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Ferrari 312 PB: O Fórmula 1 disfarçado

José Luis Abreu by José Luis Abreu
12 Novembro, 2024
in Autosport Exclusivo, AutoSport Histórico, VELOCIDADE
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Ferrari 312 PB: O Fórmula 1 disfarçado

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O Ferrari 312 PB era um verdadeiro F1 com carroçaria fechada. Entre 1971 e 1973 foram construídos 12 unidades do que depressa se tornou no mais bem-sucedido carro de “sport” feito pela Ferrari. E que, também, foi o último.

O Ferrari 312 PB baseou-se vagamente no 312 P V-12 de 1969 e foi feito a pensar no Campeonato do Mundo de Marcas dos Sport-Protótipos. Equipado com um motor 3.0 de 12 cilindros em linha e cerca de 450 cv, com dupla árvore de cames e associado a uma caixa de cinco velocidades, o 312 PB era capaz de atingir mais de 320 km/h. Na verdade, esta rapidez foi um dos segredos do seu sucesso.

Um ar de F1…e não só!
Quando, no final de 1967, a FIA decidiu alterar dramaticamente as regras para os carros de ‘sport’, a Ferrari viu-se de repente com uma frota de protótipos totalmente obsoletos. Nessa altura, a Ferrari decidiu focar-se na F1, abandonando o projeto de ‘sport’. Mas os fracos resultados na temporada de 1968 fizeram a ‘scuderia’ voltar atrás com a decisão e regressar às corridas de ‘sport’.
Nessa altura, estas corridas podiam ter dois tipos de carros, ambos de acordo com as novas regras: protótipos de 3 litros e carros de ‘sport’ com motores de 5 litros e que precisavam de um mínimo de 25 exemplares produzidos para serem homologados. Já com experiência deste tipo de motores na F1, não foi nenhuma surpresa quando a Ferrari anunciou, em 1969, o seu novo protótipo, o 312 P, com um motor de 3 litros. Todavia, o 312 P durou menos de um ano e a marca depressa se concentrou na construção do novo 512 S, com motor de 5 litros, que pensava ser capaz de bater o Porsche 917 que tinha aparecido em Le Mans nesse ano.

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12 Horas de Sebring 1972

Por isso, um ano depois a Ferrari estreou de fato o 512 S, que foi logo muito rápido mas, com menos um ano de desenvolvimento que o Porsche 917, revelou-se ainda muito frágil. E, pela segunda vez em menos de dois anos, a Ferrari fez abortar um projeto, vendendo o 512 S a privados e começando a desenvolver um novo protótipo – e de novo com motor de 3 litros. Mas, agora, tendo como base o novo motor de F1 desenhado pelo novo engenheiro de Maranello, Mauro Forghieri – um V12 a 180º e que se tinha estreado a F1 no 312 B.

Exteriormente parecido com um motor ‘boxer’, este Forghieri era no entanto um Flat v-Engine. E, apesar disso e tal como nos outros carros equipados com este motor feito por Forghieri, levou a letra “B” na sua designação oficial. Oficialmente, esse não foi o caso do 312 P de 1971, mas depressa ficou conhecido como 312 PB, na verdade uma forma fácil de o distinguir do original 312 P de 1969. E, tal como o seu ‘primo’ da F1, o 312 PB tinha uma semi-monocoque feita em alumínio. O motor e a suspensão traseira estavam ligados a um chassis em aço, soldado a um braço tubular em alumínio. Por isso, basicamente o 312 B era um carro de F1 com carroçaria totalmente fechada.

Começar mal e acabar (muito) bem
Portanto, uma das razões que levaram a Ferrari a desenvolver o projeto do 312 PB foi a decisão da FIA em abandonar as regras dos motores de 5 litros nos carros de ‘sport’, permitindo a partir de 1972 apenas carros com motores de 3 litros. Para a Ferrari, o ano de 1971 foi de aprendizagem, o que aproximou a Ferrari dos seus adversários, pela primeira vez. Porém, a estreia do 312 PB não poderia ter sido pior: em Janeiro, o italiano Ignazio Giunti teve um acidente fatal, durante os 1000 Km. de Buenos Aires. Depois, problemas de fiabilidade apoquentaram durante o resto do ano o novo Ferrari, cujo melhor resultado foi um 2º lugar em Brands Hatch a quarta prova do calendário. Mas tudo estava a mudar – e, o final do ano, surgiu a primeira vitória, nas 9 Horas de Kyalami, prova que, infelizmente, não pontuava para o campeonato.

1000 Km de Brands Hatch 1971


Animados por ela, os técnicos da Ferrari passaram o inverno a trabalhar, alterando de forma significativa o 312 PB. A potência do motor subiu dos 450 para os 460 cv. Mas foi à aerodinâmica que foi dada mais atenção, com muitas pares da carroçaria a serem testadas e alteradas, com incidência a parte traseira. Então, a Ferrari assumiu querer ganhar o Mundial de ‘Sport’ de 1972, custasse o que custasse.

Um total de seis 312 PB, com as últimas especificações, forma construídos. Isso permitiu à Ferrari ter três deles a correr em simultâneo numa prova, enquanto, em Maranello, os outros três eram preparados para prova seguinte. Portanto, nada foi deixado ao acaso. Nem sequer no que diz respeito aos pilotos: a Ferrari contratou os melhores da altura – Jacky Ickx, Brian Redman, Arturo Merzario, Mario Andretti, Ronnie Peterson e Tim Schenken. Ou seja, dois por carro.

A primeira jornada da temporada de 1972 foi os 1000 Km. de Buenos Aires, onde o 312 B conquistou o seu primeiro triunfo, a através de Schenken e Peterson. E o 312 PB acabou por ganhar todas as outras provas do campeonato – com exceção das 24 Horas de Le Mans, onde a equipa não inscreveu nenhum dos 312 PB, pois eram considerados um carro para provas de ‘sprint’, com os tais 1000 quilómetros, e não um carro de ‘endurance’, para maratonas de 24 horas. É que a ‘scuderia’ tinha receio de que não aguentassem a dureza da prova e não chegassem ao fim…

Mario Andretti, Jacky Ickx e Tim Schenken durante os 1000 Km de Brands hatch 1972

No que diz respeito ao campeonato, então valiam apenas oito das dez pontuações. E, sem ter estado em Le Mans e tendo ganho todas as outras, a Ferrari foi Campeã do Mundo, com o máximo de pontos possível (160), quase o dobro do segundo classificado, a Alfa Romeo (85 pontos).
Para 1973, a Ferrari fez uma versão 12 cm mais longa do 312 PB e reviu o motor, que passou a ter 475 cv de potência. Mas, infelizmente para a marca, a insolente fiabilidade de 1972 quase desapareceu. O 312 PB apenas brilhou uma vez, nos 1000 Km. de Monza, em Abril. Em Le Mans, onde a Ferrari esteve pela última vez como equipa oficial na categoria principal, apenas um dos 312 B chegou ao fim da corrida, em 2º lugar, mas muito atrás dos vencedores, o Matra MS670B/Simca de Henri Pescarolo/Graham Hill. No final do ano, as contas do campeonato viram mesmo a Ferrari ser batida pela marca francesa, por escassos 9 pontos.

Assim, no final do ano, a Ferrari decidiu centrar as suas atenções apenas na F1 e ainda hoje não se sabe quando regressará aos ‘sport’-protótipos. Desejam os ‘tiffosi’ que isso esteja para breve. Para já, a Ferrari já voltou a Le Mans – com o seu piloto da F1 Fernando Alonso, ao volante de um… 512 LM de 1970. E lá diz o povo que… nunca há fumo, sem fogo!

Ferrari 312P: O pecado original
O Ferrari 312 P foi, na verdade o ‘pecado’ que deu origem ao 312 PB, em que a diferença principal estava na adição do ‘B’, devida ao falso-‘boxer’ que era o revisto motor de 12 cilindros ‘planos’. O 312 P nasceu, já se disse, das alterações regulamentares implementadas pela FI o final e 1967. O ano seguinte, em protesto, a Ferrari esteve ausente das corridas de ‘sport’, pois essas novas regras tornavam ilegal o seu novo 330 P4. Então, construiu em 1969 um protótipo com motor 3.000 cc, a que chamou 312 (de ‘Prototipo’) e que pouco mais era que o seu 312 de F1, com duas versões de carroçaria: “barchetta” (aberta) e “berlinetta” (fechada).
A primeira prova do 312 P foi as 12 Horas de Sebring onde, por questões de ‘budget’, a Ferrari apenas inscreveu um carro, para Mario Andretti e Chris Amon. Era o chassis nº 0866 e Andretti fez com ele a ‘pole’, terminando a dupla em 2º lugar na corrida, um resultado encorajador para a ‘scuderia’.
Mas os testes para as 24 Horas de Le Mans foram um desapontamento, com os engenheiros a perceberem que existiam erros de conceção aerodinâmica. Um novo chassis, o nº 0870, correu nos 500 Km. BOAC, em Brands Hatch, onde Amon e Pedro Rodríguez foram 4º. Nos 1000 Km. de Monza, Amon fez a ‘pole’, mas abandonou, o que também aconteceu nos 1000 Km. Nürburgring e das 24 Horas de Le Mans, onde estiveram dois 312 P. Em 1969, os Ferrari 312 P foram sempre ofuscados, primeiro pelos Porsche 908/10 e, a partir de meados do ano, pelo novo 917. O seu melhor resultado foi o 2º lugar nos 1000 Km. de Spa e, no final do ano, os dois chassis existentes foram vendidos à equipa norte-americana de Luigi Chinetti, a NART (North American Racing Team), que trouxe um deles para as 24 Horas de Le Mans de 1970, onde chegou ao fim, mas sem conseguir cumprir a distância mínima ara se classificar, com Tony Adamowicz e Chuck Parsons ao volante. Ao mesmo tempo, a Ferrari abandonou o projeto e concentrou-se em desenvolver o 512 M, que não teve maior sucesso que o 312 P. Por isso, em 1971 apareceu uma evolução do ‘P’, chamada ‘PB’. Diz-se que por causa do tal motor falso-‘boxer’ – era esta a versão mais corrente, mas houve também quem dissesse que o ‘B’ vinha de ‘barchetta’ ou ‘berlinetta’. Seja como for, a Ferrari nunca os chamou de PB, mas sim de 312 P de 1971…

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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