Com três edições realizadas, o Grande Prémio de Las Vegas começa a enfrentar o desafio da consolidação. Apesar dos números vistosos e do impacto mediático, persiste a perceção de que o evento demora a conquistar os adeptos mais tradicionais da modalidade.
A aposta da Fórmula 1 em Las Vegas inscreveu-se na tendência global para os circuitos citadinos, procurando aproximar o espetáculo automobilístico dos fãs e despertar o interesse de novos públicos. O regresso ao Nevada materializou-se como uma etapa emblemática, não só por se tratar do terceiro evento anual em solo americano — território prioritário para a Liberty Media — mas também por ser o primeiro GP organizado diretamente pela própria F1. Porém, até agora, o evento tarda em afirmar-se de forma perene no seio da comunidade F1.

Um percurso atribulado
A primeira presença da Fórmula 1 em Las Vegas remonta a 1981 e 1982, com o Caesars Palace Grand Prix. As provas disputaram-se num circuito improvisado no parque de estacionamento do hotel Caesars Palace, sendo amplamente consideradas irrelevantes devido ao traçado pouco inspirado e à fraca adesão do público. Após dois anos, a corrida foi retirada do calendário, não deixando marca duradoura na história do mundial.
Em 2023, o regresso deu-se através do Las Vegas Strip Circuit, um traçado urbano desenhado para percorrer pontos icónicos da cidade. O envolvimento direto da F1 na gestão e construção das infraestruturas, além da organização do evento, reflete uma estratégia ambiciosa para conquistar o público norte-americano e promover uma experiência festiva e inédita.

Investimento de dimensão inédita
O investimento associado ao evento bateu todos os recordes: a Liberty Media adquiriu cerca de 158 mil metros quadrados de terreno na zona do circuito, por aproximadamente 240 milhões de dólares, para erguer o paddock e as infraestruturas de apoio. Os custos totais de construção e promoção do recinto atingiram os 400 a 480 milhões de dólares, aproximando-se, em 2023, de um investimento global na ordem dos 500 milhões. É um dos maiores desembolsos alguma vez realizados em circuitos urbanos pela F1.
A repercussão económica foi igualmente significativa: estima-se que a prova tenha gerado 1,5 mil milhões de dólares no primeiro ano (incluindo efeitos de construção) e 934 milhões de dólares em 2024, com receitas diretas, impostos e fluxos turísticos.
Críticas desde o regresso
A primeira edição da nova era de Las Vegas contou com uma cobertura mediática sem precedentes e forte investimento promocional. No entanto, surgiram críticas centradas no excesso de espetáculo em detrimento do valor desportivo, na qualidade do asfalto e na organização, para além dos preços elevados dos bilhetes. Max Verstappen venceu a corrida inaugural deste formato, numa prova marcada por episódios controversos. Desde o problema com as tampas de esgoto, ao adiamento de um treino, com muitos fãs a verem as suas expetativas defraudadas. O primeiro ano não foi positivo.
O evento consolidou-se no calendário, mas persistiram críticas, sobretudo quanto à qualidade do piso, à segurança e à desafiante posição no calendário, que obriga equipas e pilotos a deslocações consideráveis. George Russell triunfou na edição seguinte.

Ao terceiro ano, o evento voltou a suscitar dúvidas. O problema do asfalto mantém-se na ordem do dia e Fernando Alonso sintetizou a inquietação:
“O tipo de asfalto não cumpre os padrões da Fórmula 1. É excessivamente escorregadio, dificulta o aquecimento dos pneus e carece de aderência. Além disso, o circuito é extremamente irregular, quase perigoso para as corridas. É preciso debater com a FIA se isto é aceitável.”
A falta de entusiasmo estende-se aos pilotos mais jovens, como Oliver Bearman, que referiu:
“Fiquei surpreendido com o baixo nível de aderência. Foi uma sessão desafiante, com chuva, tráfego e interrupções, mas aprendemos muito. É claramente o circuito citadino menos divertido onde competi, pela combinação de pouca aderência e paredes próximas. O traçado tem carisma, mas há pouco de positivo a destacar.”
O alinhamento do calendário também é criticado, como sublinhou Carlos Sainz:
“Para mim, devia ser em sequência com o Brasil. Assim evitaríamos deslocações para a Europa e novo regresso a Las Vegas. Poderíamos seguir diretamente para Vegas, com uma semana de intervalo, e terminar a época no Médio Oriente.”

Entre elogios e reservas
Em 2024, Helmut Marko resumiu o sentimento dos céticos:
“Não estou particularmente entusiasmado com a corrida em Las Vegas. A organização deixou a desejar e o público local parece pouco interessado.”
Por outro lado, há vozes positivas. Charles Leclerc salientou:
“Gosto realmente desta corrida; está entre as minhas favoritas. É um circuito propício a ultrapassagens, o que é raro em pistas urbanas.”
Este ano, Laurent Mekies constatou a evolução do evento:
“Cada corrida em Vegas supera a anterior. Nota-se que a Fórmula 1 abraçou verdadeiramente Las Vegas, pelo crescente número de adeptos e o ambiente vibrante no paddock.”
Apesar do entusiasmo fora da pista, a emoção parece diluir-se durante as corridas. O traçado permite ultrapassagens, mas falta-lhe envolvência. Ao contrário de Baku — que rapidamente conquistou boas corridas e a preferência dos fãs —, Las Vegas carece ainda de identidade desportiva.
A razão deste fenómeno não é clara. No entanto, devido ao investimento avultado, a corrida dificilmente sairá do calendário a curto prazo. Resta à Fórmula 1 encontrar a solução para transformar Las Vegas num evento realmente apreciado por adeptos de todo o mundo.
Fotos: Philippe Nanchino /MPSA









