Fórmula E: Começa uma nova era

Por a 12 Dezembro 2018 16:30

A competição elétrica está de regresso às pistas. A época 2018/2019 está prestes a arrancar, com entusiasmo renovado na estreia da segunda geração dos monolugares 100% elétricos, com novos nomes, cada vez mais marcas envolvidas e com novos destinos a descobrir.

O choque de ver os primeiros protótipos com aquele som estridente e alguns piões falhados já é longínquo. Desde então, a FE tem dado passos certeiros e sólidos, passando de motivo de piada, para um dos campeonatos mais cobiçados do mundo, atraindo grandes marcas e grandes pilotos. Poucos diriam que passado apenas quatro épocas, a Fórmula E se tornaria num sucesso.

A FE ultrapassou a desconfiança e é agora um campeonato cada vez mais interessante, com grandes marcas envolvidas, com bons pilotos, com um conceito e formato inovadores e com um futuro muito risonho pela frente. A época 2018/2019 é importantíssima para a competição, que dá mais um passo em frente. As quatro épocas serviram para a apresentação e fidelização de novos fãs, mostrando uma competição com carros de formas similares aos F1, que percorrem apenas traçados citadinos (a grande maioria completamente novos e originais) e com um formato de um dia de competição. Este novo formato menos exaustivo, que leva as corridas até às pessoas e a poderosa máquina de marketing que está por trás deste campeonato, foram as chaves do sucesso. Durante quatro anos vimos cada vez mais interesse, cada vez mais fãs e corridas cada vez mais interessantes.

O grande handicap em relação a outras competições é mesmo a mudança radical em relação ao que todos estamos habituados em competições deste género. Falta o som, que dá mais dramatismo e emoção. Faltam as passagens de caixa que arrepiam, falta a magia dos motores de combustão. Mas tudo o resto é igual… ou melhor. Talvez seja um sinal dos tempos que levará mais tarde ou mais cedo os fãs a habituarem-se a uma competição igualmente emocionante, sendo apenas menos ruidosa.  Mas até esse pormenor tem sido trabalhado de forma inteligente por parte dos responsáveis e não será certamente pela falta de “voz” das máquinas que o campeonato acabará.

 

Nova época, nova vida… Gen 2

Em 2018/2019 o campeonato entra numa nova fase. Para este ano teremos novas máquinas, completamente diferentes do que tínhamos até agora. Os monolugares ganharam um ar muito mais agressivo, mais futurista, inspirados nas criações que foram sendo mostradas como propostas de carros de F1 para o futuro como o MP4-X. É talvez o maior trunfo desta nova era que começa… numa altura em que por vezes o aspeto dos carros da F1 é do agrado de poucos, a Fórmula E encontrou um carro interessante e arrojado que não deixa ninguém indiferente. Salta à vista a falta de uma asa traseira convencional e o enorme difusor que diminuirá o arrasto e manterá níveis de apoio aerodinâmico necessário para ter boas corridas e ultrapassagens.  Mas as novas máquinas são muito mais que apenas uma “cara bonita”. As baterias têm agora o dobro da capacidade e a potência máxima subiu dos 200Kw (270cv) para os 250 KW (335cv). Isso implica uma melhoria nos tempos por volta de 3 a 5%, o que equivale dizer que numa volta de 60 segundos, os novos carros são dois segundos mais rápidos. Além disso, as trocas de carros deixam de ser necessárias durante a corrida, graças ao aumento das capacidades das baterias para o dobro, o que agradará aos mais puristas. Ou seja, mais capacidade, 25% de potência e binário, mais eficiência aerodinâmica… mais e melhor em tudo.

 

Fanboost com mais potência e o novo Attack Mode

O Fanboost foi outra das propostas arrojadas no início da era elétrica. A FE desafiou os fãs a votarem no seu piloto preferido, dando mais 25 KW de potência por um certo período de tempo aos três mais votados, uma forma nova e interessante de envolver os fãs nesta competição. A ideia mantêm-se, mas agora com os cinco pilotos mais votados a poderem usufruir desta arma, que é atribuída para a segunda metade de cada prova (os votos podem ser feitos até aos 22 minutos da corrida).

A ausência de paragem nas boxes, para corridas, que terão a duração de 45 min + uma volta, poderia levar a um comboio monótono de carros, mas os responsáveis da FE encontraram forma de apimentarem as corridas com uma nova ideia… o Attack Mode. Para o conseguirem, os pilotos terão de passar por uma zona mais lenta da pista (e assim perder tempo) que é chamada de “Zona de Ativação”, tendo de usar antes dessa passagem o botão de Attack Mode, no volante do seu carro. Depois disso, tal como no Fanboost, o carro passa de 200kw (potência de corrida) para 225 kW durante um certo período. A duração, o número mínimo e máximo de vezes que os pilotos terão de usar este novo modo será definido pela FIA até 60 minutos antes de cada prova, para evitar que as equipas estudem a forma mais rápida de completar a corrida com esta nova arma, que só poderá ser usada após a terceira volta.

 

Realidade virtual nas transmissões

Como habitualmente na FE, as mudanças são pensadas para os espectadores e estes modos de potência que são atribuídos de forma diferente poderia causar alguma confusão a quem vê as provas. Mas os responsáveis do campeonato querem facilitar a vida a quem vê as corridas e apresentarão grafismos em realidade virtual quando os pilotos usarem o Fanboost e o Attack Mode, com um toque de videojogo (quem jogou Wipeout ou Mário Kart poderá sentir alguma nostalgia). Além disso, o Halo, odiado por muitos, terá luzes LED que se acenderão com cores diferentes de cada vez que um piloto usar um modo de potência diferente (magenta para o Fanboost, e azul elétrico para o Attack Mode).

Estão planeadas também outras formas de interação com a competição com uma plataforma de simulação que os jogadores poderão usar como se estivesse na corrida.

 

O que esperar a nível desportivo?

Esta época torna-se interessante pela indefinição que existe neste momento. Com novos carros e novas soluções usadas pelas equipas, poderemos assistir a uma mudança de paradigma. Até agora a Renault e. dams foi a equipa que dominou a competição com três títulos em quatro épocas. A Audi, depois de um início mau na última época, conseguiu melhorar a sua performance graças a um aprimorado sistema de gestão de energia.

No fundo a gestão de energia é o equivalente à aerodinâmica na F1… é onde as equipas podem ir buscar mais performance e onde investem mais. Quem tiver a melhor gestão de energia poderá ser competitivo durante a prova. E neste aspeto a Audi parece ter vantagem, tendo conseguido o maior número de vitórias na época passada, juntamente com a Techeetah (4).  São estas duas equipas que se apresentaram como as maiores forças da época passada e o mais lógico será ver o mesmo a acontecer esta época, juntamente com a Nissan e. dams que substituiu a Renault, mas que conta com a mesma experiência e qualidade.

 

Félix da Costa candidato

Mas há uma nova força a emergir neste início de época… a BMW. A entrada do construtor bávaro pela porta da Andretti poderá abanar o campeonato. As primeiras impressões foram muito positivas e nos testes de Valência tivemos sempre um BMW na frente, o que para as cores portuguesas são excelentes notícias. António Félix da Costa tornou-se num dos favoritos na luta pelo título, apesar do campeonato ainda não ter começado. As boas indicações da BMW, juntamente com o talento e a experiência do piloto luso (um dos pilotos com mais corridas na FE – 41 em 45 possíveis) são uma mistura que poderá dar à BMW e a Félix da Costa muitos motivos para sorrir.

Mas a concorrência é feroz. Sebastien Buemi, Sam Bird, Lucas di Grassi e Jean-Éric Vergne, são excelentes pilotos e os homens que mais venceram na FE. Deste quarteto apenas Bird não foi campeão, mas esteve muito perto de o conseguir no ano passado, numa luta que sorriu a Vergne. Inseridos em equipas fortes, têm tudo para se manterem no topo da tabela.

 

Outros grandes nomes em pista

Mas o grid da FE está recheado de talento. Nomes como Felipe Massa (estreante), Pascal Wehrlein (estreante), Stoffel Vandoorne (estreante), Alexander Sims (estreante), Oliver Rowland (estreante), André Lotterer, Edo Mortara, José Maria Lopez, Robin Frijns, Gary Paffett, Nelson Piquet Jr. (primeiro campeão da FE), entre outros, têm capacidade mais que suficiente para animar este ano.

Nas equipas, para além da entrada da BMW, vimos também a entrada da HWA, com forte ligação à Mercedes, em parceria com a Venturi, a saída da Renault para dar lugar à Nissan, e a troca na Techeetah de unidades motrizes da Renault para a DS Automobiles, enquanto a Virgin passou a receber unidades motrizes da Audi ao invés da DS.

 

Vai valer a pena ver?

Vai. Pela mudança no paradigma da competição, pela ligação cada vez mais forte das marcas, e por termos o nosso Félix da Costa na luta pelos lugares da frente, vai valer a pena. E escreve quem torceu muito o nariz à competição. Embora ainda não 100% conquistado por esta nova forma de ver as corridas, esta nova era traz um entusiasmo e uma nova forma de competição muito mais interessante que a anterior. E quanto mais apoio dermos a Félix da Costa, quanto mais votarmos no fanboost, mais hipóteses teremos de ver a nossa bandeira nos primeiros lugares de uma competição que promete crescer cada vez mais. O inverno é frio e com pouca competição, mas a Fórmula E poderá servir para nos aquecer… de forma mais eficiente.

 

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