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F1: O interesse da Andretti na Sauber é um sinal dos novos tempos

Fábio Mendes by Fábio Mendes
14 Outubro, 2021
in F1, FÓRMULA 1
A A
GP Itália F1: Notas AutoSport (Parte 3)

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A Andretti está em vias de comprar 80% da Sauber, ficando com a maioria do capital do grupo que inclui a equipa que opera agora sob o nome Alfa Romeo, e o departamento de engenharia, à imagem da McLaren Applied e da Williams Advanced Engineering.

Mas o que este interesse significa para a F1? Acima de tudo, o trabalho que a Liberty está a fazer começa a dar os frutos desejados. Se há alguns anos era complicado encontrar investidores fortes com interesse na F1, agora temos visto cada vez mais “dinheiro novo” a entrar para o Grande Circo. A Dorilton Capital investiu na Williams, Lawrence Stroll investiu forte na Aston Martin e a McLaren também teve um reforço de capital com investimentos de fora. Mais ainda, marcas como Audi e Porsche dão cada vez mais sinais de quererem entrar na F1.

Quando a Liberty chegou à F1, encontrou um desporto fechado, com um modelo de negócio ultrapassado que beneficiava sempre as maiores equipas e onde o investimento caía sempre em “saco roto” com o dinheiro a ser canalizado para cada vez mais atualizações, sem retorno à vista. No fundo a F1 viva do seu prestígio e por ser uma montra privilegiada,numa espécie de exercício de marketing pago a peso de ouro, mas que começava a interessar apenas aos velhos, com as novas gerações a afastarem-se do Grande Circo, o que foi encarado sem grandes receios, porque os bolsos mais fundos são dos mais velhos, dizia-se na altura. A Liberty mudou completamente esta forma de ver a F1. As redes sociais começaram a trabalhar de forma intensa, o desporto abriu-se aos fãs mais jovens, até uma série onde se retrata os bastidores da F1 foi criada, o que levou a um boom de novos adeptos, mudanças que chegaram na altura ideal pois os novos talentos para os próximos 15 anos chegaram mais ou menos na mesma altura. O desporto renovou-se por completo e essa renovação tornou-se mais profunda com uma nova abordagem aos regulamentos técnicos.

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Ao invés de se fazerem novas regras com base em suposições e ideias que depois não resultaram (basta ir ver o que se dizia dos carros atuais quando foram introduzidos em 2017 e os resultados que produziram para entender que nem sempre o que os novos regulamentos pretendem é atingido), a F1 criou um grupo de trabalho técnico que durante quase três anos trabalhou como se uma equipa de F1 se tratasse, para entender o que os novos regulamentos poderia trazer e a proposta foi sendo modificada, ao ritmo das novas descobertas. Mesmo a forma de apresentar os novos regulamentos às equipas foi completamente diferente e tentaram-se consensos e uma aceitação geral das novas ideias, um trabalho por vezes ingrato, mas que está a ser seguido novamente para a nova regulamentação dos motores para 2025.

Mas a grande mudança aconteceu no novo Pacto de Concórdia em que as receitas da F1 foram redistribuídas de uma forma que nunca se pensou que pudesse acontecer, com uma distribuição mais justa dos prémios, deixando de lado a velha filosofia de dar mais a quem tem mais. Junta-se a isso um limite orçamental que vai colocar um travão a orçamentos faraónicos e passamos a ter um desporto em que as equipas deixam de  perder dinheiro todos os anos e podem começar a dar lucro. É por isso que Lawrence Stroll está a apostar na F1, tal como a Dorilton e é por isso que a Andretti quer entrar. Porque há potencial para que as equipas valorizem e possam dar lucro. Essa valorização pode ser ainda maior pois agora quem quiser entrar na F1 terá de dar logo 200 milhões de dólares. Ou seja, as dez equipas atuais fazem parte de um clube exclusivo onde será cada vez mais caro entrar, à medida que o desporto valoriza. Assim, com uma nova era a começar, com uma abordagem muito mais positiva e com os fãs a começarem a voltar a interessar-se de forma séria pela F1, este é o melhor momento para investir. E o que a Andretti está a fazer é inteligente. Compram uma estrutura já estabelecida, com créditos firmados e já com uma excelente base (quer pela experiência, quer pelas infraestruturas), entra numa competição onde a grande maioria das equipas poderá ter possibilidade de vencer corridas a médio prazo e a longo prazo todas poderão ter pelo menos uma palavra a dizer na luta pelo título e sabe que no futuro este investimento tem tendência a valorizar. Como esta via de comprar equipas será sempre a mais apelativa para garantir retorno a curto/médio prazo, quem quiser comprar uma equipa no futuro terá de gastar muito mais. Não se sabe ao certo quanto custa uma equipa de F1, pois esse valor depende de vários fatores, mas o preço rondará os 300 milhões. Se a F1 continuar a evoluir a este ritmo, será muito complicado comprar uma equipa por menos do dobro desse valor, esperando-se que a valorização das equipas e do campeonato as torne em estruturas com o valor a chegar aos mil milhões. A Andretti compra para aumentar o seu portfolio, para mostrar que os americanos também podem ter sucesso na F1, fazendo um investimento a longo prazo. Quando sair da F1, quem quiser ficar com a sua equipa terá de pagar muito mais do que vai pagar agora. 

Isto é um sinal claro que a F1 percorre os caminhos indicados para o sucesso. Tem tudo bem alinhavado para que isso aconteça, faltando apenas um “pormenor”. A sua posição no futuro. Continuará a F1 a ser um laboratório de tecnologia para o futuro, ou começará a cair para a vertente do entretenimento puro. Conseguirá a F1 manter-se relevante na aplicação de novas soluções mais sustentáveis, mantendo a mesma filosofia? É esse o grande ponto de interrogação neste momento. Se as respostas forem encontradas e forem interessantes para marcas, equipas, mantendo os fãs satisfeitos, podemos estar a caminhar para uma nova era dourada.

Fábio Mendes

Fábio Mendes

Em 2013 criei um blog com um grupo de amigos, que me abriu as portas para o fantástico mundo do motorsport e do AutoSport, onde escrevo desde 2017.

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