F1: A história e os números assombrosos do domínio da unidade motriz híbrida da Mercedes
O fim desta era regulamentar significa também o fim da história de uma unidade motriz que desde 2014 tem dominado a F1. A Mercedes foi a referência desde início desta era “híbrida” e transformou estes 11 anos numa das histórias mais impressionantes da marca e do automobilismo. Uma história que vem desde 2010 e que revela de forma inequívoca a qualidade do trabalho da Mercedes AMG High Performance Powertrain, em Brixworth.
O Início da Revolução (2010–2013)
A história do domínio da Mercedes na era híbrida começou muito antes da primeira corrida de 2014. As conversas iniciais sobre os novos regulamentos entre as equipas de Brackley (chassis) e Brixworth (motores) remontam ao final de 2010. Quando as regras para a nova unidade motriz V6 híbrida foram oficialmente publicadas em meados de 2011, a Mercedes-Benz adotou uma abordagem totalmente integrada, com foco claro na maximização do desempenho global do carro.
Andy Cowell, que assumiu o cargo de Diretor-Geral da Mercedes AMG High Performance Powertrains (HPP) em janeiro de 2013, foi a figura central por trás deste projeto. Sob a sua liderança, a equipa de Brixworth enfrentou um desafio que ele próprio descreveu como “muitas vezes mais difícil do que o desenvolvimento do KERS ou dos motores V8”. Recorde-se que a além de um sistema de recuperação de energia cinética (MGU-K), que era uma evolução do KERS, havia também o MGU-H, que aproveitava a energia térmica desperdiçada, no elemento que se tornou o mais difícil de desenvolver.
A Mercedes aproveitou a sua capacidade de fabrico para realizar mais trabalho de desenvolvimento – tanto em qualidade como em quantidade – do que os seus rivais. A equipa executou dois programas paralelos de desenvolvimento de motores: um focado no desempenho puro e outro na fiabilidade, que convergiram no final do processo para criar a unidade mais potente e duradoura da grelha de 2014.

2014: A Revolução PU106A Hybrid
O Segredo do “Split-Turbo”
A grande inovação que distinguiu a Mercedes foi o design do turbo dividido (split-turbo). Enquanto os turbocompressores convencionais têm a turbina e o compressor montados lado a lado, a Mercedes separou-os:
- Compressor: Montado na parte frontal do motor.
- Turbina: Posicionada na parte traseira.
- MGU-H: Instalado no centro do “V” do motor, entre os dois componentes.
- Ligação: Um veio longo atravessando o motor.
Esta configuração permitiam um melhor arrefecimento, com intercoolers menores, que significavam menos arrasto e sidepods mais compactos, além de redução significativa do turbo lag. A eficiência térmica subiu para os : 44%, um salto enorme face aos 29% dos motores V8 anteriores. Quanto à Potência: 630 kW (840 cv) a 15.000 rpm.
O Mercedes F1 W05 Hybrid estreou-se no GP da Austrália de 2014 com uma vitória de Nico Rosberg por 27 segundos de vantagem. A equipa conquistou 16 vitórias em 19 corridas, 11 dobradinhas e 18 pole positions na temporada inaugural.

Evolução e Supremacia (2015–2021)
A Mercedes não parou. Em 2016, a eficiência térmica da unidade motriz ultrapassou os 47%, e a potência máxima superou a barreira dos 900 cv, igualando os motores V10 de 2005, mas consumindo metade do combustível. Em 2017, num banco de testes, a unidade motriz Mercedes tornou-se a primeira na história a ultrapassar 50% de eficiência térmica.
A partir de 2017, os motores ganharam a designação “EQ Power+”. O período de 2019 a 2021 foi marcado por uma intensa batalha de desenvolvimento com a Ferrari e a Red Bull. Toto Wolff admitiu mais tarde que alguns dos problemas de fiabilidade de 2020 e 2021 resultaram de a equipa ter “esticado demasiado a corda” em 2019 para responder ao aumento de potência da Ferrari. 2021 marcou o fim do reinado indisputado da Mercedes.

O Problema do “Porpoising” (2022) e A Temporada “Em Branco” (2023)
Com os novos regulamentos de efeito de solo, o fenómeno do porpoising causou danos físicos aos motores. Hywel Thomas, que sucedeu a Andy Cowell como Diretor-Geral em 2020, revelou que os motores estavam a “levar uma sova infernal” devido às vibrações extremas. Apesar disso, a fiabilidade manteve-se notável, com apenas duas desistências mecânicas em 2022. Se a Mercedes manteve a competitividade ao nível dos motores, perdeu o norte na era do “efeito solo” e com isso perdeu a vantagem competitiva. Isso ficou claro em 2023. Pela primeira vez desde 2011, a equipa oficial Mercedes terminou uma temporada sem qualquer vitória (zero vitórias) com a Honda a dominar por completo. Foi o ponto mais baixo da era híbrida.

O ressurgimento graças à McLaren
A Mercedes recuperou a forma vencedora em 2024 e 2025, mas a verdadeira história de sucesso foi a McLaren. Equipados com o motor Mercedes, os McLaren de Lando Norris e Oscar Piastri dominaram a temporada de 2025, somando 14 vitórias combinadas, provando que a unidade motriz de Brixworth continuava a ser uma referência, terminando como começou… com vitórias sucessivas e títulos.
Os números das Unidades Motrizes Mercedes
| Piloto | Vitórias (Era Híbrida) | Percentagem (do total de 140) |
|---|---|---|
| Lewis Hamilton | 83 | 59,3% |
| Nico Rosberg | 20 | 14,3% |
| Lando Norris | 11 | 7,9% |
| Valtteri Bottas | 10 | 7,1% |
| Oscar Piastri | 9 | 6,4% |
| George Russell | 5 | 3,6% |
| Daniel Ricciardo | 1 | 0,7% |
| Sergio Pérez | 1 | 0,7% |

Mercedes-AMG Petronas
- Total de Vitórias: 118
- Período de Ouro: Entre 2014 e 2016, a equipa venceu 51 de 59 corridas.
McLaren
- Total de Vitórias (Era Híbrida): 20
- Renascimento (2024-2025): A McLaren tornou-se a principal força motriz do motor Mercedes no final da era, somando 19 vitórias apenas nas temporadas de 2024 e 2025 combinadas, superando a própria equipa de fábrica nestes dois anos.
Racing Point
- Racing Point (2020): A famosa vitória de Sergio Pérez no Sakhir, recuperando de último para primeiro com o “Mercedes Rosa”.
One turbo-hybrid era ends. Another one begins.
Hywel reflects on the past 12 years and looks ahead to 2026 💪 pic.twitter.com/65GK4bsEee
— Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team (@MercedesAMGF1) December 17, 2025
Fim de uma era festejado
A Mercedes assinalou, na sua unidade de Brixworth, no Reino Unido, o encerramento da era dos motores turbo-híbridos da Fórmula 1. A cerimónia decorreu a 16 de dezembro, com a presença do Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team e de numerosos colaboradores ligados ao desenvolvimento das unidades de potência. O piloto de reserva Fred Vesti realizou duas demonstrações ao volante de monolugares emblemáticos: a W05 de 2014, que marcou o início do domínio turbo-híbrido da marca, e a W16 de 2025, último chassis desta geração.
O evento sublinhou um período de sucesso sem precedentes: mais de 250 Grandes Prémios disputados, 140 vitórias, 150 pole positions e quase 400 pódios, resultados alcançados pela equipa oficial e pelos clientes Mercedes.
Some action clips from today’s End of An Era event at HPP 🫶 pic.twitter.com/6dYPEiC7IU
— Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team (@MercedesAMGF1) December 16, 2025
Foram igualmente expostas várias gerações de unidades de potência desenvolvidas em Brixworth, numa homenagem coletiva ao trabalho técnico realizado ao longo de doze temporadas. A celebração marcou simbolicamente a transição para a nova regulamentação de 2026, que dará origem a uma nova filosofia técnica na Fórmula 1.
As unidades híbridas sempre foram mal amadas, pelo seu custo, complexidade, som pouco entusiasmante e exigência. Neste enorme desafio técnico, a Mercedes foi claramente a melhor, ajudando a conquistar 10 títulos de construtores e oito títulos de pilotos.
Engineering excellence. Era-defining. pic.twitter.com/3u2XN0FMdO
— Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team (@MercedesAMGF1) December 16, 2025
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