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Michael Schumacher: 1000 dias de sofrimento

José Luis Abreu by José Luis Abreu
24 Setembro, 2016
in F1, FÓRMULA 1, Newsletter
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Montezemolo nega ter falado recentemente sobre Schumacher

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Completam-se hoje 1000 dias desde que Michal Schumacher teve o seu terrível acidente de esqui que o atirou para um processo de recuperação que muitos poucos sabem qual é. Muito se tem falado disso, pouco ou nada se sabe, nem é isso que importa agora, e tudo isso trocávamos para só poder ouvir um dia que ele está melhor e vai recuperar uma vida normal. Nada mais importaria… por isso, o que vamos fazer é recordar uma entrevista que deu ao AutoSport em 2011, feita por Alberto Antonini, em que Michael Schumacher explica qual a sua receita para vencer. Arrepia a frase com que termina a entrevista…

“Uma motivação que radica no mais puro prazer de conduzir”

 Cada vez que vence um Grande Prémio, Michael Schumacher exulta como se fosse a sua primeira vitória. O que faz este homem correr? O que leva aquele que todos consideram hoje em dia como o melhor piloto do mundo a sentir a mesma alegria e entusiasmo em cada teste, em cada treino, em cada corrida?
No fim de contas a resposta parece ser simples: o puro prazer de conduzir! Nem mais, nem menos…

Já alguma vez ganhou milhões de euros por temporada automobilística, venceu por sete vezes (das quais cinco consecutivas) o “Mundial” de Fórmula 1 e, de repente, teve um acidente a 345 km/h no autódromo de Monza? Se respondeu a estas questões afirmativamente, ou é um mitómano, ou é Michael Schumacher! Mas se estivesse no lugar do piloto alemão como se sentiria? Satisfeito, acabrunhado, talvez preocupado por um incidente que poderia ter acabado com a sua carreira, da pior forma? Disposto à reflexão, hipoteticamente ao repensar da sua vida, convencido de ter dado – e ter recebido – o suficiente? Descanse e esteja calmo: não é o Michael Schumacher, já que a este não se lhe conhecem reações abruptas, seja perante o sucesso, seja quando é confrontado com a adversidade. Tudo porque ainda tem vontade de vencer, porque se diverte a pilotar mas também – e esta é uma faceta pouco conhecida – a preparar as suas vitórias, “degustando” a antecipação.

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Michael Schumacher decidiu “abrir-nos” o seu coração, falando um pouco de tudo: do mais óbvio, às facetas mais bem escondidas, desvendando uma fresta sobre a sua privacidade, sobre as lágrimas que há quatro anos derramou após um triunfo que lhe abrias as portas para o primeiro título mundial com a Ferrari.

Outro título mundial conquistado no GP da Bélgica e, poucos dias depois, um violento despiste durante uma sessão de testes na pista de Monza. É normal que as pessoas se interroguem: o que é que o motiva? Onde consegue ainda encontrar força para andar à frente?
“O sucedido nos testes de Monza não interferiu com a minha motivação, com o divertimento e a alegria de tripular um automóvel de competição. Amo este desporto mesmo quando ele não é cem por cento seguro. Não há necessidade de discutir agora aquilo que nunca por nunca se equacionou de início, nem se poderia discutir. Repito: adoro este desporto e é daí que nasce a minha motivação.”

Mesmo sem nos deixarmos ofuscar por reações excessivas, nos últimos meses assistimos a uma série de incidentes conotados com problemas de pneus. Não seria possível fazer mais qualquer coisa neste domínio?
“Apesar de quase tudo ter acontecido em determinado período, as causas não foram sempre as mesmas. A associação dos pilotos, GPDA, continua a trabalhar em pról da segurança  e existe um conjunto de argumentos que temos levado em consideração. Por exemplo, podemos pressupor que para o ano, em Spa, vamos utilizar pneus com compostos diferentes face a todos os problemas que se registaram este ano. Estaremos atentos para tentar evitar que problemas deste e de outros tipos se repitam. Pessoalmente penso que até hoje já muito foi feito em termos de segurança, em parceria com a FIA e esta tendência prosseguirá no futuro. Ao próprio poder desportivo interessa, sobremaneira, que a Fórmula 1 seja o mais segura possível.”

Mesmo depois de tantos triunfos, ganhar um Grande Prémio ainda é, para si, um exercício fascinante?
“Claro, já que no escritório do meu ‘chefe’ existe um painel com uma foto por cada uma das vitórias. E vê-las todas juntas é deveras impressionante.”

Esta temporada foi marcada por outra cavalgada triunfal, quase idêntica à conseguida em 2002. Salvaguardando as necessárias proporções e levando em linha de conta a mudança de regulamentos, admite que o progresso efetuado entre aquela temporada e a seguinte foi maior ou menor do que o “salto” em termos de prestações ocorrido entre 2003 e este ano?
“É uma diferença que apenas se pode exprimir de uma forma: em 2002 sabíamos, claramente, que tínhamos à disposição um excelente monolugar, muito forte face à concorrência, enquanto que, entre o ano passado e este ano estávamos menos seguros de ter nas ‘mãos’ um bom carro e com um ‘pacote’ de condições tão boas.”

Contudo, nos últimos testes de 2003, em Imola, o recorde obtido debaixo de neve e gelo, deve ter deixado uma indicação clara…
“Sim, de facto em Imola tornou-se particularmente claro o que nos esperava. Mas estamos a falar do último teste antes de partirmos para a Austrália e durante todo o período de testes de inverno a situação nunca nos pareceu tão óbvia. Podem ter a certeza absoluta que não foi fácil avaliar o valor das forças em presença: só em Imola, no final de Fevereiro é que estiveram juntos em pista os carros de 2004 com os pneus novos, ou seja, a combinação destinada a disputar o campeonato.”

Desde a conquista do sétimo título, tornou-se mais fácil e mais agradável participar nos restantes Grandes Prémios?
“Naturalmente, é sempre bem mais agradável, já que a pressão que deriva das exigências relativas ao Campeonato já não pesam nos meus ombros. Podemos dizer que a estrada ficou mais liberta já que passei a poder concentrar-me mais na corrida propriamente dita, do que no êxito final da temporada.”

Nestas últimas corridas, já com os títulos conquistados, a Ferrari experimentou quaisquer novidades técnicas destinadas à temporada de 2005?
“Não, apenas alterações mínimas em função dos circuitos onde corremos. É óbvio que tivemos uma atenção especial em relação a alguns componentes, mas não existiram quaisquer novidades substanciais até ao final… ou até que esteja pronto o carro novo (aqui Michael Schumacher parece indiciar que poderá iniciar a nova época com o monolugar de 2004 modificado). Não se pode passar de um projeto para outro tão rapidamente.”

Antes de Monza a Ferrari efetuou testes aerodinâmicos por conta da FIA, com o intuito de avaliar as alterações aerodinâmicas necessárias para que os carros se tornem menos instáveis quando seguem “colados” aos da frente. Acredita que será possível fazer algo, já no próximo ano, para facilitar as manobras de ultrapassagem?
“No próximo ano? Penso que a redução da eficácia aerodinâmica dos difusores e dos perfis alares é a base estrutural de todas as novas regras. Agora não sei, francamente, se este conjunto de regras funcionará ou não.”

Na sua opinião de que depende a maior ou menor dificuldade que os pilotos têm hoje em dia de se “colarem” ao carro da frente e depois saírem do cone de ar para tentarem a ultrapassagem? Dos pneus, que devem, necessariamente, permanecer na trajetória “limpa”, o da perda de carga aerodinâmica?
“A Fórmula 1 é tão complexa que, todos podem apresentar propostas, mas nenhuma será verdadeiramente decisiva. Trata-se, sempre, da conjugação de inúmeros fatores. Se, posteriormente, estes fatores são avaliados e interpretados da forma mais correta, pelos engenheiros ou por quem está por dentro da F1, teremos de esperar para ver. Penso que temos de ir efetuando experiências e analisando os dados recolhidos para escolher o rumo de trabalho mais correto.”

Sendo considerado o melhor piloto do plantel, já experimentou, efetivamente, estas súbitas perdas de carga aerodinâmica?
“Claro. Quando se segue na cauda de outro monolugar perdemos cerca de 30 por cento de carga aerodinâmica e nalguns casos 40 por cento. E não necessariamente na secção dianteira, mas sim em todo o carro.”

Honestamente diga-nos: tem ainda a mesma satisfação em vencer corridas como, por exemplo, o GP da Hungria, que dominou totalmente chegando mesmo ao ponto de se permitir a reduzir as rotações do motor no final da corrida?
“Sim, é óbvio que dominámos, mas pensem no trabalho preparatório que se esconde por detrás de uma corrida como o GP da Hungria. Encontrar algo que te torne ainda mais forte do que os outros é já motivo de grande satisfação. Chegar ao circuito e perceber que mais tarde se poderá dominar o Grande Prémio é uma sensação estupenda. De facto, é o trabalho preparatório de cada corrida que torna cada vitória mais bela. Como, por exemplo, quando se desenvolvem os pneus nos testes e nos apercebemos do nível de prestações que podem obter: fantástico…”

Até quando pensa manter, física e psicologicamente, o actual nível de prestações?
“Há mais de 10 anos que o digo: no máximo apenas posso planificar a minha carreira num arco de cinco anos: estarei ainda ao volante de um carro de competição daqui a um lustro? De momento, sinto-me em boas condições e, consequentemente, colocar outras hipóteses não é aceitável. Agora é preciso ver se consigo manter este rendimento. É claro que, a nível físico, existem algumas partes do meu corpo que, com o passar dos anos já não funcionam a 100 por cento, como antes acontecia. Mas não se trata de nada que provoque quaisquer limitações. O desgaste mental? Não sei. Fisicamente sou uma daquelas pessoas que me esforço um pouco mais pela manutenção e penso que isso é fácil de constatar ao nível do desgaste do corpo. E para mim isto vem primeiro do que o desgaste psicológico.”

Como é que evoluiu, ao longo dos anos, o relacionamento entre Michael Schumacher  e a Ferrari?
“É difícil exprimi-lo através de palavras. Mas penso que é suficiente ver como no decorrer deste ano, apesar de tudo o que vencemos, a alegria e a satisfação de conseguir outras vitórias e outros sucessos esteve sempre presente. Este facto, por si próprio demonstra quão intenso e harmónico é o nosso relacionamento. É isto que nos ajuda a prosseguir e a querer sempre mais.”

No pódio de Spa não parecia tão satisfeito quanto se poderia imaginar para quem conquista o sétimo título mundial. É correcto afirmar que preferiu abordar a corrida de forma prudente e conservadora, até no que diz respeito à escolha dos pneus, pondo à frente a certeza matemática da classificação em contraponto à satisfação de se laurear Campeão com um enorme sucesso na corrida?
“Tal como já disse, mais do que qualquer outra coisa, o GP da Bélgica foi festejado entre mim e mim. Tal como tinha acontecido o ano passado em Suzuka tinha presentes diferentes emoções. Não estava seguro da forma como havia de considerar este segundo lugar. Tive de reflectir um pouco sobre as minhas emoções, mesmo que mais tarde e naturalmente, quando nos encontrámos todos no motorhome da Ferrari o ambiente fosse de grande festa. E eu senti-o. Quanto à abordagem conservadora à corrida, poderei dizer que essa é apenas um impressão externa. Tinha experimentado os pneus na sexta-feira e era evidente que a minha escolha – a mistura mais dura – faria com que fosse menos veloz numa só volta, mas seguramente mais consistente na distância total. Globalmente era mais rápido e como sabíamos que no sábado iria chover, as prestações numa só volta de qualificação não seriam importantes. Foi esta a principal razão da minha escolha e não creio que o resultado final tenha sido condicionado pelos pneus. No que diz respeito a velocidade e constância de rendimento, tudo estava a postos. O único problema surgiu depois da entrada em pista do safety-car, algo que não conseguia prever. Penso que a minha corrida não teria sido diferente com outro tipo de pneus… entre aqueles que tínhamos à nossa disposição. Não existia uma grande diferença entre uma especificação e outra.”

Como festejou “a quente” o seu sétimo título?
“Em casa junto dos meus entes queridos. Infelizmente não tive muito tempo para o fazer, já que cheguei a casa na segunda e na terça-feira parti para os testes de Monza. Francamente não sei se compreendi, de imediato, a extensão do que tinha conquistado. Faz parte do meu feitio pensar nos desafios futuros e, assim sendo, nunca olho para trás. Contudo, por um momento, ainda me questionei sobre o sucedido, mas tenho a necessidade de analisar estas situações apenas depois de deixar passar algum tempo. E não creio que os três meses de Inverno sejam suficientes. É que, à minha frente ainda tenho tantos anos de vida…”

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Tags: Michael Schumacher
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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