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Portugueses no Rali de Monte Carlo: Viagem ao desconhecido

José Luis Abreu by José Luis Abreu
29 Janeiro, 2024
in Autosport Exclusivo, Ralis, WRC
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Portugueses no Rali de Monte Carlo: Viagem ao desconhecido

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Por Nuno Branco

O Rali Monte Carlo, encerra mil e uma histórias, algumas protagonizadas por portugueses decididos a levar a língua de Camões ao Col du Turini…

Por mares nunca antes navegados! Era com este espírito que os pilotos portugueses deixavam a ‘ocidental praia lusitana’ rumo ao Mónaco. Alexandre Noghés idealizara o Rali Monte Carlo com o intuito de atrair visitantes durante o Inverno e o sucesso da iniciativa foi quase imediato. Anualmente, centenas de participantes, saíam dos quatro cantos da Europa, enfrentando, dias a fio, os sinuosos e gelados caminhos que os conduziriam a Monte Carlo. Apesar de pouco habituados a competir em estradas cobertas de neve, os portugueses também não ficaram indiferentes aos desafios da prova e ao glamour do principado, registando-se nos primeiros cem anos da competição, várias participações lusas. Recordemos, então, algumas dessas epopeias que marcaram a transição entre o puro amadorismo dos primeiros anos e o rigoroso profissionalismo dos dias de hoje.

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MISSÃO QUASE CUMPRIDA
Das oficinas da Mercauto saiu o Morris Cooper S que António Peixinho haveria de levar à edição de 1969. Um dos responsáveis pela preparação do carro, Burnay Bastos, seria também o navegador. Tratava-se de um Grupo 2, especialmente preparado para resistir às contrariedades do percurso. Antevendo as longas jornadas de condução sob temperaturas negativas, Burnay Bastos concebera um inovador sistema que projetava líquido anticongelante nos faróis do Cooper S. Para suportar a equipa na sempre difícil lotaria dos pneus, a Dunlop trataria de garantir assistência em diversos pontos do rali.
Contudo, e ao contrário do previsto, a carrinha não aparecia e Peixinho viu-se na contingência de fazer grande parte do percurso sem pneus com pregos. A dupla portuguesa chegou a sair de estrada por mais do que uma vez, optando por não continuar, atendendo à falta de condições a que estava sujeita. Era um injusto desfecho para o Mini nº 101, que se classificava no meio da tabela quando saiu de cena. Ainda assim, Peixinho e Burnay Bastos puderam viver de perto a grandiosidade de um rali como o Monte Carlo.

O ENTUSIASMO DO TURINI
Em 1972, a azarada participação de Américo Nunes (Porsche) e Colaço Marques (Alpine-Renault) foi compensada pelo excelente 19º lugar final de Francisco Romãozinho (4º do grupo 1 e 1º da classe 4). A Citroën inscrevera apenas um SM com motor Maserati para René Trautmann e o DS21 do português, embora tivesse assistência de fábrica, não tinha o cunho oficial, apresentando-se assim de cor vermelha em vez da habitual azul. No papel de navegador, ia o saudoso Heitor de Morais, que se revelou uma grande ajuda para Romãozinho: “saí de Lisboa com uma forte gripe e 39ºC de febre. Durante os dois dias do percurso de concentração, o experiente Heitor conduziu sem parar, enquanto eu tomava doses reforçadas de medicamentos”, referiu o piloto. A passagem pelo Col du Turini foi um dos momentos altos da prova e perante
imensidão de gente e de flashes, “entusiasmei-me na segunda passagem e as atravessadelas foram tão pronunciadas que acabei por fazer dois piões consecutivos”, acrescentou. Como seria de esperar, a escolha dos pneus foi um autêntico quebra-cabeças para Romãozinho, que, assumidamente, “não sabia escolher pneus. Quando me perguntavam na assistência, pedia pneus iguais aos do Trautmann! Acontece que o meu DS 21 tinha 125 cv e o SM dele tinha cerca de 240! Quando lhe ganhei 3 ou 4 minutos no Burzet, ele decidiu ir para casa e eu fiquei sem referências!”. No final, tudo acabou bem e a dupla portuguesa pode receber o merecido troféu no Palácio do Príncipe do Mónaco.

PORTUGUESES NO MOULINON
Após algum afastamento das competições, António Borges decidiu aventurar-se no Monte Carlo em 1983, integrado na equipa Publiracing, de João Anjos. O Opel Kadett GT/E de grupo A, com cerca de 140 cv fora preparado pela Simon Clarr Racing, “que também assistiu um outro GT/E, de Yves Jouanny, proprietário do conhecido restaurante La Remise, famoso por oferecer tarte de maçã aos concorrentes, à passagem por
Antraigues”, recorda o piloto. O mediatismo do Monte Carlo facilitou a angariação dos patrocínios necessários para efetuar a prova, cujo orçamento rondou então 1000 contos (€5000)!
A ausência de neve neste ano facilitou a escolha das borrachas, “embora existissem zonas cobertas de gelo, bastante traiçoeiras, e uma escolha errada de pneus, poderia significar a perda de um minuto num troço com cerca de 20km”, acrescentou. A propósito de pneus, Borges lembra ainda que “fiz todo o rali com três jogos de pneus e ainda me sobraram para usar nalgumas provas em Portugal!”.
Apesar de extremamente desgastante, a prova decorreu de forma tranquila para António Borges e Alfredo Lavrador e um problema na bomba de gasolina foi o único verdadeiro susto da equipa portuguesa: “parámos em pleno troço do Moulinon e não sabíamos a origem da avaria. Subitamente, começaram a chegar espetadores para ajudar e foi então que reconheci jornalistas, fotógrafos, gente dos automóveis que eu
conhecia das tertúlias em Lisboa”. E perante aquela surpresa, Borges gracejou: “já não basta em Lisboa,
também tenho de os ver por aqui?!”. Após algum tempo, a máquina arrefeceu e a dupla prosseguiu em
prova, terminando em 42º lugar e 10º do Grupo A, de acordo com a realista ambição, declarada à
partida, em Monte Carlo.

O FASCÍNIO DO SISTERON
Faltavam duas semanas para o início dos treinos, quando Rui Madeira e Nuno Rodrigues da Silva receberam
a confirmação dos patrocinadores para alinhar na edição de 1995. O Monte Carlo daria início a uma campanha internacional, coroada no final do ano com a Taça FIA de Grupo N. Durante os treinos, Madeira conheceu os troços que compõem o imaginário de qualquer adepto e ficou imediatamente atraído pelo Sisteron. Sem experiência nos traiçoeiros pisos do rali, a dupla portuguesa não dispensou a ajuda da colega Isolde Holderied, no que toca à escolha de pneus. Madeira iniciou a prova de forma cautelosa, ganhando gradualmente confiança
no Mitsubishi Lancer preparado pela Ralliart Alemanha. Quando chegou ao ‘seu’ Sisteron, Madeira puxou dos galões e fez o melhor tempo do agrupamento, repetindo o feito na mítica passagem pelo Turini, onde “a sequência no ponto mais alto do troço é de facto do outro mundo. São cerca de 300 metros em que não vemos nada, exceto um clarão provocado pelos flashes das máquinas fotográficas”, lembrou o piloto. O 12º lugar e 3º no Grupo N, constituíram um brilhante cartão de visita e, a partir daí, Madeira sairia definitivamente do anonimato para a ‘alta-roda’ dos ralis.
Muita coisa mudou desde que este grupo de exploradores portugueses tentou a sua sorte na prova monegasca. No entanto, mesmo não tendo o encanto de outros tempos, enquanto o Inverno cobrir de branco as estradas do sul de França, o Monte Carlo continuará a ser uma bela e memorável aventura…

CONTRASTE
Os nomes de José Luís Valle Flor, Fernando Luís Pinto Basto e Salvador Correia de Sá são hoje desconhecidos para a maioria dos portugueses. Alinharam no Monte Carlo em 1930, dando o mote a muitas outras equipas, completamente amadoras, movidas pela paixão e pelo desafio que significava percorrer os trilhos europeus debaixo de intensos nevões, rumo ao Mónaco. Ainda nos anos 30, Ribeiro Ferreira, António Herédia e Virgílio Barroso conseguiriam um honroso 4º posto, feito superado em 1951 por Jorge Monte Real, Manuel Palma e Fernando Mascarenhas, que obtiveram um histórico 2º lugar, entre 362 inscritos, com um Ford V8 100 cv. João Lacerda, Manuel Nunes dos Santos e o próprio César Torres escreveram também o seu nome no historial de uma prova que, tal como as outras, evoluiu e profissionalizou-se. Nesse contexto, a participação lusa nos últimos anos, tem estado a cargo da Peugeot Sport Portugal, uma estrutura dirigida pelo conhecedor Carlos Barros, estreando-se na prova em 1998. Nesse ano, Adruzilo Lopes e Luís Lisboa classificam-se em 12º lugar, e depois da desistência de Miguel Campos e Nuno Rodrigues da Silva em 2004, Bruno Magalhães tem sido, desde 2010, o ponta de lança da equipa que persegue o sonho de um triunfo português em Monte Carlo.

Tags: portuguesesRali de Monte Carlo
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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