CPV/IS, Rodrigo Almeida: O trajeto, a aposta na Toyota e os planos para o futuro
Rodrigo Almeida entra em 2026 como o novo rosto da Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal na velocidade, ao lado de Francisco Mora, num GR Supra GT4 EVO2 que vai atacar em simultâneo o Campeonato de Portugal de Velocidade, o Iberian Supercars e o Supercars España.
Depois de uma década de karting entre Moçambique, África do Sul e Europa, passagens pela Fórmula 4, TCR, DTM Trophy, ADAC GT4 e uma afirmação sólida na Porsche Carrera Cup Asia, o luso‑moçambicano regressa “a casa” com um programa oficial que quer transformar na porta de entrada para um futuro como piloto de fábrica em GT.
A ligação a Tiago Monteiro e ao projeto Skywalker, aliada à experiência acumulada internacionalmente, fazem de Rodrigo um reforço importante para uma Toyota que, em 2025, dominou o panorama GT4 na Península Ibérica e agora reforça a aposta com um segundo Supra e uma dupla totalmente focada em títulos absolutos.
Em conversa com o AutoSport, Rodrigo Almeida falou do passado, do presente e do futuro:
Antes de falarmos de 2026 e da Toyota, queria que fizesses uma breve retrospetiva da tua carreira. Como é que começas nas corridas?
Eu tenho uma particularidade diferente da maior parte dos pilotos portugueses: vivi praticamente toda a vida fora de Portugal. Vivi 18 anos em Moçambique, sempre a viajar, e os meus pais ainda hoje vivem lá; eu estou em Portugal há cerca de três anos, sobretudo porque aqui estou mais perto das minhas corridas. Comecei no karting em Moçambique, no ATCM, com 8 anos, e hoje tenho 21, vou fazer 22 em março, portanto já levo bastantes anos disto. Depois de dar os primeiros passos no karting em Moçambique, percebi que o desporto motorizado no país ainda não estava a um nível muito alto e dei o salto para a África do Sul, onde o nível já era bastante superior. Aí consegui ganhar algumas corridas num campeonato sul‑africano que me abriu a porta à final mundial, em Itália, e a partir daí foi sempre a escalar, com campeonatos europeus, mundiais e o FIA Academy, onde representei Moçambique.

Quando é que percebes que queres sair dos karts e entrar “a sério” nos automóveis?
A passagem deu‑se por volta dos 14 anos, quando surgiu a oportunidade de fazer Fórmula 4. Fiz um campeonato de F4 nos Emirados Árabes Unidos, no Dubai, numa fase em que se percebia que a Fórmula 4 estava a ficar um pouco saturada e muito cara para o tipo de patrocínios e investimento que eu tinha disponível. Com 15 anos tive de ser realista e percebi que, para o meu caminho, os turismos e os GT podiam ser uma aposta mais sólida, tanto em termos desportivos como de custo. Foi aí que decidi mudar para os TCR: acabei por ser vice‑campeão ibérico TCR Endurance na categoria DSG.
Foi nessa altura que percebeste que o teu foco seriam os GT?
Exatamente. A experiência no TCR deixou claro que os turismos e os GT eram o meu caminho. A partir daí entrei no mundo do GT4 com 16 anos, integrando o DTM Trophy, ao lado do DTM. Corri num Mercedes‑AMG GT4 com apoio da BWT e, no primeiro ano, consegui uma vitória no Red Bull Ring, alguns pódios e terminar o campeonato no quarto lugar. No segundo ano, a marca DTM foi vendida e o campeonato passou a ADAC GT4; alinhei com um colega de equipa checo, o Joseph Knopp, fizemos pódios não só na classe júnior, mas também à geral, apesar de um campeonato complicado por erros, problemas mecânicos e alguns toques.
Quando é que entra o Tiago Monteiro na tua carreira e como é que isso te leva à Porsche?
Foi precisamente nesse segundo ano de GT4 que me juntei ao Tiago e à Skywalker; desde então o Tiago é o meu manager e tem sido fundamental na construção da minha carreira. Nesse ano, surgiu a oportunidade de entrar na Porsche como piloto júnior da Talent Pool e foi aí que dei o salto para a GT3 Cup. Fiz a GT3 Cup e, no primeiro ano, mudei‑me para a Porsche Carrera Cup Asia, como piloto da Talent Pool, algo que para mim foi determinante. Tive de mudar‑me para a Ásia porque é um mercado onde se investe muito nos jovens pilotos e onde o modelo funciona muito através dos concessionários, o que cria oportunidades se mostrares valor.

Como foi essa adaptação ao 911 GT3 Cup e a um pelotão tão forte?
No primeiro ano o objetivo foi perceber bem o carro e o ambiente. O Porsche 911 GT3 Cup é um carro exigente, com uma grelha muito competitiva. Nos últimos dois anos senti que consegui finalmente mostrar o meu valor: somei pódios, estive a lutar pelo segundo lugar no campeonato e o grande objetivo era conquistar o “Talent Pool”. Cheguei à última prova de 2025 em segundo no campeonato, em luta com o Enzo Trulli; numa corrida decisiva, o novo colega de equipa dele empurrou‑me para fora de pista e acabei atrás do Enzo, perdendo o título.
Antes de falarmos da Toyota, não podemos esquecer as 24 Horas de Spa. Que peso teve essa experiência para ti?
Em 2025 tive a oportunidade de estar nas 24 Horas de Spa, no GT World Challenge, ao volante de um Aston Martin, num convite ligado à Aston Martin/Comtoyou. Senti que, apesar de ser um desafio enorme, foi uma espécie de validação do caminho que tenho feito nos GT, pela visibilidade e pela exigência de um evento como Spa.
Este ano tens um projeto novo com a Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal. Como é que nasce este programa e como é que olhas para ele?
Este projeto nasce de uma proposta apresentada pelo Tiago, em conjunto com o Zé Pedro Fontes e a estrutura da Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal. O pai do Zé Pedro é uma das pessoas mais influentes da minha carreira; foi ele que me pôs o “bichinho” do karting e me ajudou desde essa altura até hoje, por isso esta parceria tem também um lado muito pessoal e especial para mim. Para além disso, vejo isto como uma oportunidade enorme de estar ligado a uma marca, num programa oficial, e de regressar a Portugal, a correr perto de casa, num projeto com visibilidade nacional e ibérica. Depois de alguns anos lá fora, sinto que, para a minha imagem e para os patrocinadores, é importante estar presente em palcos como o Campeonato de Portugal de Velocidade, o Iberian Supercars e o Supercars España, sobretudo numa equipa que vem de um ano muito bom com o GR Supra GT4.

Tu vens do mundo GT3 e regressas agora ao GT4. É um passo atrás para dar dois à frente ou nem sequer o vês como um passo atrás?
Confesso que, no início, não via esta opção como provável, precisamente porque não queria dar a sensação de que estava a dar um passo atrás. Mas depois percebi que a Toyota está a montar um programa estruturado, que o GT3 da marca ainda está em fase de lançamento e só vai entrar em pleno em 2028, e que este caminho pode ser dois passos à frente para o meu futuro. A minha leitura é muito simples: se eu conseguir mostrar bons resultados até lá, pode ser a porta de entrada para um programa GT3 e para uma ligação oficial à marca, que é aquilo que eu procuro.
No fundo, esta é a tua porta de entrada para a Toyota, com o rumo apontado a algo maior?
Exatamente. Vejo este programa como o início de uma relação a longo prazo com a Toyota, com o objetivo claro de crescer dentro da marca e chegar a algo maior, seja nos GT3, seja nos futuros carros de resistência.
Vais ter o Francisco Mora como colega de equipa. Já tinhas acompanhado o que ele fez em 2025? Como vês esta dupla?
Do que vi no ano passado, o Toyota é o carro mais forte da grelha, muito equilibrado e acho que, a nível de dupla, não podia pedir melhor. Para mim, o Mora foi o piloto mais rápido na grelha em 2025. Teve azares que o tiraram da luta pelo campeonato, mas em termos de velocidade pura, para mim não há dúvidas de que é uma referência. Por isso, encaro esta dupla como a melhor possível: para mim é uma oportunidade gigante de mostrar resultados e, ao mesmo tempo, de aprender ao lado de um piloto muito experiente em GT4 e em contexto nacional e ibérico.

Já testaste o GR Supra GT4 EVO2. Que impressão é que te deixou o carro?
Sinceramente, não estava à espera de encontrar um carro tão equilibrado, principalmente tratando‑se de um GT4. Tinha uma ideia muito concreta de outros GT4 – por exemplo, um Mercedes é um carro pesado à frente, em que tens de lutar com o eixo dianteiro – e o Toyota é completamente diferente. Em termos de chassis, é um carro muito bem-feito, com um equilíbrio natural que se sente logo desde as primeiras voltas. Depois há o tema do torque: é um carro com muito binário, tive de me adaptar porque venho de três anos com um carro atmosférico da Porsche, que exige um estilo de condução diferente. Fiquei também surpreendido com o poder de travagem e com o nível de evolução do ABS; esperava algo mais rudimentar e encontrei um sistema muito refinado, o que torna o carro ainda mais eficaz. No global, sinto mesmo que temos um dos melhores carros da grelha e isso, naturalmente, facilita em alguns aspetos, mas também aumenta a responsabilidade.
Estar em palcos internacionais foi sempre o objetivo, ou foste aproveitando oportunidades que surgiam?
Sempre tive a vontade de estar em palcos internacionais, sobretudo em fins de semana partilhados com a Fórmula 1 ou com grandes campeonatos de GT. A Porsche Asia, por exemplo, tem rondas com a F1, como Shanghai ou Singapura, e isso traz uma visibilidade completamente diferente, não só para a minha carreira, mas também para os meus patrocinadores. No DTM Trophy já era assim: o DTM é um campeonato muito reconhecido e o GT World Challenge também tem crescido imenso, por isso fazia todo o sentido estar presente nesses eventos. Ao mesmo tempo, sinto que é importante estar em Portugal, porque é aqui que tenho muitos dos meus parceiros e é o país de onde sou, mesmo tendo crescido em Moçambique. Estar presente num CPV e num Iberian Supercars que hoje têm grelhas fortes e boa exposição mediática é uma parte essencial da minha carreira nesta fase.
Tu acompanhaste de perto o campeonato em 2025. Vindo de séries tão competitivas, que leitura fazes do nível do CPV, do Iberian Supercars e do Supercars España?
Do que tenho visto, o Supercars Endurance – tanto na vertente Iberian Supercars como no Campeonato de Portugal de Velocidade e no Supercars España – tem um nível muito interessante. Há muitos pilotos que são meus conhecidos dos tempos do karting e das Taças aqui em Portugal, pilotos muito bons, e também várias duplas bronze, o que torna o pelotão bastante diversificado. É um campeonato competitivo, com grelhas cada vez mais compostas e carros muito bem preparados e, por isso, não vai ser, de todo, um campeonato fácil. Há ainda a questão da mentalidade de corrida em Portugal, algo a que já não estou habituado há três anos e que influencia muito a forma como se disputa cada fim de semana.

Estás claramente a construir a tua carreira passo a passo. Qual é o teu objetivo final? Para onde queres que este caminho te leve?
Acho que todos os pilotos crescem com o sonho de chegar à Fórmula 1, mas fui percebendo que o meu caminho natural passa pelos GT e pela resistência. O meu objetivo final é juntar‑me a uma marca e ser piloto oficial de fábrica em GT, ou em carros de endurance, que é uma área em forte crescimento hoje em dia. É aí que me vejo no futuro: ligado a um construtor, a representar a marca nas grandes provas e a construir uma carreira estável nesse contexto.
Tens um percurso muito diversificado, com passagens por campeonatos bastante diferentes. Consideras que isso é um trunfo, em termos de maturidade, face a outros pilotos da tua geração?
Sim, sem dúvida. Ter tido a oportunidade de estar presente em vários campeonatos distintos, muitos deles extremamente competitivos, deu‑me ferramentas que hoje posso usar a meu favor. Ainda me considero um piloto jovem, mas sinto que a experiência acumulada em contextos tão diferentes me dá um nível de maturidade competitivo acima da média para a minha idade. Acredito que isso pode ser um verdadeiro trunfo, especialmente quando se trata de adaptar‑me rapidamente a um novo carro, a uma nova equipa ou a um novo campeonato, como acontece agora com a Toyota.
Já estiveste nas instalações da Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal e foste conhecendo a estrutura. Sentes que tens aqui tudo o que precisas para chegar onde queres?
Dentro do que conheço do panorama nacional, a Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal foi a equipa que mais confiança me transmitiu para lutar por campeonatos e alcançar os melhores resultados. As instalações são, honestamente, melhores do que muitas equipas internacionais onde já estive, o que diz muito sobre o nível de profissionalismo que encontrei aqui. A estrutura é muito sólida, com pessoal experiente, e sinto que tenho todas as condições para crescer e para que este seja um projeto vencedor.

Houve mais equipas interessadas em ti para 2026, especialmente em Portugal?
Ao longo dos anos têm surgido sempre contactos e interesse, e este ano não foi diferente, sobretudo depois de um teste que fiz com a Sports & You. No fim, a opção Toyota fez mais sentido pelo projeto global, pela ligação a uma marca e pela perspetiva de crescimento a médio e longo prazo.
Depois de vários anos a percorrer o mundo, Rodrigo Almeida regressa às pistas nacionais e ibéricas para consolidar a sua carreira e tentar criar laços fortes com a Toyota. A dupla com Francisco Mora promete, numa altura em que começamos a conhecer as duplas que vão compor o campeonato e já se sente que o nível vai subir ainda mais, sendo em 2025 o nível era já muito elevado. Poderemos ter uma colheita 2026 de grande nível e Rodrigo Almeida quer ser protagonista.
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