Começa a ser um clássico em Red Bull Ring. Os limites de pista tornam-se no centro das atenções e a respetiva aplicação de penalizações estraga o espetáculo, que na pista austríaca costuma ser de qualidade. Este ano voltamos a ter polémica, com um tema que continua a ser delicado e de resolução aparentemente difícil.
Os limites de pista são um tema capaz de fazer arrepiar os fãs da F1. O que deveria ser simples, acaba por se tornar complicado… não fosse isto a F1. Durante algum tempo a postura da FIA era flexível. Demasiado até. Os limites de pista mudavam de pista para pista e, não poucas vezes, de dia para dia. Ora um desporto, seja ele qual for, não pode mudar de regras de um dia para o outro, correndo o risco de se ouvirem acusações de favorecimento de uns em detrimento de outros. Mais ainda, é necessário estabilidade, pois as mudanças constantes por vezes surpreendem os mais distraídos, que se vão queixar que as regras não eram assim antes e que ninguém os avisou. É o equivalente a mudar as regras do fora de jogo no futebol de jogo para jogo.
Nos últimos anos, a FIA tem adotado uma postura mais assertiva, especialmente com a entrada de Niels Wittich e de Eduardo Freitas. As regras são claras, as linhas brancas que delimitam a pista, são os limites e se os carros passaram para lá desse limite têm de ser advertidos ou penalizados. A postura foi inicialmente elogiada, pois finalmente chegou à consistência que se pretendia nesta regra. Mas a sua aplicação revelou-se mais difícil.
O exemplo da Áustria é sintomático. Mais de 1200 casos de abuso de limite de pista foram reportados e mais de 100 voltas apagadas. Um exagero, exacerbado pelo protesto da Aston Martin, que levou a FIA a aplicar ainda mais penalizações com Esteban Ocon a chegar ao absurdo de 30 segundos de penalização por essa infração (feita de forma repetida). E, mais uma vez, a F1 pecou, pois o resultado final sofreu alterações, o que estraga o espetáculo.
Então o que fazer? Não haver limites de pista? Mudar a aproximação? Ou manter? Deixar de aplicar limites de pista parece ser a solução menos interessante. São os limites de pista que fazem a diferença entre os bons e os muito bons. Sem isso, um piloto com menos talento pode tentar travar mais tarde, sem ter arte para isso, mas não sendo penalizado, pode ganhar uma vantagem face ao piloto mais talentoso que consegue manter-se nos limites estabelecidos. Manter os limites atuais deveria ser a solução certa e os piloto teriam de se adaptar a esta realidade. É verdade que não é fácil manter o carro nos limites, mas é isso que distingue a qualidade dos pilotos. Mas para termos cenas como as que vimos na Áustria, talvez seja necessário repensar, ou na abordagem à regra, ou na abordagem dos pilotos. Se em vez da linha branca estivesse um muro, ninguém arriscava tanto e o limite estava bem definido.
A mudança de aproximação a esta regra pode passar por duas vias: ou se mudam os traçados e se colocam caixas de gravilha nas zonas mais críticas e isso vai implicar que algumas pistas terão de optar entre a F1 e o MotoGP (pois o MotoGP não quer caixas de gravilha), o que é injusto para uma infraestrutura cujo investimento é de milhões e que perde uma forma de rentabilizar e recuperar o dinheiro investido. Talvez a melhor solução seja um limite de pista com tolerância. Primeiro definir de forma clara o limite. É a linha branca? É o corretor? Idealmente será sempre a linha branca. E depois encontrar forma de distinguir o que é um abuso de limite de pista e o que é uma saída de pista por outros motivos, que não devem ser penalizados. Por fim, encontrar um compromisso que sirva a todos. Aplicação de uma tolerância de alguns centímetros, por exemplo.
Não podemos voltar a ver o que aconteceu em Red Bull Ring. A F1 tem perdido algum gás com o domínio de Max Verstappen. Se este tipo de queixas continuar, alguns dos novos fãs (e até mesmo os mais antigos) poderão perder a vontade de ver. Não faltam outras opções de entretenimento. A FIA tem de estabelecer uma regra bem definida, sem excesso de zelo. Os pilotos têm de a respeitar e aceitar.










