Não há muito tempo a Liberty Media defendia uma abordagem equilibrada para o calendário da F1: novos mercados eram essenciais para o desporto, mas era necessário também manter as pistas com história e com um legado incomparável. Essa estratégia parece estar a chegar ao fim.
Stefano Domenicali, CEO da Fórmula 1, voltou a lançar dúvidas sobre a permanência dos circuitos históricos no calendário, deixando claro que tradição e legado já não são suficientes para garantir continuidade. Em entrevista ao podcast italiano Passa dal BSMT, Domenicali sublinhou que a competição entre promotores é hoje “muito mais agressiva” e que apenas a história não justifica a presença de um Grande Prémio: é necessário assegurar investimento em infraestruturas, serviços para os adeptos e sustentabilidade financeira num mercado global em expansão.
Mudança de rumo
A posição marca uma evolução face ao discurso inicial de Liberty Media, quando assumiu os direitos comerciais da F1 em 2017. Na altura, o então CEO Chase Carey tinha prometido proteger pistas icónicas como Silverstone, Mónaco, Hockenheim ou Nürburgring, em nome da tradição. No entanto, a realidade mostrou-se diferente: Nürburgring desapareceu do calendário regular após 2013, regressando apenas em 2020 devido à pandemia, e Hockenheim não recebe a F1 desde 2019. Já Silverstone soube reinventar-se, transformando o GP britânico num festival de vários dias com música e entretenimento, garantindo contrato de longo prazo. Mónaco, por sua vez, teve de ceder controlo sobre direitos televisivos e publicidade para renovar a sua posição.
Drive to Survive mudou o cenário
A crescente popularidade da F1, impulsionada pela série Drive to Survive, aumentou a procura de novos países por um lugar no calendário, frequentemente apoiados por investimentos governamentais robustos. Essa pressão levou à criação de modelos de rotação — como o de Spa-Francorchamps, que irá receber corridas apenas em anos alternados — e a possibilidade de outros circuitos clássicos seguirem o mesmo caminho. Ao mesmo tempo, mercados emergentes como a Arábia Saudita já manifestaram interesse em organizar mais do que uma prova por temporada.
Cada vez mais pressão nos promotores
Com o limite prático de 24 corridas por ano, imposto pelo desgaste humano e logístico, Domenicali admite que “ninguém está seguro” e que até pistas icónicas terão de provar capacidade de crescimento. “A história é um valor, mas pode ser também uma limitação se não houver condições para expandir”, afirmou, apontando o exemplo de Imola, onde a falta de espaço para novas infraestruturas e hotéis dificulta a sua continuidade.
A mensagem é clara: no atual modelo económico da Fórmula 1, tradição pesa cada vez menos face à capacidade de investimento e adaptação, colocando em risco a sobrevivência de alguns dos traçados mais emblemáticos do desporto.











