Manuel Fernandes Jr.: O filho da casa no palco mundial de Vila Real
Vila Real veste-se de gala para voltar a receber o mundial de turismo da FIA. O mítico traçado transmontano volta receber uma prova internacional com selo de qualidade do órgão federativo internacional, que se junta ao cartaz do CPV e das competições da ANPAC. Esperam-se à volta de 200 pilotos para enfrentar os desafios do exigente circuito citadino. Para muitos desses 200, é mais do que apenas um fim de semana de corridas… é o realizar de um sonho, ou regresso a uma pista mítica onde cada curva exige o máximo de concentração.
Para alguns o sonho é ainda mais colorido, pois Vila Real não é apenas um circuito. É o berço. O local que se percorre diariamente, onde a vida se vai construindo, a uma velocidade um pouco mais lenta do que se vive nos dias de corrida. Manuel Fernandes Jr. é, provavelmente, o piloto mais desejoso que a sexta-feira chegue, pois vai competir no TCR World Tour, representando o país e a cidade em pista, juntando-se a um restrito lote de pilotos que o fizeram em competições internacionais
Falamos com o piloto que vai estar aos comandos de um CUPRA Leon VZ TCR da SP Competition, num projeto desenvolvido ao longo de vários meses, pensado para esta prova, mas com uma visão de futuro.
Como tudo começou?
Manuel Fernandes explicou o processo que lhe permitiu chegar até aqui. Do primeiro interesse, aos primeiro teste no início do ano, houve muito trabalho de bastidor para trazer o sonho para a realidade:
“Os primeiros passos do projeto iniciaram-se quando o TCR World Tour foi lançado, porque fomos logo sondados para saber se teríamos interesse. Era algo que ambicionava há muito tempo, mas que foi sendo adiado, especialmente com o interregno das competições internacionais em Vila Real. Falou-se até do DTM, mas os custos para fazer uma corrida nesse campeonato era demasiado elevados.
Começamos logo a contactar equipas e falamos com o Sylvain Pussier, que revelou grande abertura para corrermos com a sua estrutura, por ser um piloto da casa. Nessa altura, a SP ainda não tinha o projeto para o mundial garantido, mas ficou acordado que se o projeto avançasse, que eu faria Vila Real com ele.
Um dos nossos maiores patrocinadores procurava desde o ano passado fazer algo em grande e esta oportunidade pareceu a mais adequada para criar o projeto, com uma visibilidade tremenda a nível nacional e até internacional, que me permitiria correr num dos maiores palcos da FIA, em casa. E assim, pouco a pouco, com muito trabalho e dedicação, fomos juntando as peças para tornar esta participação real”.
Uma vez que o projeto engloba várias entidades quisemos saber se a CUPRA, seja a casa-mãe ou a representação nacional, teve interesse em participar neste projeto, mas a resposta foi taxativa:
“Sobre se tenho o apoio oficial da Cupra? Prefiro não comentar.”

Ambição, com uma grande dose de realismo
Manuel Fernandes Jr. está habituado a conseguir bons resultados em casa e encara esta oportunidade com uma dose saudável de ambição, sem nunca esquecer a sua realidade: está parado há um ano e vai enfrentar pilotos de topo, com muitas corridas já feitas este ano, com estruturas fortíssimas. Mesmo assim, o entusiasmo não esmorece:
“Estou muito entusiasmado com os recentes resultados da equipa. É uma estrutura relativamente pequena, com 15 a 20 pessoas, quando as restantes equipas apresentam estruturas muito maiores, com 75 pessoas. Mas a competitividade é clara e basta ver o mais recente triunfo do Aurélien Comte em Monza. Foi um feito incrível, prova de que o carro é competitivo. Aliás, o Cupra foi recentemente atualizado e vamos ter novos componentes de suspensão para o fim de semana de Vila Real. E como tenho a garantia que vou ter um carro exatamente igual ao do Aurelien, dá-me ainda mais confiança para o que lá vem.
Desde que testei em Barcelona que fiquei muito bem impressionado com o carro. Acredito que tem muito potencial, mas também tenho a consciência que não faço uma corrida há um ano. Vou enfrentar alguns dos melhores pilotos do mundo, que têm já muitas corridas feitas esta temporada”.
O ritual
A competitividade de Manuel Fernandes Jr. em Vila Real, mesmo com máquinas diferentes tem sido evidente ao longo das suas últimas passagens pelo circuito da “Bila”. Perguntamos se há algum truque para se ter sucesso em Vila Real e o piloto partilhou algumas “dicas”:
“O meu ritual diário é dar duas voltas ao circuito devagar, respeitando sempre a lei. Também faço treinos de kart de caixa para manter o ritmo. Sempre tive mais facilidade em circuitos citadinos, como a Boavista, onde consegui bons resultados. Encaro esses circuitos com precaução, mas quando entro lá dentro consigo focar-me a 100%. Felizmente, nunca tive acidentes e espero continuar assim.
Se é que há algum truque, é sentir a responsabilidade de representar a cidade. Essa pressão saudável dá uma motivação extra para buscar sempre melhorar, décimo a décimo. Sempre me disseram que, a cada vez que corro, tenho que melhorar a minha performance, e eu realmente aprendo sempre algo novo a cada ano — uma curva, um truque.
Não há segredo para correr bem em Vila Real, é preciso sentir-se confortável no circuito, que impõe respeito. Mas o apoio do público é fundamental, pois dá coragem e força para dar o melhor.”

Uma oportunidade à espreita
O piloto de Vila Real não esconde que esta oportunidade pode se transformar em mais do que uma participação na sua cidade natal, numa competição FIA. O sonho pode dar lugar a algo ainda maior. A pouco dias de entrar em pista para representar a sua cidade e tentar um lugar ao sol, Manuel Fernandes Jr. já começa a sentir o nervoso miudinho:
“Eu encaro sempre estes eventos com pressão positiva. Há uma semana, até diria que era só mais uma corrida, mas agora, na semana, já sinto um nervosismo bom. Sei que o Tiago Monteiro foi o único até agora a representar o país com um grande resultado, e sinto essa responsabilidade de tentar fazer melhor o melhor possível.
A equipa está forte, o carro está bom, e a concorrência também. Isso eleva as expectativas, e o nível subiu bastante. As pessoas passam por mim na rua e dão-me palavras de motivação, mas sinto que esperam muito de mim Quero dar o meu máximo por eles, mas não escondo que procuro ficar no radar das equipas maiores. Quero tentar agarrar uma oportunidade que possa surgir, já que alguns pilotos dessas equipas estão a pensar em reformar-se”.
O CPV é já uma excelente montra, mas o vilarealense apostou as fichas todas no TCR World Tour:
“Temos um campeonato nacional de grande nível com excelentes pilotos e excelentes estruturas, que se tornou muito aliciante. Mas reconheço que não apostei no CPV por acreditar muito neste projeto, por ser um sonho que agora se vai tornar realidade e que pode ser um trampolim para outras oportunidades. Apesar de termos cada vez mais marcas interessadas no CPV, o interesse numa competição internacional é sempre muito superior.
E como tenho 31 anos, estou a chegar a uma fase de quase tudo ou nada. Como tal, juntamos algo que queríamos muito, correr em Vila Real numa competição internacional de topo, num circuito que conheço bem e que me pode abrir portas. O meu pai disse-me nos primeiros tempos do WTCC em Vila Real que um dia ainda faríamos esta prova. Não imaginei que viesse a ter razão”.

A história até agora
O presente e o futuro do piloto são sustentados por um passado vivido na competição automóvel, uma paixão que começou desde cedo:
“Comecei a minha paixão pelo automobilismo muito cedo, aos 3 anos, quando peguei num kart pela primeira vez durante umas férias em Espanha. Antes disso, já andava a fazer corridas à volta da praia. Acho que quando comecei a falar, já falava de corridas. O meu pai deu-me o meu primeiro kart, e em Portugal comecei a competir oficialmente quase aos 5 anos, numa altura em que antes só se podia correr a partir dos 10 anos.
Participei em vários campeonatos de kart, com bastante sucesso até aos 18 anos. Tive uma pausa de 2 anos devido a um acidente grave de bicicleta, mas assim que pude, voltei às pistas. Mais tarde, com a diminuição da projeção do kart em Portugal, comecei a competir em carros.
A minha primeira corrida em carros foi no circuito de Boavista, num Peugeot 205 GTI, e depois passei por várias competições, incluindo o troféu Mini e uma aventura nos clássicos com o meu carro de sonho, o Escort -MK1. Depois, fui para as Fórmulas Ford, que sempre me atraíram muito, mas infelizmente não tive a sorte do meu lado, com dois acidentes graves e a categoria perdeu força em Portugal.
Fiz o Troféu KIA Picanto, onde fui campeão, e fiz provas do campeonato europeu da Eurocup Twingo, com bons desempenhos e um projeto interessante montado para fazer a temporada toda. Infelizmente, por questões de patrocínio, não foi possível continuar. Desde aí, faço corridas pontualmente, especialmente na minha cidade.
Acima de tudo, o que me leva às pistas é a paixão pelas corridas e pela competição. Não tinha qualquer problema em correr nos FEUP ou nos Picanto. O que procuro em pista é a adrenalina da competição. Prefiro uma grelha cheia de carros menos perfomantes, do que uma grelha mais vazia de carros de topo. O meu amor pelas corridas está acima dos carros ou das categorias”.
A execução deste projeto revelou-se laboriosa, como é habitual, com cada vez menos apoios, o que se lamenta:
“Nem sempre foi fácil montar projetos e arranjar os patrocinadores. Aliás, hoje em dia, com a questão da sustentabilidade, o que já era difícil tornou-se ainda mais e há marcas a recusarem apoiar projetos de grande visibilidade por estarem ligados a combustíveis fósseis. É por isso que devemos valorizar quem monta projetos ambiciosos em Portugal, muitos deles no CPV, pois não é uma tarefa fácil. Sou grato a todos que ajudam a tornar possível a minha presença nas corridas, e por isso, valorizo cada oportunidade que tenho para competir”.

O sonho tornado realidade
Faltam poucos dias para o 54º Circuito Internacional de Vila Real. Entretanto, Manuel Fernandes Jr. vai testar com a sua equipa e fazer os últimos retoques antes dos três dias decisivos de competição. O objetivo é simples: dar o melhor e encher de orgulhos o público vilarealense:
Sei que vou representar a minha cidade, e o meu país, mas vou focado em fazer o melhor, dar tudo em pista. Espero que os meus conterrâneos fiquem orgulhosos de mim. Este é um sonho que vou partilhar em pista com todo o público. Espero poder contar com o apoio de todos. Já vivi as corridas dos dois lados e sei como o ambiente é especial. É único, um calor humano e uma paixão que não se vive em mais lado nenhum. Tenho orgulho em ser filho desta terra e vou dar o meu melhor para a representar ao mais alto nível.”

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