Era um dos momentos mais esperados do começo da época. Com os novos carros já apresentados e em pista, era tempo de rever os principais acontecimentos da louca época 2021, pelos olhos dos produtores do Drive To Survive, série da Netflix sobre a F1.
Desde que as primeiras impressões foram caindo na internet que ficou no ar a ideia que a quarta temporada não tinha sido bem conseguida. Como, se a época 2021 foi repleta de acontecimentos dramáticos, numa das melhores épocas de sempre da F1? Bastava seguir a história, tal como ela foi acontecendo, para ter o sucesso garantido. Os fãs queriam apenas conhecer um pouco mais sobre os bastidores, as reações dos pilotos e dos chefes de equipa. No entanto, as críticas foram surgindo e muitos mostraram-se degradados pela forma como a temporada 4 foi pintada.
Depois de ver os dez episódios novos episódios da série, não posso dizer que os produtores tenham feito o tão mau trabalho como o que esperava, depois de ler algumas críticas. Afinal a internet tem sempre a capacidade de exagerar os factos. No entanto, partilho da opinião de que podia ter sido melhor e que havia potencial para mais.
Na minha opinião, há algumas histórias contadas nesta temporada: a luta pelo título com muito destaque dado aos chefes de equipa Christian Horner e Toto Wolff; a entrada de Daniel Ricciardo na McLaren e as suas dificuldades, a ida de George Russell para a Mercedes e consequente saída de Valtteri Bottas; a entrada dos estreantes Yuki Tsunoda e Nikita Mazepin, com Mick Schumacher a ficar afastado das luzes da ribalta; O percurso de Esteban Ocon nesta época. Mas ficaram outras histórias mais interessantes por contar e acontecimentos marcantes por destacar.
Começando pelas escolhas feitas, certamente que os fãs escolheriam outros protagonistas. De fora ficaram Fernando Alonso e Sebastian Vettel (com aparições fugazes). Também Kimi Raikkonen ficou de fora e não me lembro de ele ter sido mencionado uma vez. São personagens com muito peso na comunidade de fãs da F1 mas que não aparecem. Daniel Ricciardo volta a ser o escolhido para ser protagonista, tal como Guenther Steiner. Se na temporada dois não gostei de ver “cromos repetidos” nesta temporada a escolha de Ricciardo e da Haas faz sentido. Aliás, todas as escolhas fazem sentido pois ou são personagens que garantem audiências e que tiveram desafios diferentes pela frente, ou personagens novas. Nikita Mazepin, por exemplo, é visto por um prisma que não tínhamos visto durante a época, o que é pertinente, tal como Tsunoda. Mesmo a história de Russell e Bottas é interessante.
Mas os produtores focaram-se apenas em algumas corridas quando a grande maioria teve excelentes pontos de interesse. Corridas entusiasmantes ficaram de fora, e outras foram retratadas em vários episódios. A forma como as histórias secundárias (considerando a história do título como a principal) foram novamente retratadas com drama a mais. Por exemplo, se no ano passado vimos uma suposta relação de rivalidade entre Lando Norris e Carlos Sainz (o que para quem segue a F1 foi simplesmente ridículo) este ano tentam o mesmo golpe com Ricciardo e Norris. É certo que a relação entre os atuais pilotos da McLaren não é tão fluida como era entre Lando e Sainz, mas a situação foi novamente exagerada.
Quanto à história do título, os dois últimos episódios mostram bem a tensão das últimas corridas, mas foram servidos com pouco tempero e o final apoteótico não foi o que esperava.
Resumindo, não foi a pior temporada da série, na minha opinião, e escolher as histórias certas nem sempre deve ser fácil. Acredito que houvesse vontade de fazer um episódio dedicado a Kimi Raikkonen, mas duvido que o piloto tenha tido abertura para permitir fazer algo. Mas havia potencial para mais e cometeram-se novamente erros do passado.
No entanto, fica claro que a série não é para consumo dos verdadeiros fãs da F1. É para ser vista por quem quer começar a ver a F1 ou quem está ainda a começar a ver. Para quem segue a F1 afincadamente, há demasiados pormenores que não batem certo com a realidade. E é este dilema que os produtores da série têm que resolver. O DTS abriu as portas a um mundo de fãs que não sabia que não gostava de F1 e que agora consome mais ou menos avidamente. Mas nesta quarta temporada, começa-se a sentir que é preciso evoluir, é preciso deixar os dramas fabricados, as mensagens de rádio sem sentido. Talvez seja preciso começar a fazer o DTS para os fãs a sério, que começam a ser muitos. O DTS é uma ferramenta brutal de promoção da F1, mas talvez seja tempo também de se reinventar e abordar os temas de outra forma. Quem segue a F1 apenas de forma causal não ficará desagradado com a temporada 4, mas quem gosta e consome muita F1 ficará com a sensação que faltou algo.











