Gordon Murray e o BT52: Um carro campeão, feito em três meses…

Por a 1 Setembro 2025 09:36

O lendário engenheiro Gordon Murray, criador do icónico Brabham BT52, esteve no Autódromo do Estoril para acompanhar mais uma vez aquele que considera um dos seus carros mais especiais, novamente conduzido por Nelson Piquet, num reencontro especial. Numa conversa com o AutoSport, Murray abriu o coração sobre as memórias do projeto, a filosofia por trás do carro e a sua visão sobre a Fórmula 1 atual e o futuro dos automóveis.

Gordon Murray, engenheiro automóvel nascido na África do Sul e naturalizado britânico, é um dos nomes mais inovadores da história do desporto motorizado. Entre 1969 e 1986 liderou a Brabham, criando carros icónicos como o BT46B “fan car” e o BT52, que deu o segundo título a Nelson Piquet. Mais tarde, na McLaren (1987–1991), foi peça-chave no desenvolvimento do MP4/4, dominador da temporada de 1988 e responsável pelo primeiro título de Ayrton Senna.

No mundo dos automóveis de estrada, esteve na génese da McLaren Cars e concebeu o lendário McLaren F1, considerado um dos melhores supercarros de sempre. Posteriormente criou a Gordon Murray Design e a Gordon Murray Automotive, apostando em soluções leves e inovadoras como o T.25 e o GMA T.50.

Reconhecido pelo seu contributo disruptivo no design e na engenharia automóvel, foi distinguido com o título de Comendador (CBE). A sua filosofia de leveza e eficiência continua a marcar profundamente a Fórmula 1 e os supercarros modernos.

Falando do belíssimo BT52, Murray admitiu que foi um carro especial, por vários motivos:

“É sempre um carro especial para mim, por causa do campeonato do mundo conquistado com o Nelson, e também por ter sido o primeiro carro a fazer paragens nas boxes. Sempre teve um significado único. A equipa da BMW cuidou dele muito bem e o carro continua a estar em excelente forma. É um dos meus favoritos”.

A revolução depois do fim das saias laterais

O Brabham BT52 nasceu de uma mudança drástica nos regulamentos. Murray recorda: “No inverno de 82 proibiram os ´skirts´[usados para selar o fundo do carro e aumentar o efeito solo]. Sem isso, perdíamos 80% da carga aerodinâmica. Eu tinha acabado de terminar o BT51, com três carros construídos, que tería meio depósito de combustível, desenhados para correr com ´skirts´. Bernie [Eccleston] continuava a dizer que eles não iam proibir as ´skirts´e depois isso aconteceu. Mas, de repente, tinha apenas três meses para fazer um carro totalmente novo. Não houve tempo para desenvolver side pods convencionais, sem ´skirts´.”

A solução passou por arriscar. “Fui pelo caminho oposto. Sabia que sem essa carga aerodinâmica íamos ter problemas de tração, por isso movi 7% do peso para trás e eliminei por completo os side pods. Colocamos muita asa à frente e atrás. E funcionou. O carro manteve-se equilibrado, com boa resposta na frente, mesmo com o peso mais atrás. Claro que precisávamos de mais carga no eixo traseiro, mas o equilíbrio foi conseguido. Foi um bom carro de corrida e tenho muito orgulho nele.”

A diferença entre a F1 de ontem e de hoje

Questionado sobre a Fórmula 1 atual, Murray não esconde a falta de entusiasmo: “Hoje já não me adaptaria bem. Não é possível fazer grandes mudanças. Só se alteram centenas de pequenos detalhes. Eu gosto de pensar num conceito novo que, de repente, seja dois segundos mais rápido. Essa era a verdadeira aventura. Hoje o desafio é diferente: é quase só aerodinâmica.”

Segundo o engenheiro, na sua época a aerodinâmica representava “40 a 50% do desempenho”, sendo o resto fruto do motor, do grupo mecânico e da forma como o carro usava os pneus. “Hoje é provavelmente 90% aerodinâmica”, lamenta.

A liberdade que encontrou nos automóveis de estrada

Essa limitação na F1 levou Murray a procurar outras formas de liberdade criativa: “Nos carros de estrada tenho a mesma liberdade que procurava na Fórmula 1. Posso fazer tudo: qualquer peso, qualquer potência, qualquer carga aerodinâmica. E também é importante fazer carros bonitos. Tenho muito prazer nisso.”

Recentemente, Murray fundou a Gordon Murray Special Vehicles, dedicada a projetos muito exclusivos. “Lancei a empresa no ano passado. Fazemos apenas pequenos projetos, carros diferentes. Lançámos os dois primeiros em Monterey. Enquanto isso, na Gordon Murray Automotive temos supercarros mais convencionais. Mas esta nova empresa vai dar-me muita diversão.”

O prazer de continuar a criar

Apesar de alguns desafios pessoais recentes, a paixão mantém-se intacta. “Tive cancro no ano passado e agora só consigo trabalhar cerca de 11 horas por dia”, revelou com humor, “mas continuo a divertir-me imenso.”

E afinal, o que mais o motiva? “O design, o conceito e a criação. Não tanto a condução. Nos carros de corrida, antigamente, o piloto era essencial para o desenvolvimento. Nos supercarros de estrada não sabemos quem os vai conduzir, por isso desenhamos o melhor que conseguimos, entregamos e esperamos o melhor.”

No Estoril, entre memórias de glória e novos projetos, Gordon Murray mostrou que continua a ser movido pela mesma paixão que, há mais de 40 anos, deu vida ao Brabham BT52 e ajudou Nelson Piquet a conquistar o título mundial.

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3 comentários

  1. Canam

    1 Setembro, 2025 at 12:45

    Este F1 foi o mais potente de sempre e foi concebido à pressa, mas saiu bem. Dava 1500cv em treinos. O motor era o velhinho do BMW 2002 de 4 cilindros, mas nesse ano de 83 o turbo não tinha limitações. Depois passou a ter. A FIA, sob a pressão dos grandes construtores Renault e Fiat/Ferrari, e depois das guerras FIA- FOCA e de ter tentado limitar os wing cars onde os ingleses davam cartas , com o Ford Cosworth, decidiu impor o fundo plano, a partir de 83. Os carros mudaram radicalmente. Mas, ironia, quem ganhou foi um carro inglês, este, depois de intensa luta com o Renault de Prost. Este carro teve para o final uma gasolina de avião especial, cuja origem vinha de patentes da Alemanha Nazi. Mas a Renault não protestou. O Piquet ganha com mérito neste carro o 2º titulo.

  2. jo baue

    1 Setembro, 2025 at 15:02

    Um carro também campeão da trafulhice, convém dizê-lo no presente em que há espaço para outras vozes além dos media alinhados – a esmagadora maioria – dessa época que formatavam a cabecinha dos incautos. Concretamente, a questão do combustível ( como o Canam refere) que permitia atingir um pico de potência inacreditável e, não menos importante, permitia também evitar rupturas do motor, algo muito fequente nesses anos. Aquilo chegou ao ponto de envolver o Instituto Francês do Petróleo a propósito do reexame dessa “gasolina” que até das bancadas se sentia pelo olfacto que era diferente. Numa frase, a Fórmula 1 dos ingleses.

  3. malhaxuxas

    1 Setembro, 2025 at 21:08

    Grande Sr. este Murray. De t-shirt a curtir Rock enquanto trabalhava no pitlane.
    Foi sem dúvida um génio.
    Mas tem sempre por aqui quem ache o contrário e estão no seu direito.
    Este BT52, foi mais um a envergonhar os Cosa Rossa. E isso dava imenso goso.
    Lembro-me muito bem de o terem testado 15 dias antes de começar o campeonato, numa pista em Inglaterra, todo camuflado às tiras pretas.
    Quando estreou foi logo uma revolução. E talvez por aqui andem esquecidos. A 4 provas do fim, Piquet precisava vencer todas elas para ser campeão. E conseguiu. Só não venceu a última porque o Prost desistiu e Piquet não precisou do primeiro lugar. Se bem me lembro venceu o Patrese.
    Melhor do que isso só mesmo a estreia do MP4/4 também com a sua mãozinha criativa e eficaz.
    Mas essa é história para outros posts

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