Depois do atraso de ontem, Luís Cidade / Valter Cardoso (Can-Am Maverick R/South Racing Can-Am) venceu a tirada de hoje dos SSV ao bater Miguel Barbosa / Joel Lutas (Polaris RZR Pro R/BP Ultimate Adventure Team) por apenas 10 segundos. Um dia nos SSV quase ao ‘photo finish’ em 296 Km de rally-raid: quatro pilotos a discutirem cada segundo até à meta e uma classificação em que qualquer erro, por mínimo que fosse, teria virado o enredo ao contrário.
Luis Portela Morais / David Megre (Polaris RZR Pro R/BP Ultimate Adventure Team) foi terceiro a 1m03s da frente, mas continua a liderar a classificação geral dos SSV, embora, Miguel Barbosa esteja agora a 1m43s quando ontem estava a 2m36s.
A abrir hoje a estrada, João Monteiro / Nuno Morais (Can-Am Maverick R/Can-Am Factory Team) ficaram um pouco para trás e terminaram apenas na quinta posição na etapa de hoje a 4m03s da frente. Estão agora a 7m45s dos líderes quando ontem estavam a 4m45s. Seja como for, nada está decidido entre as três duplas lusas a duas etapas do fim da prova.
Filme do dia
Logo pela manhã, a história começava a escrever-se ainda antes do pó subir. João Monteiro alinhava à partida com a confiança de quem acabara de vencer a etapa anterior, reduzindo boa parte do atraso acumulado no primeiro dia.
O piloto de fábrica da Can-Am entrava em prova como terceiro da geral, a menos de cinco minutos do novo líder, Luís Portela Morais, que herdara o topo da classificação depois de os “fantasmas” mecânicos terem travado Luís Cidade.
A expectativa era clara: Monteiro e Portela Morais iam entrar quase de seguida em pista, como dois lutadores de boxe a olharem-se nos olhos antes do primeiro soar do gongo.
Nas primeiras passagens de cronómetro, a especial já revelava o equilíbrio. O arranque nos SSV era tão compacto que, ao quilómetro 81, os cinco primeiros cabiam em oito segundos.
Luis Cidade, determinado a apagar a frustração da véspera, colocava o seu Can-Am na frente, com Portela Morais a cinco segundos num Polaris em ritmo de ataque, Andrea Deldossi a um sopro do comando e tanto Barbosa como Monteiro a espreitarem, todos encaixados no mesmo quadro, todos com argumentos para transformar a etapa no ponto de viragem do rali.
Em paralelo, uma história de reconstrução ganhava forma: Mattias Walkner, antigo vencedor do Dakar em motos, explicava que ainda procurava o “clique” com o navegador depois de um início com toques em árvores e aprendizagens aceleradas, mas garantia que o prazer de guiar em quatro rodas já tinha justificado a mudança de vida.
A meio da especial, a liderança parecia um volante em rotação permanente. Primeiro João Monteiro, depois Luís Cidade, mais tarde Deldossi, cada um a passar pela frente como se experimentasse por instantes o gosto de liderar uma classe onde ninguém conseguia destacar-se.
Quando os cronómetros marcavam o sector seguinte, surgia um quarto protagonista a tomar o comando: Miguel Barbosa assumia a dianteira da etapa, mas o painel de tempos era um espelho fiel da pressão que sentia no habitáculo.
Monteiro respondia a pouco mais de 20 segundos, Portela Morais e Cidade mantinham-se dentro do minuto, Deldossi ainda à vista. Era uma dessas fases em que o mais pequeno erro de travagem, uma trajetória ligeiramente mais larga ou um toque num banco de terra podiam valer três posições.
Na aproximação a Badajoz, a especial transformava-se numa corda esticada ao limite. Barbosa surgia já no último sector com a liderança, mas com Monteiro colado a catorze segundos, Portela Morais a pouco mais de vinte e Cidade ainda dentro de meio minuto. Imaginava-se o silêncio tenso dentro dos capacetes, cada quilómetro uma espécie de contagem decrescente, cada “split” uma facada ou um alívio.
E acabou por ser Luís Cidade, que tinha vencido a primeira etapa na SSV, mas fora prejudicado por um problema técnico no dia anterior a vencer. Liderava ao km 154 ao km 262, seu compatriota Miguel Barbosa acabou por ceder à pressão implacável de Cidade, que conquistou a vitória por apenas 10 segundos na linha de chegada!
Luís Portela Morais (43″) completou um pódio totalmente português. O trio conseguiu se distanciar dos pilotos da equipe oficial Can-Am, Jeremías González Ferioli (quarto, 3m32s) e João Monteiro (quinto, 4m03s).










