Há provas que sobrevivem ao teste do tempo não apenas nas páginas amareladas dos arquivos, mas na textura viva das memórias de quem as correu com a alma na ponta dos dedos. O Rali Internacional TAP, figura de proa do automobilismo português de outras décadas, evoca uma época em que a aventura se sobrepunha à fria caluculação moderna. Era o tempo em que as estradas portuguesas se enchiam de uma multidão compacta e apaixonada, onde os ralis se mediam pela resistência humana tanto quanto pela mecânica das máquinas.
Recuar no tempo até essas estradas poeirentas e enlameadas é entrar num território de lendas. Nas palavras de quem viveu essa mística por dentro, como Rui Lages — que recorda com saudade o seu único arranque na mítica prova ao volante de um Mazda 818 adquirido a Santos da Cunha —, o espírito da modalidade respirava-se de forma bem diferente.
A juventude, a lama e a camaradagem do asfalto
Era uma época em que a partida se fazia na madrugada fria e o cronómetro parecia importar menos do que a capacidade de sobrevivência face aos elementos. Como o próprio Rui Lages recordava sobre a sua estreia em 1974:
“Eu tinha 24 anos e estava no início da minha carreira, mas na época havia um lote alargado de pilotos a discutir a vitória em qualquer rali. A minha frente havia um grupo de 10 a 15 pilotos a andar muitíssimo bem e a rivalidade era saudável.”
As estradas de Sintra — com troços lendários como Lagoa Azul, Peninha e a mítica passagem por Almoçageme —, ganhavam contornos épicos à passagem dos concorrentes. Eram troços onde o piso misto, após a passagem dos primeiros carros, ficava “intragável” devido à lama e à imprevisibilidade do terreno. Entre a assistência escassa, a ausência de proteções modernas e a imensidão de público que se acotovelava nas bermas, a condução exigia uma fibra especial.
A mística de um tempo que não volta
A prova de 1974, dominada pelos Fiat 124 Spyder de Francisco Romãozinho — secundado por figuras incontornáveis como Mário Figueiredo, António Martorell ou os irmãos Pereira —, deixou marcas profundas em quem lá esteve. As noites passadas ao relento nos troços de montanha, o calor humano das assistências improvisadas e a camaradagem que unia nomes como Carlos Torres e Jorge Ortigão desenham o retrato fiel de uma era dourada.
Hoje, quando olhamos para os arquivos e recordamos aquelas madrugadas bem friorentas, percebemos que o rali de outrora era muito mais do que uma competição desportiva: era uma verdadeira escola de vida e de paixão pura pelos automóveis.












