capaz de reatar um namoro antigo com Daniel Ricciardo que não hesitou em mudar-se da Renault para a equipa britânica. Esperava-se que 2021 fosse o consolidar do bom momento da McLaren mas temos assistido a mais que isso. A equipa começa, aos poucos, a mostrar que pode ombrear com as equipas grandes. Ainda falta muito trabalho é certo, mas olhando para a vitória em Monza, a McLaren conseguiu a troca mais rápida de pneus, conseguiu colocar em prática duas estratégias que permitiram à equipa vencer, ajudados com duas prestações excelentes por parte dos pilotos. A qualidade no trabalho técnico é clara, com mérito para James Key, o homem da batuta nesta área, e nem a exigente troca de unidades motrizes, o que poderia ter significado um abaixamento de forma, afetou a equipa. O MCL 35M é provavelmente o terceiro carro mais rápido da grelha, o que era uma miragem há três anos. Mas aqui destaca-se o contributo de Lando Norris.
O regresso às vitórias
O jovem piloto tem estado numa forma tremenda, denotando confiança, velocidade e acima de tudo uma maturidade impressionante. A sua postura no final da corrida de Monza é a prova disso, colocando os interesses da equipa em primeiro, refreando a vontade de conquistar a primeira vitória. “O meu tempo virá” disse nas entrevistas, sinal de confiança em si no seu trabalho e de respeito pelo trabalho da equipa. Lando Norris é provavelmente o piloto em melhor forma a par de Lewis Hamilton e Max Verstappen, algo que se mantém desde o arranque da época. Daniel Ricciardo não teve uma primeira metade de época fácil mas esta vitória mostra outro ponto forte desta McLaren… o bom ambiente e o apoio incansável. Ricciardo demorou a encontrar o norte mas a equipa nunca desistiu dele e tentou sempre encontrar soluções, nunca se notando uma atmosfera de pressão, para um piloto que deveria apresentar resultados quase imediatamente, dada a qualidade e a experiência. Mas tal não aconteceu e Ricciardo escudou-se do ambiente leve da equipa para manter a cabeça erguida e, passo a passo, melhorar.
As imagens dos festejos da McLaren no final da prova em Itália só não fizeram sorrir quem não tem qualquer ligação com a F1. O regresso de uma equipa mítica, que foi casa dos melhores pilotos da história, ao topo é motivo de festa. Foi bom ver a alegria de Brown, ao perceber que a sua reestruturação está de facto a funcionar. Foi bom ver a festa de Andreas Seidl, um homem pouco dado a euforias, mas que perdeu o controlo e gritou de alegria, ele que é um dos grandes responsáveis por esta melhoria tremenda. Foi bom ver o shoey do “regressado” Ricciardo, a alegria do “pequeno” Lando, feliz por ver a sua equipa de novo no topo.
O sorriso McLaren de volta
A paixão de Bruce McLaren pela engenharia, pela perfeição mecânica, pelo engenho e pela parte da expansão dos negócios foi honrada de certa forma por Ron Dennis, que usou a mesma abordagem perfecionista para fazer crescer a marca na F1 e nas estrada. Com Ron Dennis a McLaren criou os alicerces para uma marca forte de alcance global. Com Zak Brown a visão é mais ampla, mais aberta. A aposta em diversas categorias, o ambiente mais leve, mais descontraído e os sorrisos em quem trabalha na McLaren são também um reviver dos primórdios da McLaren em que Bruce não era apenas o chefe, mas sim mais um dos mecânicos que, apesar da tremenda carga de trabalho nunca perderam o sorriso, graças ao humor de Bruce. Hoje em dia a McLaren é provavelmente uma das melhores equipas para se trabalhar na F1, graças a esta mudança radical de mentalidade. O cinzento prateado monótono e sombrio deu lugar ao laranja papaya vivo, irreverente e alegre. A McLaren dobrou definitivamente o seu Cabo das Tormentas e vai agora em busca da glória que já lhe pertenceu.











