No ano em que se completam 50 anos do Circuito do Estoril, não só de corridas o circuito viveu, pois as memórias do Rali de Portugal não perduram apenas nas serras de Sintra, Açor, Freita, Fafe ou Marão. Durante décadas, e já depois da cerimónia do pódio ter consagrado os que chegavam ao fim da aventura, a prova portuguesa terminava em apoteose com o slalom no Autódromo do Estoril, onde a palavra de ordem era proporcionar espetáculo a milhares de entusiastas que enchiam as bancadas para assistir a um recital de acelerações, derrapagens e muita borracha queimada…
Por Nuno Branco
Se, à partida, um circuito e uma prova de estrada terão pouco em comum, a verdade é que o Rali de Portugal assentou a sua história numa forte ligação ao Autódromo do Estoril. Em outubro de 1972, apenas quatro meses volvidos sobre a inauguração, o autódromo recebia os concorrentes do VI Rallye Internacional TAP para a disputa de uma Prova de Classificação e, três dias depois, para a prova complementar de slalom.
O conceito não era novo: desde a sua primeira edição, o Rallye TAP contava com a realização de uma prova de slalom no final da competição, nos jardins do Casino Estoril, mas quando o primeiro circuito permanente abriu as portas, passou a ser o local escolhido para o acontecimento.
O slalom decorria após a chegada ao final do rali e não contava para a classificação, havendo no entanto uma pontuação com atribuição de prémios específicos para os mais rápidos. Naquele ano de 72, o britânico Robert Bean, conduzindo um Ford Escort MKI, levaria para casa a taça do vencedor e um prémio monetário de 5000 Escudos (25 €)!
O ‘TAP’ gozava já de elevada popularidade e nessa manhã de domingo, o ainda jovem autódromo registava uma das maiores afluências de público, dando assim o mote para que, até ao final da década de 80, ali fosse cumprida a tradição da festa do slalom do Rali de Portugal.
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Durante os anos em que o Estoril foi o centro nevrálgico do Rali de Portugal, o autódromo assumiu um papel preponderante na estrutura da prova. Se inicialmente era apenas o palco da chegada, passou a partir de 1976, a ser igualmente o local de partida e acolhendo durante vários anos, as verificações técnicas aos veículos participantes. Não é por isso de estranhar que a pista construída no sopé da Serra de Sintra tenha servido de pano de fundo a alguns dos episódios mais marcantes da vida do rali. A imagem de Markku Alen, cumprimentando Hannu Mikkola, em 1978, instantes depois de terem protagonizado um duelo sem precedentes em Sintra, contrasta com a dos carros oficiais, parados junto às boxes, em 1986, de onde já não arrancariam, na sequência do acidente de Joaquim Santos na Lagoa Azul.
Seria contudo através do slalom que o autódromo ficaria ligado ao êxito daquele que já foi considerado o melhor rali do mundo. Com as demonstrações de perícia das grandes estrelas dos ralis, a equipa liderada por César Torres pretendia dar visibilidade e aumentar o retorno mediático da prova portuguesa, promovendo ao mesmo o fascínio da modalidade junto do público.
O slalom tornou-se rapidamente num espetáculo com estatuto próprio, levando famílias inteiras às bancadas do circuito, numa iniciativa sem paralelo nas restantes provas do campeonato do mundo.
No entanto, a evolução operada nos ralis na segunda metade dos anos 80, no sentido da uniformização das provas de estrada, deixava cada vez menos espaço para este tipo de iniciativas e no final da década, o Rali de Portugal ficava órfão do seu slalom.
Curiosamente, a FIA voltou a refletir sobre a importância destas ações e os road show que de vez em quando acontecem, um pouco por todo o mundo, herdaram o princípio básico do velho slalom do autódromo, onde muitos dos que hoje cultivam a paixão pelos ralis, foram contagiados pela mestria de Alen, Biasion, Quim Santos e ‘companhia’ a queimar borracha na reta do Estoril…










