Lewis Hamilton pode ser considerado o melhor piloto de Fórmula 1 de sempre, mas este título está longe de ser consensual entre os fãs do desporto e da classe rainha do automobilismo. Enquanto uns defendem que o britânico tem que assim ser considerado por estar a bater constantemente os recordes do passado, como assistimos no GP de Portugal, quando Hamilton bateu o recorde de 91 vitórias que Michael Schumacher detinha há 14 anos, há outros que não pensam do mesmo modo. O facto de ter passado por poucas equipas e de não ter tido muitos adversários nos últimos tempos são argumentos para estes últimos. Como em tudo na Fórmula 1, este não é um tema unânime, mesmo que o piloto continue a conquistar mais vitórias e títulos.
No Reino Unido, terra natal do piloto da Mercedes, para além deste tema há um outro que tem vindo a ser discutido e que ganhou agora outro fôlego, com a tal 92ª vitória de Lewis Hamilton. Deve ou não Hamilton receber as honras de ser investido cavaleiro do reino?
As Ordens do Império Britânico são ordens de cavalaria que premeiam quem se destaca nas artes, ciências, trabalho em organizações de caridade, entre outras áreas. Foi o Rei Jorge V quem instaurou as ordens de cavalaria e neste momento estas dividem-se em 5 classes: GBE (Cruz de Grande Cavaleiro/ Dama); KBE ou DBE (Comandante Cavaleiro/Dama); CBE (Comandante); OBE (Oficial); MBE (Membro).
Apresentando o resultado final de um questionário efetuado, o site yougov.co.uk traz alguma luz sobre o pensamento generalizado dos britânicos acerca deste assunto. “Dizem-nos” os resultados que a maioria, mais propriamente 46% dos inquiridos, acha que Hamilton não deve ser nomeado cavaleiro. Já 21% responderam de forma positiva, uma taxa menor que aqueles que responderam “Não sei” (33%).

Os resultados foram apresentados no dia 29 de Outubro passado, não sabemos quando terá sido efetuado o inquérito, mas sabemos que responderam 3067 adultos à pergunta. Mais interessante, é esmiuçar os resultados e perceber que a maioria dos inquiridos que responderam que o piloto não merece o título, identificam-se com o partido Conservador, enquanto na resposta contrária a maioria das respostas advém de adultos Trabalhistas.
Em relação à idade e a sua resposta, as diferenças são mais ténues, embora a faixa etária dos 50 aos 65 anos é a que tem mais respostas negativas à pergunta. No campo oposto estão os inquiridos na faixa etária dos 25 aos 49 anos. Para além dos resultados, foram alguns os comentários no Twitter que diziam que piloto de Fórmula 1 não é um desportista, isto num pedaço de Terra que tem 10 campeões do Mundo da categoria e quando vemos cada vez mais a exigência física e mental que a F1 tem.
Na mesma altura em que os resultados vieram a público, também David Coulthard defendeu o seu compatriota. O antigo piloto disse ao The Sun a 26 de Outubro deste ano, que Hamilton é um “embaixador global da Grã-Bretanha”. Para além disso, o escocês perguntou se alguém sabe se Hamilton fez algo que vá contra os regulamentos que permitem nomear um britânico como cavaleiro. Na opinião de Coulthard, outras personalidades receberam tal título e não o mereceram tanto como merece Lewis Hamilton.
A verdade é que Lewis Hamilton é um símbolo do Reino Unido, com todas as vitórias que conseguiu, para além de que o título de cavaleiro do Reino é só para quem é excecional e se destaca na sua área. Terá feito Lewis Hamilton o suficiente ser nomeado cavaleiro e ser tratado por Sir? O facto de realmente não ter tido adversários dignos desse nome nos últimos tempos é penalizador para o piloto, que trabalha arduamente para atingir os seus objetivos? Lembramo-nos de quando Hamilton teve uma quebra de rendimento, e até emocional, ao defrontar o seu colega de equipa e rival, Nico Rosberg e de como conseguiu dar a volta.
É ambicioso e tem estado envolvido em campanhas pelos Direitos Humanos e ultimamente é apoiante dos movimentos anti-racistas. Até fora de pista Lewis Hamilton não é consensual. Este ano foi acusado de tentar obrigar os seus colegas de profissão a colocar o joelho no chão em sinal de repúdio pelos episódios de brutalidade policial nos EUA e mais recentemente, já em solo português, lançou críticas à escolha de Vitaly Petrov para comissário do GP, por este ter criticado o envolvimento dos pilotos e a própria organização da Fórmula 1 nas questões do racismo e das desigualdades.
Em Portugal, com o Presidente da República atual tem-nos habituado a ver a figura maior da nação a receber no Palácio de Belém desportistas ou a enviar publicamente a sua admiração por feitos no desporto internacional por portugueses e condecorou recentemente António Félix da Costa com o grau de Comendador da Ordem do Mérito. Mas se esta sondagem acontecesse em Portugal manter-se-iam os resultados do inquérito? Mesmo sendo um país onde o futebol é rei, teria a maioria dificuldades em apoiar um piloto para receber uma condecoração pelo Presidente da República?










