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Entrevista a Toto Wolff: “A F1 não é só marketing, há transferência de tecnologia para estrada”

José Luis Abreu by José Luis Abreu
7 Junho, 2020
in Autosport Exclusivo, Destaque Homepage, F1, FÓRMULA 1, Newsletter, Newsletter destaque
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Fórmula 1: O que significa a possível saída de Toto Wolff da Mercedes?

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Toto Wolff esteve em conversa com diversos jornalistas, abordando inúmeros assuntos, alguns dos quais deram muitas manchetes, como foi o caso da possível não continuidade da Mercedes na Fórmula 1 ou a ida do austríaco para a Aston Martin. Saiba o que foi dito pelo chefe de equipa da equipa da Brackley sobre os assuntos mais prementes e não só…

Como estão a decorrer as negociações com o Lewis Hamilton?
Toto Wolff: “Não nos vimos (n.d.r.: desde Melbourne) durante o confinamento, estávamos em dois locais diferentes do mundo, mas estivemos sempre em contacto. Muito embora não tenhamos trabalhado no contrato, temos muita confiança um no outro. Trabalhamos juntos há algum tempo e nos últimos anos nunca foi preciso recordarmo-nos o que estava escrito no contracto, tudo surge naturalmente. Quando nos encontrarmos na pista, passaremos algum tempo juntos, analisaremos o antigo contracto e avaliá-lo-emos. Espero que possamos chegar a uma boa solução em breve.”

O Sebastian Vettel é uma possibilidade para a Mercedes?
Toto Wolff: “Não quero colocar de parte o Sebastian, como um tetracampeão, dado que quem sabe o que se passará nos próximos meses? Se vos tivessem dito em Janeiro que não teríamos corridas na primeira metade do ano ninguém acreditaria, portanto, a esse respeito, estamos apenas a manter as nossas opções em aberto.
Não é falar por falar, penso que devemos respeito a um tetracampeão mundial e não lhe dizer ‘não’ de caras. Por outro lado, temos uma dupla de pilotos fantástica e estou muito satisfeito com ambos os nossos pilotos e o George, mas nunca se sabe.
Um deles pode decidir que não pretende correr mais e, subitamente, temos um lugar vago, e é por isto que não queremos em Junho dizer ‘não há hipótese, o Sebastian não correrá connosco’. Não lhe faria isso, como piloto, ser tão frontal, e por outro lado, já vi surpresas acontecer de onde menos se espera. Lembrem-se do Nico Rosberg. A esse respeito, estamos a manter a nossas opções em aberto, mas claro que estamos a concentrar-nos nas discussões com os nossos pilotos actuais.”

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A Mercedes pretende tomar brevemente uma decisão quanto aos seus pilotos para 2021?
Toto Wolff: “Ficámos surpreendidos com estes movimentos precoces, dado que, assim, é preciso iniciar a temporada com um piloto que se sabe sairá mais tarde, portanto, é complicado desenvolver o carro sem que ele faça parte do processo. Todos os pilotos têm de ser jogadores de equipa e isso acaba por se tornar numa prioridade em segunda mão para o piloto relevante.
Queremos ter tempo para decidir. A nossa prioridade é com os pilotos da Mercedes, o Valtteri e o Lewis. O George (Russell) e a Williams é uma decisão que estamos a seguir com interesse. Para além disso, não podemos deixar de considerar qualquer piloto.”

O plano para este ano passa por haver entre 15 e 18 corridas. Acha que isso requer uma preparação atípica e que os títulos deste ano poderão ter um valor diferente?
Toto Wolff: “É um calendário sem precedentes que trará alguns desafios. A confiabilidade será um componente fundamental, especialmente nas primeiras corridas, os carros acabaram de sair dos contentores que os trouxeram da Austrália e não haverá muito tempo para testá-los simuladores. Haverá muito trabalho a ser feito directamente na pista.
Foi uma notícia muito positiva ter um calendário europeu com oito Grandes Prémios, espero que as corridas finais no Oriente Médio sejam confirmadas em breve e, depois, veremos como a situação se desenvolverá nos outros países.”

Nos últimos meses, têm vindo a surgir rumores relacionados com a intenção de a Mercedes abandonar a Fórmula 1. Considera que são especulações ou há um motivo por trás desses rumores?
Toto Wolff: “A impressão é realmente que existe uma espécie de campanha em andamento. É claro que todos os construtores automóveis estão a passar por momentos difíceis com muitos pontos de interrogação. Todos os dias, quando se abre uma revista ou jornal, encontram-se artigos sobre as dificuldades que a Volkswagen, Renault, FIAT ou Daimler têm de enfrentar e entendo que neste contexto, um programa desportivo pode ser questionado.
A direcção executiva da Mercedes vê a Fórmula 1 como uma atividade que é parte integrante da empresa, construímos automóveis para a estrada e carros de competição, e, na realidade, o primeiro carro construído pela Daimler foi um de competição.
O programa de Fórmula 1 não é apenas visto como uma plataforma de marketing que gera valor acrescentado, mas sim como um co-exercício. Há uma transferência de tecnologia entre a Fórmula 1 e a estrada, o que é apreciado por todo o grupo Daimler. É claro que discutimos as nossas atividades e todos os nossos investimentos anualmente, mas voltando à questão, penso apenas que somos um alvo fácil para quem deseja criar títulos e ter mais cliques”.

Quais são os seus planos para a Aston Martin?
Toto Wolff: “Comprei algumas acções da Aston Martin como um investimento financeiro. Acredito na marca, acredito que a estratégia faz sentido. O Tobias Moers (n.d.r.: antigo chefe da Mercedes AMG e o novo CEO da Aston Martin) é um tipo que conheço há muito tempo e acredito que poderá dar a volta ao negócio.
Existe um grupo forte de investidores que estão a apoiar a Aston Martin que não a vão deixar cair e, portanto, decidi fazer parte desse grupo. As minhas funções executivas permanecem inalteradas.
Estou na Mercedes, sou o chefe de equipa e um accionista, e claro que surgiram algumas ondas quando apareceram notícias sobre a Aston Martin, mas estou a planear com a Mercedes e tenho a melhor das intenções de ficar aqui, isso continua na mesma.”

Surgiram rumores quanto à sua saída da Mercedes. É uma possibilidade?
Toto Wolff: “Algo de que me sinto muito orgulhoso nesta equipa é que sempre colocámos membros de topo em diferentes funções, trouxemos novos talentos e o mesmo se aplica a mim. Tive muita sorte em estar ao leme da Mercedes desde o início de 2014, anos que não quereria perder.
Gostei muito da interecção e de trabalhar com todos os meus amigos na equipa de Fórmula 1 e na Daimler e isto é algo que não gostaria de perder. No entanto, preciso de me questionar, não quero tornar-me num chefe de equipa que deixa de ser grande para ser bom sem perceber que já não oferece à equipa tanto como no início.
Ainda sinto que posso oferecer muito, mas claro que estou a contemplar o meu futuro, estou em negociações com o Ola (Kalleniu, o CEO da Daimler) sobre o assunto. Não é um simples contrato de trabalho, envolve também a posse de acções.
Estamos a meio do processo de formar uma união para o futuro, portanto, não me quero comprometer com posições, seja chefe de equipa ou director de gestão. Para ser honesto, ainda não tomei nenhuma decisão, dado que ainda nem sequer começámos a competir.”

Está confiante que na próxima temporada a Mercedes responderá ao desempenho da unidade de potência da Ferrari de 2019?
Toto Wolff: “A Ferrari no ano passado tinha a unidade de potência mais performante, mas este ano ainda não tivemos a possibilidade de nos confrontar. Apena num fim-de-semana de Grande Prémio, ou seja em qualificação e corrida, poderemos ter a percepção do equilíbrio em pista, e como sabem … não sou optimista.
Temos de evoluir, temos de garantir um motor fiável, potente e com boa entrega, e espero que consigamos alcançar nossos objectivos. Mas não quero esquecer a Honda e a Renault, acho que praticamente todos os fornecedores de unidades de potência estão em pé de igualdade.”

As restrições ao desenvolvimento aerodinâmico são o primeiro mecanismo de handicap da história da Fórmula 1. É a favor?
Toto Wolff: “Sou fã de meritocracia: na Fórmula 1, o melhor piloto e o melhor carro vencem. Sempre foi assim, sem mecanismos que distorcem as prestações em pista, como em outros desportos nos quais a necessidade de entretenimento a todo o custo diluiu os valores desportivos. Odeio qualquer tipo de equilíbrio de desempenho, porque se torna num jogo político e um campeonato mundial político não tem nada a ver com a Fórmula 1.
O que foi introduzido com o novo regulamento é a possibilidade de as equipas mais pequenas voltarem gradualmente a aproximarem-se das equipas maiores, em função da escala de desenvolvimento que têm disponível.
São pequenas percentagens que variam de ano para ano, por isso, não fará grande diferença no curto prazo, mas equilibrará o plantel ao longo dos anos. É um mecanismo gradual, não um corte radical! Já as grelhas invertidas são um corte radical.”

Qual o impacto que o Tecto Orçamental terá na Mercedes? Já avaliou programas alternativos, como a IndyCar ou o WEC, como a Ferrari, ou prefere concentrar os esforços numa equipa satélite, usando o modelo Red Bull-AlphaTauri?
Toto Wolff: “Estamos a experimentar uma realidade financeira muito diferente da pré-COVID-19. Aceitamos o ajuste no Tecto Orçamental, porque é essencial que a Fórmula 1 avance para um modelo financeiro sustentável, capaz de gerar lucros e não perdas.
É também uma maneira de garantir que a Daimler aprecie, não apenas os benefícios desportivos e de marketing do programa de Fórmula 1, mas também uma plataforma de custo neutro.
Como equipa, o Tecto Orçamental resultará numa reavaliação total, o que significa mudar a maneira como fazemos as coisas e distribuir funcionários por novas áreas. Temos um departamento muito forte chamado Mercedes Benz Applied Science, onde trabalhamos para clientes de alta performance e disponibilizamos os nossos serviços. Quem sabe, talvez possamos avaliar outras categorias para manter os recursos e a propriedade intelectual da Daimler e Mercedes, mas é ainda muito cedo para confirmar.”

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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