O WRC prepara-se para uma revolução tecnológica a partir de 2029, com a FIA a manifestar abertura total a diferentes tipos de motorização — desde motores V6 e V8 tradicionais até híbridos, hidrogénio ou veículos totalmente elétricos. A nova regulamentação para os chassis, chega ao Rali de Monte Carlo dentro de cinco meses e deverá manter-se em uso até, pelo menos, ao arranque da temporada de 2036. Nos próximos dois anos não deveremos ter grandes novidades dos lados dos motores, mas em 2029, o cenário pode mudar radicalmente.
Para os próximos dois anos, o WRC vai manter-se fiel ao motor Rally2 já utilizado atualmente. No entanto, segundo o Dirtfish, a partir de 2029, existe uma forte vontade por parte da FIA para que os engenheiros das construtoras deixem a imaginação correr livremente na conceção de novas soluções de motorização. O vice-presidente da FIA, Malcolm Wilson, confirmou esta abertura em declarações à publicação: “Estamos abertos[em termos de nova tecnologia] a partir de 2029.” O responsável explicou ainda o objetivo estratégico por detrás desta flexibilidade: “O objetivo é fazer com que seja de tal forma que o construtor tenha de estar no WRC. Queremos torná-lo eficaz em termos de custo, proporcionando um retorno do investimento, para que os construtores tenham de estar aqui. Não queremos ter de forçar o interesse, tem de se tornar uma escolha óbvia.”
Essa flexibilidade é já implementada noutras categorias do desporto motorizado. Wilson destacou o exemplo do TT : “Temos essa [flexibilidade] no TT. Temos diesel, temos V6, temos V8, temos turbocompressor, e funciona.” Wilson sublinhou ainda a necessidade de aceitar esta transformação como inevitável: “Temos de aceitar que não vai ser como tem sido nos últimos 100 anos. É um mundo em mudança. Como disse, se alguém quiser vir com híbrido, hidrogénio, elétrico, estamos abertos.” A Toyota, por sinal, já demonstrou tecnologia a hidrogénio mais do que uma vez no parque de assistência do WRC, incluindo, no ano anterior, com o conceito GR Yaris Rally2 H2.
Um dos aspetos mais discutidos é a possibilidade concreta de um WRC totalmente elétrico. O diretor técnico da FIA, Xavier Mestelan Pinon, tem estado em conversações com construtores de veículos elétricos e admite que essa solução poderia funcionar, desde que fossem feitas revisões ao itinerário das provas. Segundo o responsável: “Um EV total para uma aplicação no WRC, não é completamente louco, exceto o facto de que é preciso carregar entre dois troços. Mas um EV total, com a potência atual, estamos a falar de 300 cavalos mais ou menos, para etapas de cerca de 30 ou 35 quilómetros, não é um problema. Com uma bateria de cerca de 40 quilowatts, é possível fazer facilmente uma etapa de 35 quilómetros mais 100 quilómetros de secção de estrada. Por isso não é um desafio. O pior para um carro EV total é a autoestrada. Aceleração total durante longos períodos. Mas no rali não é [assim].” Mestelan Pinon acrescentou: “Por isso é possível. É só o facto de que, se quisermos fazer isso, precisamos de colocar algumas estações de carregamento em algum ponto do percurso. Mas é mais uma questão do que é melhor para o rali.”
A este propósito, a Opel foi a primeira construtora a chegar ao mercado com um carro de rali totalmente elétrico, o Corsa GSE, tendo inicialmente utilizado infraestrutura de carregamento personalizada para apoiar o seu campeonato de marca única no lançamento. Ainda assim, Mestelan Pinon deixou clara a sua preferência pessoal por outras soluções: “Pessoalmente, acredito fortemente em híbrido com combustão interna, ou porque não hidrogénio? É talvez a melhor opção, apenas devido ao ruído para o espetáculo, mas também pela segurança.”
O dirigente explicou ainda a filosofia geral da FIA na escolha das melhores tecnologias para cada categoria do desporto motorizado: “Do lado da FIA, temos um portefólio muito amplo. Por isso, o que tentamos propor é a melhor tecnologia para cada aplicação. É por isso que hoje, para as corridas de resistência, por exemplo, não seguimos a via elétrica, claro — o que sugerimos para o futuro [das corridas de resistência] é usar hidrogénio. É uma das soluções. Para a F1 hoje, está acordado, talvez motor de combustão interna total com uma certa quantidade de combustível no futuro. Por isso sim, precisamos de identificar a melhor opção. Para o rali, sim, precisamos de medir corretamente qual é a melhor. Se novos construtores pensarem que é uma solução interessante, novamente, estamos abertos a discutir isso. O carro está desenhado para isso. A diversidade é algo bom no desporto motorizado, seja no TT, seja no WEC ou no Campeonato Mundial de Rali. Precisamos de ser ágeis no nosso regulamento, abertos o máximo possível à flexibilidade. Porque, para ser honesto, saber exatamente qual vai ser a solução dentro de 10 anos, é impossível. Não há solução mágica.”











