Elmenteita 1 foi uma especial brutal no Rali Safari, que se transformou num autêntico campo de minas: rochas colocadas pelos organizadores na estrada para evitar cortes acabam por provocar uma sequência de furos, ‘explosões’ de pneus e críticas duras à organização.
No meio do caos, Sébastien Ogier (Toyota GR Yaris Rally1) recupera o lugar no pódio, Elfyn Evans (Toyota GR Yaris Rally1) vê a sua tentativa de ataque travada por um duplo furo e Oliver Solberg (Toyota GR Yaris Rally1), também com dois pneus “em baixo”, salva a liderança por pouco.
Antes de mais um mergulho no coração de Elmenteita, os comissários recordavam que se tratava de um troço clássico de Safari: rápido, estreito, cheio de lombas, com erva a crescer ao meio da pista e secções mais suaves junto ao lago, antes de voltar a ficar técnico e duro na floresta.
As equipas sabiam que iam enfrentar lama, sulcos profundos e bedrock à espreita, mas não podiam prever o que os esperava de uma organização claramente amadora.
Joshua Mcerlean (Ford Puma Rally1) foi o primeiro a lançar-se à especial, o Puma da M-Sport a saltar entre regos enlameados, até um enorme impacto na frente esquerda denunciar que esta não seria uma passagem qualquer. Ainda assim, chega ao final entre risos: “Foi loucura. Com a água e as trajectórias, é tudo extremamente arriscado.” Logo atrás, Jon Armstrong (Ford Puma Rally1) surge com o pneu dianteiro esquerdo fora da jante, depois de atravessar zonas de rocha dura escondida na lama. “Não sei bem como aconteceu. É tão difícil passar aqui, há tantos sítios onde poderíamos ser mais rápidos, mas é tudo uma curva de aprendizagem”, admite, exausto mas aliviado por estar no fim.
Esapekka Lappi (Hyundai i20 N Rally1) confirma a dureza do troço: mais rápido do que McErlean, mas a pagar o preço com um furo na frente esquerda depois de fortes pancadas em buracos. “Levámos alguns toques em buracos. Algumas secções são fáceis, outras não”, resume o finlandês, ainda a tentar perceber no on-board onde tudo correu mal.
Takamoto Katsuta (Toyota GR Yaris Rally1) chega a seguir, parecia em tempo para discutir a frente, mas uma ligeira saída larga e um duplo furo no lado direito arruínam a tentativa. Furioso com as condições, repete a crítica que começa a ouvir-se pelo parque: “É inacreditável. Mudaram a estrada depois das notas. Como é que fazemos notas a partir de vídeo? Trajectórias totalmente erradas nos sulcos, acabo com dois furos.”
Adrien Fourmaux (Hyundai i20 N Rally1) responde em ritmo forte, limpa o tempo de referência e mal pára no controlo. “Fiz uma boa especial, mas tenho de ir”, dispara, preocupado com a lama acumulada no radiador.
Thierry Neuville (Hyundai i20 N Rally1), pelo contrário, descreve uma passagem difícil, com muitos cortes e carros a sair largo. “Não foi uma boa especial para mim. Perdemos parte do pára-choques dianteiro, não é ideal. É um dia longo, temos de poupar o carro”, admite, consciente de que o rali não se decide aqui, mas se pode perder aqui.
Mais atrás, o drama de Sami Pajari (Toyota GR Yaris Rally1) ganha contornos de sobrevivência. Primeiro, a borracha começa a desfazer-se, com o pneu traseiro esquerdo a delaminar e a explodir em plena recta, destruindo parte do carro e deitando por terra o terceiro lugar.
O finlandês e o navegador Marko Salminen saltam para fora, trabalham no carro à beira da pista e conseguem, com esforço, chegar ao final, mas com mais de cinco minutos perdidos. “Tivemos uma espécie de explosão em linha recta. Duplo furo no lado direito, e de certeza que mais qualquer coisa ficou partida”, descreve, resignado.
Na luta pela frente do rali, Elfyn Evans ataca forte, chega a ser claramente mais rápido do que Oliver Solberg nos parciais, mas vê o esforço ruir quando os dois pneus do lado direito cedem. “É inacreditável.
Mudaram a estrada depois das notas. Como podemos fazer notas com base em vídeo? Linha totalmente errada nos sulcos, agora tenho um duplo furo”, atira o galês, dizendo exatamente o mesmo que o seu colega japonês, ecoando a frustração do pelotão.
Ogier, que já tinha sofrido com furos noutra especial, agarra esta passagem como oportunidade de redenção. Sobrevive ao troço brutal e estabelece um novo tempo de referência, regressando ao terceiro lugar da geral depois dos dois minutos perdidos em SS11. “Muito azar no primeiro, não o conseguimos evitar. Ainda vão acontecer muitas coisas hoje, talvez já tenhamos gasto a nossa dose de azar”, comenta, tentando manter o moral alto dentro do Toyota.
Mas a demonstração mais clara do caos chega com o próprio líder. Oliver Solberg alcança a meta da especial com duplo furo no lado direito e uma perda de 21,7 segundos. Diz que veio “o mais cuidadoso possível”, mas que, mesmo assim, voltou a sofrer um furo lento. E deixa a crítica mais dura do dia: “Organização e FIA, o que fizeram aqui no fim é inaceitável.” A explicação circula entre as equipas: as regras obrigam a que as condições da estrada não sejam alteradas entre as passagens de reconhecimento e a prova, e, ainda assim, foram colocadas rochas para impedir cortes, sem que os pilotos soubessem onde estavam.
O resultado vê-se nas folhas de tempos: uma sequência de furos, carros danificados e protagonistas indignados. No meio do caos, Solberg ainda consegue segurar a liderança, com 22,6 segundos sobre Evans, mas a mensagem da especial fica clara para todos: no Safari, a linha entre coragem e sobrevivência é mais fina do que nunca.











