Numa tarde de outono de 2005, o coração do Alentejo, Portalegre, pulsava com uma energia diferente. Não era apenas mais uma edição da Baja, mas sim o palco de uma estreia que ficaria gravada a letras de ouro na história do desporto automóvel português e internacional: Carlos Sainz, “El Matador”, o bicampeão mundial de ralis, fazia a sua primeira incursão oficial no Todo-o-Terreno. Como um autêntico vinho vintage, Sainz espalhou o perfume da sua condução, marcando um novo e indelével capítulo na sua já lendária carreira. E isto já foi há 21 anos!

O chamamento de Portugal: um destino de estreias
Portugal, para Carlos Sainz, sempre foi mais do que um mero ponto no mapa; foi um destino de efemérides. Foi aqui que, em 1987, cumpriu a sua primeira prova no Mundial de Ralis, onde celebrou duas vitórias memoráveis em 1991 e 1995, e onde festejou a sua centésima participação em 1998.
Em 2005, o solo luso recebia-o para o batismo numa nova disciplina, ao serviço da equipa Volkswagen. “Não tenham dúvida que para mim é um prazer enorme voltar a Portugal e cumprir aqui a minha estreia oficial no Todo-o-Terreno”, afirmou Sainz, visivelmente emocionado, reconhecendo que “parece mesmo que Portugal é, definitivamente, um marco na minha carreira, já que aqui festejei várias efemérides.”

O Touareg e a Aventura no desconhecido
A Baja Portalegre 500 não era apenas uma prova para Sainz; era um teste de fogo para o Dakar, que naquele ano partiria de Portugal. O piloto espanhol via em Portalegre o local ideal para pilotar pela primeira vez, em competição, o seu novo “Touareg”. “Fazia todo o sentido estar aqui presente. Ao mesmo tempo, foi-nos possível situar a nossa prestação face à concorrência direta (Mitsubishi e Nissan) para percebermos em que grau nos situamos e o que pode vir a ser o Dakar”, explicou.
Apesar de ser um meio que ainda não dominava, a sua experiência nos ralis dava-lhe um otimismo contagiante. “Ainda fiz muito poucos quilómetros ao volante do Touareg, mas o estilo de condução é, basicamente, o mesmo. Trajetórias e travagens assemelham-se ao que fazia com o Citroën WRC e só mesmo a altura ao solo é que obriga a uma ligeira correção na abordagem a determinadas zonas”, partilhou.
O humor das notas e a curva a fundo
A estreia de Sainz foi marcada por um Prólogo triunfante, onde rubricou o melhor tempo quase sem notas. O motivo? Uma divertida barreira linguística. “De facto, ter um piloto espanhol a ouvir notas em inglês pronunciadas por um alemão é complicado!”, recordou Sainz com um sorriso. “Aliás, a determinado momento, o Andy (Schulz) pronunciou uma palavra que eu não conhecia e, na dúvida, fiz a curva a fundo. Correu tudo bem…”, confessou, revelando a audácia e o instinto que o tornaram uma lenda.

Nos setores seletivos, o conhecimento do terreno dos pilotos portugueses e alguns percalços com o Touareg, como o para-brisas embaciado, levaram-no a perder terreno. Contudo, o balanço final era de satisfação. “O nosso objetivo era o de testar o carro para as etapas portuguesas do Dakar e foi isso mesmo que fizemos. O resultado era secundário, ainda que nos tenha sido possível comparar o nosso andamento com a concorrência… e por pouco não vencíamos. Foi pena!”, lamentou, com o espírito competitivo de sempre.
Carlos Sainz em Portalegre 2005 não foi apenas uma corrida; foi a génese de uma nova etapa, um elo entre o passado glorioso dos ralis e um futuro promissor nas dunas do deserto. Uma memória que continua a ressoar, um testemunho da paixão e resiliência de um dos maiores nomes do desporto automóvel.








