4 de março de 1981: O acidente de Markku Alen na Peninha foi há 40 anos


Ainda hoje, Markku Alen não esquece o “Vinho do Porto” de 81. O finlandês bateu forte na Peninha, conseguindo prosseguir em prova, embora com um atraso considerável para os da frente. Hannu Mikkola, no poderoso Audi Quattro, dominou com à vontade até desistir no Marão e Vatanen, que o sucedeu na liderança, pouco aproveitou, já que se despistou no troço seguinte. Após uma notável recuperação, Alen via-se na liderança da prova, gerindo a vantagem que detinha sobre Henri Toivonen, que dava espectáculo com o Talbot Sumbeam Lotus.
Seguiram-se Waldegard, em Toyota Celica e o outro Audi, conduzido pela francesa Michéle Mouton.
Mas uns dias antes, a 4 de março de 1981, faz hoje precisamente 40 anos, a foto que Jorge Cunha tirou a Markku Alen quando este batia na Peninha, constituiu a porta de entrada para uma carreira que caminha, ainda hoje, lado a lado com o desporto automóvel: “Nessa altura, eu já fazia uns trabalhos para o José Nogueira (Xtrod) e algum tempo após o Rali de Portugal desse ano, depois da foto do acidente do Alen correr mundo, tirei a carta de condução e o Adriano Cerqueira e o Mário Guerreiro vieram ter comigo e propuseram-me que fizesse a cobertura das provas para a revista Automundo. Começava aí a minha carreira profissional. Ganhava 4 contos, o que era uma fortuna na altura e, nesse ano, fiz a minha primeira incursão além-fronteiras, indo ao Rali dos 1000 Lagos. Foi a minha primeira prova do Mundial de Ralis como profissional. Mais tarde, e perante a impossibilidade da revista pagar todos os custos com deslocações, comecei a trabalhar por conta própria, fazendo também fotos para outras publicações como a Turbo ou o AutoSport, o que me permitia ir às provas do campeonato do mundo de ralis”.

A FOTO QUE MUDOU TUDO
Serra de Sintra, 4 de Março de 1981. Milhares de espectadores povoavam os troços da Lagoa Azul e da Peninha para ouvir os primeiros rugidos dos motores. O Rali de Portugal estava na estrada. Jorge Cunha, ainda na qualidade de amador, dava uma ajuda a José Nogueira, fotógrafo profissional, também conhecido por XTROD. Quando ali chegou, estaria certamente longe de pensar que o facto de estar no sítio certo, à hora ideal, iria marcar sua a vida, para sempre, como ele próprio recorda: “O plano passava por fotografar a primeira passagem na Peninha e ir para Montejunto, mas eu estava com o meu irmão e um amigo que era piloto e este pediu-nos para ficarmos na Peninha, já que gostaria de os ver passar numa zona rápida para ter noção da velocidade a que os carros andavam. Lembrei-me daquela zona, já perto do final, com uma ligeira recta que seria feita a fundo e fomos para lá. Só lá estávamos nós os três, já que aquele sítio não era muito procurado. Geralmente, os fotógrafos e os espectadores dividiam-se entre o gancho à esquerda, o salto, ou ainda uma curva perto do final onde os pilotos faziam uma esquerda levantando a roda da frente. Eu era o único com máquina fotográfica, emprestada, com uma lente de 50 mm e um filme a preto e branco. O sítio que havia escolhido era imediatamente a seguir a uma famosa sequência de quatro direitas feitas a fundo. Na minha opinião, e pela forma como o vi aproximar-se do local onde estávamos, o Fiat 131 de Markku Alen vinha furado, ou com algum problema na direcção, fruto de algum possível toque quando cortava uma das direitas. Saiu de estrada precisamente à minha frente, levantando a traseira quando bateu nas pedras da berma. Foi tudo muito rápido. O seu navegador, Ilkka Kivimaki ainda saiu do carro e quando perceberam que, em marcha atrás, conseguiam mover o carro, o Alen engrenou a marcha atrás e rapidamente arrancaram, percorrendo assim o que restava do troço. Com a máquina que tinha em mãos, sem motor, tirei poucas fotografias, mas fiquei logo com a sensação que o tinha apanhado com a traseira no ar, no momento do embate. No entanto, não fazia a mínima ideia se a foto tinha saído boa. Na altura, mandámos a roda do Fiat, juntamente com parte da suspensão, pela ribanceira e voltámos posteriormente ao local para recolher o “troféu”, mas a roda já havia sido levada. Com tudo isto, já chegámos atrasados a Montejunto. Continuei a acompanhar o rali e só na Segunda-feira após o rali é que fui revelar os filmes e confirmei que as fotos do acidente tinham ficado alguma coisa de jeito. Como o Alen acabou por ganhar o rali, as fotos acabaram por sair valorizadas, sendo publicadas em diversos meios nacionais e estrangeiros. Curiosamente, não ganhei um tostão com a foto e os negativos, que ficaram com o José Nogueira, acabaram por se deteriorar, o que significa que já não existe o filme original daquele momento. Este episódio foi determinante para me tornar fotógrafo profissional, já que o convite da Automundo surgiria dois meses depois…