Há páginas no desporto automóvel que desafiam o tempo, gravando-se a ferro e fogo na memória coletiva dos adeptos. Outubro de 2004 trouxe ao pó e às vinhas alentejanas da Baja Anta da Serra 500/Portalegre um nome mítico dos ralis mundiais: Colin McRae.

Aos 36 anos, o inconfundível e saudoso piloto escocês, conhecido tanto pelo seu talento excecional quanto pelo trato difícil, encontrou nas longas e exigentes pistas alentejanas o palco perfeito para rubricar mais uma exibição de puro virtuosismo. Ao volante de uma estreante Nissan Pick Up oficial, McRae não se limitou a vencer na sua primeira participação na mítica prova do Clube Aventura; impôs um ritmo avassalador que remeteu a elite nacional a um papel secundário.
O duelo de gerações e a garra nacional
A oposição foi encabeçada por Carlos Sousa, que regressava aos comandos de uma Strakar e ao ativo após meses de paragem. Mesmo forçado a render-se ao ritmo avassalador do escocês — que rubricou uma margem final de quase seis minutos após um contratempo inicial na assistência —, o piloto português nunca baixou os braços.
Como o próprio reconheceu no final, em discurso direto, “quando um piloto marca o ritmo, ou se baixa os braços ou se acompanha. Eu nunca baixei os braços, utilizando o carro com que ganhei a Taça do Mundo em 2003… O Colin fez realmente toda a diferença.”
A redenção e o sabor do título absoluto
Enquanto a luta pela vitória à geral teve um dominador estrangeiro, o campeonato nacional viveu contornos de pura emoção. Um ano após ter perdido o ceptro de forma dramática, Rui Sousa viu o destino sorrir-lhe ao conquistar o seu primeiro título absoluto na disciplina. Navegado por Carlos Silva, o piloto do Carregado adotou uma rigorosa estratégia de gestão que deu frutos. Aliviado com o desfecho, Rui Sousa confessou no final: “O Carlos Silva foi mais uma vez importantíssimo, pois foi ele que quase me obrigou a adotar um ritmo de gestão, algo em que sou muito mau (…) Fomos os mais rápidos! Foi uma pequena vingança sobre o que me aconteceu aqui no ano passado.”
Com o triunfo na marca e a consagração de novos campeões, Portalegre fechou as contas de uma época inesquecível, provando que o pó do Alentejo guarda histórias eternas de coragem, engenho e paixão pelas quatro rodas. Já lá vão 22 anos…









