Por José Caetano
Santo Ficili, administrador-delegado de Alfa Romeo e Maserati, marcas italianas que integram o consórcio Stellantis, segundo maior fabricante europeu de automóveis, durante entrevista a AutoSport e E-AUTO no Mondial de L’Auto, em Paris, França, confirmou o regresso do construtor de Arese ao desporto automóvel, mas reservou o anúncio de todos os detalhes do programa para o início de 2027. Turismos, GT e resistência apresentam-se-nos como as hipóteses mais prováveis para o construtor que venceu a primeira corrida na história do Mundial de Fórmula 1, em 1950, e quatro edições consecutivas das 24 Horas de Le Mans, entre 1931 e 1934!
Ficili, insiste-se, não confirmou o programa nem o automóvel na base do projeto, mas garantiu que a categoria está no ADN da Alfa Romeo e deixou-nos pistas que permitem associar tudo a um novo modelo na gama da marca, garantindo que muitos pilotos quererão conduzir a futura máquina, afirmação que mantém em aberto quase todos os cenários, dos Turismos aos GT.
Território próprio dentro da Stellantis
A distribuição atual dos programas desportivos no consórcio Stellantis permite enquadrar as possibilidades em cima da mesa. A Peugeot compete no Mundial de Resistência (WEC) e em Le Mans, mas encontra-se comprometida com o projeto apenas até ao final de 2029, a DS Automobiles abandonou a Fórmula E, mas a Citroën tem equipa no Mundial e a Opel substitui a “parceira” francesa no campeonato de monolugares elétricos já a partir da Época 13, que coincide com o início da era GEN4, a Lancia está nos ralis e a Maserati encontra-se nos GT. Assim, Alfa Romeo necessita de encontrar um território próprio.
A Stellantis Motorsport, estrutura dirigida por Olivier Jansonnie, não gere apenas programas oficiais. Também desenvolve projetos de competição-clientes e presta apoio técnico aos automóveis de alto desempenho das diferentes marcas do consórcio.Isso significa que o anúncio prometido para o início de 2027 não tem necessariamente de corresponder à criação imediata de uma equipa oficial para um Mundial. Um automóvel destinado a terceiros é compatível com a organização existente e exige um investimento muito inferior.
Turismos entre os cenários prováveis
A ligação histórica da Alfa Romeo aos Turismos transforma a disciplina num cenário inevitável quando tentamos antecipar a decisão da marca. 155, 156 e Giulietta representam capítulos importantes do livro da história da marca de Arese no desporto automóvel.
Atualmente, porém, o fabricante não dispõe de automóvel adequado. Junior e Tonale são Sport Utility Vehicles (SUV), enquanto o Giulia acelera para o final da carreira. Esta situação poderá mudar com a nova proposta destinada a reintroduzir a Alfa Romeo ao segmento C.
Santo Ficili, durante a nossa conversa, confirmou que já existe desenho e maquete do sucessor espiritual do Giulietta, que não será um SUV. Um programa anunciado em 2027, teoricamente, poderia teoricamente anteceder a chegada desse automóvel e permitir um período extenso “q.b.” de desenvolvimento competitivo, mas não existe confirmação de que esteja a ser preparado um TCR ou um projeto equivalente.
GT3 e regresso a Le Mans
Um segundo cenário é a categoria GT, eventualmente através de um automóvel desenvolvido para equipas-clientes. A vantagem do projeto seria enorme, uma vez que um GT3 poderia disputar o GT World Challenge, as 24 Horas de Spa e Nürburgring, campeonatos nacionais e internacionais e, na configuração correspondente (LMGT3), o Mundial de Resistência (WEC) e as 24 Horas de Le Mans.
Desta forma, a Alfa Romeo poderia regressar à clássica francesa sem competir com o programa Hypercar da Peugeot (9X8). O problema é o… automóvel.O 33 Stradale, superdesportivo com produção limitado a apenas 33 exemplares, não representa uma base para uma homologação GT3, enquanto o novo Cuorerosso é apenas um “concept”. E, assim, mesmo tratando-se de hipótese estratégica muito interessante, a possibilidade GT não conta com modelo produzido de sériecapaz de a sustentar.
Resistência a partir de 2030
Na categoria principal do WEC (Hypercar), uma entrada Alfa Romeo durante o atual ciclo do campeonato parece menos provável, devido ao investimento da Stellantis no programa Peugeot 9X8. Dois projetos paralelos significariam duplicar os custos de desenvolvimentos e operacionais, o que não faz sentido dentro de um mesmo grupo.
No entanto,esta situação poderá mudar em 2030, com a entrada em vigor de nova regulamentação na categoria principal da resistência. A evolução prevista, que também abrange o campeonato norte-americano IMSA, deverá criar maior convergência técnica (substituição das fórmulas LMH e LMDh por plataforma técnica única) com o campeonato norte-americano IMSA), mantendo, contudo, margem para identidades visuais e soluções próprias dos fabricantes.
Estratégica e cronologicamente, um programa da Alfa Romeo pensado para essa próxima fase da resistênciaé muito mais coerente do que uma entrada imediata,mas o cenário deve permanecer estritamente no campo da análise especulativa.
Primeira vencedora na Fórmula 1
A dimensão de qualquer regresso resulta também da história da marca. A 13 de maio de 1950, a Alfa Romeo venceu em Silverstone, Inglaterra, a primeira corrida da história do Campeonato do Mundo de Fórmula 1! O italiano Giuseppe “Nino” Farina, num 158, arrancando da “pole position”, ganhou o Grande Prémio da Grã-Bretanha e terminaria a temporada como o primeiro campeão do mundo.Em 1951, o argentino Juan Manuel Fangio, num 159, conquistou o segundo título consecutivo da Alfa Romeo na categoria-rainha do desporto automóvel.
Depois, a Alfa Romeo retirou-se da disciplina, regressando muitos anos mais tarde como fornecedora de motores e, posteriormente, enquanto construtor, com uma equipa própria, entre 1979 e 1985. A ligação mais recente à Fórmula 1 aconteceu através da Sauber, entre 2018 e 2023. Entretanto, esta operação também terminou e a escuderia suíça foi absorvida pela Audi.
Quatro vitórias consecutivas em Le Mans
Na resistência, a Alfa Romeo tem quatro vitórias consecutivas nas 24 Horas de Le Mans – conseguiu-as entre 1931 e 1934 e todas com os 8C 2300. A primeira com Henry Birkin e Earl Howe. A segunda com Raymond Sommer e Luigi Chinetti. A terceira com Tazio Nuvolari e Raymond Sommer. E a quarta com Luigi Chinetti e Philippe Étancelin.A marca italiana conquistou também 11 edições das Mille Miglia e 10 da Targa Florio. Ainda na resistência, mais dois títulos importantes: Campeonato do Mundo de Marcas em 1975 (33 TT 12) e Campeonato Mundo de Sport-Protótipos em 1977 (33 SC 12).
Também nos Turismos, diversos momentos emblemáticos.Em 1993, A Alfa Romeo entrou no campeonato DTM com o 155 V6 TI e Nicola Larini, na época de estreia,ganhou a competição.O 156 prolongou este sucesso nos anos seguintes, no ITC e no Europeu, tornando-se uma das referências dos campeonatos europeus da categoria. Em 2005, a marca ainda disputava oficialmente o WTCC com quatro 156 e pilotos como Gabriele Tarquini, Fabrizio Giovanardi, Augusto Farfus e James Thompson.No final desse ano, terminou o último grande programa internacional oficial de fábrica antes da associação à Sauber na Fórmula 1.
Regresso à competição na Taça América
Antes do anunciado regresso ao automobilismo, a Alfa Romeo já recuperou uma ligação direta ao desporto de alta competição através da Luna Rossa.A marca é patrocinadora oficial e parceira estratégica da formação italiana participante na 38.ª edição da competição mais antiga do mundo, a Taça América, a disputar em Nápoles, Itália,no próximo ano.
A colaboração vai muito além da exposição do nome da marca.Existe trabalho conjunto em simulação, tratamento de dados, “software”, aerodinâmica, hidrodinâmica, materiais compósitos, estruturas leves e otimização de sistemas, explorando metodologias comuns à competição automóvel e à vela de elevado desempenho.
Esta transferência de conhecimento é muito interessante, uma vez que ambos os universos dependem de controlo de peso, resistência ao avanço, materiais avançados, simulação e análise de grandes volumes de dados antes da validação em condições reais.
A primeira grande fase competitiva será a Louis Vuitton Cup, que tem início marcadopara 22 de maio de 2027, destinada a escolher o Challenger que do campeão Emirates Team New Zealand na Taça América. Esta etapa poderá prolongar-se até 4 de julho. Depois, decisões entre 10 e 19 de julho, dependendo do número de regatas necessário para encontrar o vencedor.
Cuorerosso antecipa sucessão do Giulia
É também neste momento de recuperação da identidade desportiva que surge o Alfa Romeo Cuorerosso, estudo apresentado no Mondial de l’Auto, em Paris, França, certame aberto ao público até ao próximo domingo, 18 de outubro. O “concept” não antecipa o sucessor do Giulia, mas apresenta-nos o futuro do fabricante italiano.
O Giulia foi apresentado em junho de 2015. O Stelvio surgiu em novembro de 2016. Os dois automóveis com que a Alfa Romeo concorre no segmento médio (D) receberam uma importante atualização para 2020 e voltaram a ser renovados em 2023. A manutenção da produção está confirmada até ao final do próximo ano, o que significa carreiras próximas de uma década. Os sucessores anteriormente projetados foram revistos perante a alteração da estratégia de eletrificação da Stellantis.
O Cuorerosso ganha também importância pelo enquadramento técnico. Apesar da existência da nova arquitetura STLA One do consórcio franco-italo-americano, plataforma multienergia para automóveis dos segmentos B, C e D, Santo Ficili diz que o “concept” assenta na Giorgio de tração traseira (ou quatro rodas motrizes) estreada por Giulia e Stelvio e aproveitada depois pela Maserati, no Grecale.
A possibilidade de uma evolução da Giorgio continuar a servir as duas marcas está em avaliação.A colaboração entre Alfa Romeo e Maserati excede, contudo, a partilha desta arquitetura. O 33 Stradale utiliza uma base técnica relacionada com o Maserati MC20/MC Pura, enquanto a divisão de projetos especiais BottegaFuoriserie deverá aprofundar o desenvolvimento conjunto de automóveis produzidos em edições muito limitadas, materiais e soluções de engenharia.
Para os motores V6, as marcas privilegiam a manutenção de identidades próprias. O 2.9 biturbo da Alfa Romeo utilizado nas versões Quadrifoglio é diferente do Nettuno 3.0 da Maserati, embora as equipas de engenharia partilhem conhecimentos, recursos de desenvolvimento e componentes. Esta cooperação estende-se às tecnologias associadas à eletrificação. A Maserati desenvolveu a gama de versões Folgore, com motorizações elétricas de alto desempenho, e esse conhecimento é importante para os futuros projetos Alfa Romeo.

O Cuorerosso é um “coupé” com configuração interior de 2+2 lugares, 4,70 m de comprimento e 2,93 m entre eixos.Pesa 1750 kg e apresenta um Cx de 0,28.
Utiliza direção “steer-by-wire”, suspensão pneumática e travões carbono-cerâmicos da Brembo. A Alfa Romeo imagina, no topo da gama, uma motorização híbrida V6 2.9, acompanhada por tração integral Q4, transmissão com conversor de binário e veio de transmissão em fibra de carbono.Nada disto está confirmado para produção, tal como o próprio Cuorerosso.
A Alfa Romeo tenta reconstruir em simultâneo produto, tecnologia e identidade desportiva.A questão que interessa ao AutoSport permanece, por enquanto, sem resposta: qual o primeiro automóvel da nova fase na história da marca com 116 anos, o modelo que permitirá o regresso do fabricante à competição? Santo Ficili prometeu-nos uma resposta para o início de 2027.











