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O SEGUNDO ADEUS DE SCHUMACHER

José Luis Abreu by José Luis Abreu
29 Dezembro, 2024
in Autosport Exclusivo, AutoSport Histórico, F1, FÓRMULA 1
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O SEGUNDO ADEUS DE SCHUMACHER

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Fez no passado dia 23 de dezembro 15 anos que Michael Schumacher foi anunciado pela Mercedes. Um regresso algo surpreendente do Barão Vermelho que veio do “descanso” para ajudar a erguer o que se tornou numa estrutura que dominou a F1 como nunca antes se tinha visto.

A Mercedes começou com algumas dificuldades e Schumacher acabou por terminar o seu percurso nos Flechas de Prata sem atingir o sucesso a que nos habituou nos tempos da Ferrari. Mas a sua influência acabou por ajudar a colocar a equipa no rumo certo. O seu último stint acabou por durar “apenas” três anos.  Seis anos após se ter despedido da F1 com grande pompa e circunstância, em Interlagos, 2006, Michael Schumacher voltou a abandonar os Grandes Prémios de forma muito mais discreta, depois de três anos frustrantes na Mercedes. No entanto, foram três anos em que o alemão evoluiu muito a nível humano, como admitiu  e ficou à vista de todos…

Com apenas um pódio no seu currículo em quase 60 corridas disputadas com a Mercedes, Michael Schumacher conheceu a outra face da F1 nestes três anos em que correu com a marca alemã. Batido por Nico Rosberg no final dos três campeonatos que disputaram em conjunto,  Schumacher ficou a anos-luz da eficácia demonstrada na primeira fase da sua carreira, quando com a Benetton, primeiro, e com a Ferrari, depois, dominou o mundo dos Grandes Prémios a seu bel-prazer.

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O veterano alemão foi, aliás, o primeiro a reconhecer que falhou por completo os seus objetivos: “Não eram estes os resultados que eu esperava conseguir nesta segunda fase da minha carreira. Quando voltei, em 2010, pensei que bastariam dois anos com a Mercedes para chegar ao título, mas a verdade é que como equipa nunca estivemos em posição de lutar pelos lugares da frente ao longo destas três temporadas. Pessoalmente, saio convencido que ainda posso lutar ao mais alto nível, como demonstrei em diversas ocasiões, sobretudo nos últimos dois anos. Mas como equipa faltou-nos muita coisa, mais a nível técnico do que de gestão, e os resultados não apareceram. Não era isto que tinha planeado, mas a vida é assim e tenho de aceitar que este é o momento de parar, sem mais vitórias para acrescentar às que já tinha.”

VISÃO MAIS AMPLA DO MUNDO
Mas Schumacher não se preocupava com a forma como iria ser lembrado, recusando ter causado danos à sua imagem com estes três anos abaixo das expectativas: “Cada um tem direito à sua opinião e sei que muitos as vão expressar até ao final do ano, mas, do meu ponto de vista, não causei danos à minha imagem. Sou um piloto mais completo, uma pessoa com uma visão mais ampla da F1 e do Mundo, sou uma pessoa mais experiente e continuo a ter as mesmas capacidades que tinha antes. Mas como os resultados não foram os que esperava, como não atingi os meus objetivos, aceito que me critiquem, pois também têm direito a ficar desapontados com os resultados destes últimos três anos.”

Ao contrário do que aconteceu nos seus anos com a Benetton e a Ferrari, este Schumacher em versão quarentona não se fechou tanto ao contacto com o resto do paddock nem se obstinou com o seu trabalho, uma alteração que o alemão considerou ter sido benéfica a nível pessoal: “Quando cheguei à F1, as expectativas criadas à minha volta foram elevadas ao máximo desde as primeiras corridas. Não estava preparado para isso e fechei-me no meu mundo, com a minha equipa e o grupo muito restrito de amigos, para me proteger. E continuei assim até 2006, coisa que, agora, até lamento. Nestes três anos da minha segunda carreira percebi que se podem obter os mesmos resultados com muito maior divertimento, com maior abertura para os outros e para o mundo. Que mais não fosse, por ter aprendido essa lição valeu a pena ter voltado a competir.”

O ELOGIO DOS ADVERSÁRIOS
Se muitos dos seus detratores gozaram em silêncio com a falta de resultados do alemão, os seus adversários diretos na pista mostraram manter um grande respeito pelo piloto com melhor palmarés na história da F1, mesmo no final de três anos dececionantes. Kimi Raikkonen, sempre prático e direto, disse-nos na altura que “o mais importante é que ele se divertiu e fez o que quis. É claro que toda a gente esperava que ele tivesse obtido melhores resultados, mas também não sabemos se o problema foi dele ou do carro. Mas analisar essas coisas é o teu trabalho, não o meu…”

O bicampeão do Mundo Sebastian Vettel admitiu ter ficado “triste com a decisão do Michael, porque gosto de o ter por perto, na pista e no paddock”, mas aceitou que “talvez este fosse mesmo o momento certo para ele parar – só ele o saberá… Vai ser uma perda para a F1, porque ainda é um piloto extremamente popular, mas espero que se mantenha no nosso mundo, com outras funções, para nos continuarmos a encontrar.”

Já Mark Webber terá colocado o dedo na ferida quando disse que “ao longo destes três anos vimos alguns lampejos de que o velho campeão ainda era capaz de grandes coisas, com belas voltas, belas ultrapassagens, belos momentos. Mas ele também terá visto alguns lampejos de que estava na hora de ir para casa, e foi por isso que decidiu parar.” Mesmo assim, o australiano insistiu ter “o máximo respeito pelo que o Michael fez, pois saiu da sua zona de conforto, veio testar-se num ambiente ultracompetitivo e deu o seu melhor. Estava farto de só ir às compras ao supermercado e decidiu desafiar-se a si próprio. Só por isso tenho de lhe tirar o chapéu.”

NOVOS TEMPOS, NOVAS PENALIZAÇÕES
Durante a primeira e brilhante parte da sua carreira, Michael Schumacher beneficiou de uma particular benevolência por parte de Charlie Whiting, dos Comissários Desportivos e da FIA em geral, que lhe permitiu exceder-se no confronto com outros pilotos sem ser penalizado. No seu regresso às pistas, fora da Ferrari e com Mosley compulsivamente afastado da liderança da Federação, o alemão foi surpreendido pela dureza dos regulamentos, incorrendo em diversas penalizações por comportamento antidesportivo.
O caso mais mediático deu-se logo no seu ano de regresso, em 2010, quando empurrou Rubens Barrichello até ao muro das boxes no Hungaroring, quando o brasileiro o estava a ultrapassar a poucas voltas do final. Schumacher começou por assustar-se com a reação muito negativa de alguns membros do paddock, que o insultaram e ameaçaram fisicamente no final da corrida, e, quando saiu da sala dos Comissários Desportivos, estava quase em choque, pois tinha-lhe sido imposta uma penalização de dez lugares na grelha de partida para a corrida seguinte. Foi nesse dia que percebeu que estava a ser tratado como todos os outros pilotos, pagando, talvez, até pelos anos em que foi bem protegido pelas autoridades desportivas…

EMPURRADO SEM ELEGÂNCIA
A forma como Michael Schumacher foi empurrado para a reforma compulsiva pela Mercedes esteve longe de ser elegante, e o processo terá posto fim a qualquer possibilidade do piloto alemão se manter ligado à marca que o fez chegar à F1 em 1991 daqui para a frente.

Hesitante quanto ao seu futuro, Schumacher não quis assinar um contrato de apenas um ano no final de julho, quando isso lhe foi proposto por Ross Brawn, e ainda estava a debater por quanto anos mais deveria comprometer-se com a equipa de Brackley quando Lewis Hamilton contactou a Mercedes e selou o destino do antigo Campeão do Mundo.

Avisado por Brawn das negociações com Hamilton, Schumacher deixou de ser dono do seu destino e, quando foi avisado que o inglês tinha assinado por três anos, não quis anunciar, de imediato, que se retirava. Mas os contactos estabelecidos com a Ferrari e a Sauber não deram em nada, pois Domenicali preferiu manter Massa e a equipa suíça não tinha orçamento para o alemão, pelo que Schumacher foi forçado a anunciar, em Suzuka, que se retirava da F1 no final dessa temporada.

Por mero acaso, presenciámos o momento em que o alemão fez saber a Norbert Haug o que pretendia comunicar no tradicional encontro com os jornalistas na quinta-feira que precede cada Grande Prémio, quando faltavam menos de dez minutos para este começar. Haug ficou sem palavras, mostrou-se extremamente comovido durante o anúncio, pois percebeu que a forma tardia com que tinha sido avisado das intenções de Schumacher significava bem o fim de um relacionamento que esperava pudesse continuar com o ainda seu piloto noutras funções.

FUTURO POR DEFINIR
A três corridas do final da sua carreira, Michael Schumacher não quis ouvir falar de planos futuros, garantindo que “quero concentra-me nas provas que faltam disputar para tentar sair com bons resultados, mesmo se a situação atual não é muito prometedora.”

Mesmo assim, o alemão excluiu a possibilidade de tentar gerir uma equipa, “porque isso não é coisa para mim”, ou de correr no DTM, “porque os Schumacher não se dão bem com carros de rodas tapadas”.
Sem querer dar pistas, o alemão lá foi dizendo que “vou fazer o que fiz da primeira vez, viver um dia de cada vez, encontrar novos interesses e fazer as coisas que me agradam, mas para as quais não tinha tempo enquanto corri. Corridas, daqui para a frente, só de cavalo e a Corinna até já comprou um cavalo novo para mim!”

A história, como todos sabemos, não tem um final feliz, mas o legado de Schumacher mantem-se inalterado pela sua passagem menos bem sucedida na Mercedes. Talvez o seu legado tenha até ficado mais rico e depois da era do “Barão Vermelho” intocável, vimos um lado mais “humano” do herói alemão que marcou uma era da F1.

Tags: F1Formula 1
José Luis Abreu

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Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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