David Richards alerta para o risco de isolamento do WRC e propõe maior presença urbana
para chegar a novos públicos e jogos online para atrair jovens
David Richards defende que o Campeonato do Mundo de Ralis precisa de sair das florestas e aproximar-se das cidades para reconquistar o público, os media e as cadeias de televisão.
Em declarações ao Dirtfish, o dirigente critica a estratégia de vender subscrições apenas a adeptos já convertidos e propõe percursos mais lineares, controlos horários em centros urbanos e maior investimento em conteúdos digitais e televisivos para renovar a audiência do WRC.
David Richards prestou recentemente declarações ao Dirtfish, disse várias coisas interessantes, entre elas que “o principal desafio de Éric Boullier, enquanto responsável do promotor, é reconquistar os meios de comunicação social e as cadeias de televisão de todo o mundo.”
Segundo o dirigente, o erro da Red Bull nos últimos anos foi “dirigir-se apenas ao público já convertido aos ralis. Vender subscrições a quem já gosta da modalidade pode funcionar, mas levará, na sua opinião, a um mercado cada vez mais reduzido.”
Para Richards, é necessário abrir o WRC ao público em geral e aproximar a competição das pessoas, em vez de a manter isolada nas florestas. Uma das propostas que pretende apresentar passa pelo regresso a percursos mais lineares, com controlos horários no centro das cidades e maior contacto com o público.
Defende ainda que o rali é a forma de desporto motorizado mais espetacular, mas que atualmente tem pouca visibilidade. Para reverter essa tendência, considera necessário investimento na disponibilização de conteúdos online e nas televisões, de modo a reconstruir a audiência.
Richards acrescentou que a atenção deve também recair sobre a próxima geração de adeptos, no âmbito de um plano mais vasto da WRC Promoter. Para captar os jovens, refere a importância dos videojogos, que já tiveram grande popularidade, e revela uma ideia que tentou implementar há 20 anos, mas que então não era tecnicamente viável: a participação virtual em tempo real nos eventos.
David Richards toca num ponto crítico da sustentabilidade e crescimento do desporto motorizado: a necessidade imperativa de o desporto ir ao encontro do público em vez de esperar que as novas gerações se desloquem a autódromos isolados ou a florestas remotas.
Ao longo da história — e com maior intensidade nos últimos anos —, várias modalidades tentaram rasgar a bolha do público tradicional através de conceitos “fora da caixa”, levando a cabo vários eventos que colocam os carros onde muito público pode vê-los, no meio de grandes metrópoles, estádios e centros históricos, mas este é um tipo de situação que não é nada fácil levar a cabo, porque nem todos adinam pelo mesmo diapasão, organizadores, equipas e pilotos. Querem um exemplo: Num rali do Campeonato de Portugal há uma organização que levou os carros a um local muito turístico e histórico da cidade, e a maioria dos pilotos queixou-se da distância percorrida para o fazer.
Isto para dizer que nunca é fácil alinhar vontades, e a maioria olha sempre primeiro para o seu umbigo e menos para o bem geral…
Ralis e WRC: do meio da floresta para o coração das cidades
O Campeonato do Mundo de Ralis (WRC) foi, historicamente, a modalidade que mais sofreu com o isolamento geográfico. Para combater isso, surgiram as Super Especiais e os arranques cerimoniais citadinos:
O Rali de Portugal até combateu mais ou menos bem essa situação com super especiais em Lisboa, a Super Especial na Praça do Império em Belém (Lisboa), no coração do Porto, na Foz do Douro e na baixa do Porto, em Braga, no Estádio Algarve, mais recentemente com a festa anual em Coimbra, com a Cerimónia de Partida.
Muitas boas ideias foram feitas noutros ralis como o Castelo de Praga e Zócalo, na Cidade do México: na edição inaugural do Rali da Europa Central, o arranque cerimonial e a primeira classificativa tiveram como cenário o centro histórico de Praga e a praça do Castelo. No Rali do México, a especial de abertura chegou a ser montada na imensa praça do Zócalo, no coração da Cidade do México (famosa pelo filme de James Bond), levando a ação a dezenas de milhares de pessoas que nunca tinham visto um carro de ralis ao vivo.
Estádio Olímpico de Atenas e Praça Syntagma (Rali da Acrópole): Na Grécia, o WRC montou troços paralelos espetaculares no interior do Estádio Olímpico de Atenas (com bancadas esgotadas) e no centro administrativo da capital, junto ao Parlamento.
Harju em Jyväskylä (Finlândia): O Rali da Finlândia mantém a mítica classificativa de Harju, desenhada num parque urbano e nas ruas do centro da cidade de Jyväskylä, aproximando a festa dos ralis dos habitantes locais.
Mas os ralis do WRC nunca poderão andar muito pelas grandes cidades, porque os troços estão a muitas dezenas ou mesmo centenas de quilómetros. Por isso o que o ACP fez em 2011 e 2012 com a super especial de Lisboa e depois a caravana rumou toda a Sul, pode voltar a fazer sentido “noutras vidas”.
Fórmula E: O modelo de negócio construído 100% no tecido urbano
A Fórmula E nasceu integralmente com a premissa referida por David Richards: se o público jovem não vai ao circuito, o circuito vai até ao público.
Ao competir exclusivamente em circuitos de rua em grandes capitais do mundo — como Londres (Excel), Tóquio, Berlim (Tempelhof), Paris, Nova Iorque, São Paulo e Roma —, o campeonato garante acesso por transportes públicos e atrai famílias, curiosos e entusiastas da tecnologia que dificilmente iriam a uma pista tradicional
Fórmula 1: Showruns nas ruas e a vaga de circuitos citadinos
A Fórmula 1 percebeu que as corridas em pistas permanentes longe dos centros urbanos limitavam a expansão da marca e apostou fortemente em duas frentes:
F1 Live e Red Bull Showruns: Eventos onde monolugares de F1 fazem demonstrações, donuts e acelerações no meio de artérias urbanas de grande tráfego. Exemplos marcantes, que já passaram pela Avenida da Liberdade em Lisboa, pela Praça do Império/Belém com o Red Bull Showrun, incluem o F1 Live London (com carros na Regent Street e Trafalgar Square), em Madrid, em Joanesburgo ou em Tóquio, onde milhares de pessoas assistem gratuitamente a escassos metros dos carros.
Grandes Prémios em Destinos Turísticos/Citadinos: A transição para locais como a Las Vegas Strip, o circuito noturno de Singapura, Miami (ao redor do Hard Rock Stadium) e a recente prova em Madrid reflete a ambição comercial de transformar a corrida num festival urbano.
Rali Dakar e Todo-o-Terreno: O contraste da partida na capital
Embora o Dakar e os ralis maratona ocorram nos desertos e zonas inóspitas, as organizações sempre entenderam o poder simbólico de começar no meio da civilização:
Paris (Trocadéro / Torre Eiffel): Durante décadas, a imagem de marca do Paris-Dakar era a partida cerimonial aos pés da Torre Eiffel, atraindo multidões no centro da capital francesa antes de rumarem a África.
Buenos Aires e Lima: Na fase sul-americana do Dakar, a partida no Obelisco de Buenos Aires ou nas praias de Lima juntou centenas de milhares de espetadores no centro das cidades, criando um dos maiores focos de atração de público da história do todo-o-terreno.
Estádios e Circuitos Citadinos Históricos
Race of Champions (ROC): Criado por Michèle Mouton e Fredrik Johnson, o conceito levou pilotos de F1, WRC, NASCAR e Le Mans a enfrentarem-se em pistas de pavimento temporário dentro de estádios icónicos: Stade de France (Paris), Estádio de Wembley (Londres), Ninho de Pássaro (Pequim) e Marlins Park (Miami).
Vila Real e Boavista (Portugal): No panorama dos carros de turismo (WTCC/TCR), circuitos como o de Vila Real ou o da Boavista levaram corridas internacionais de topo ao meio das casas, varandas e avenidas de cidades, criando uma ligação comunitária imediata que nunca existirá nos autódromos convencionais. Claro que há outos exemplos, com Pau, em França. Para não falar do histórico Grande Prémio de Macau.
A perspetiva de David Richards sublinha que, embora a essência técnica das modalidades deva ser preservada, o desporto motorizado precisa de multiplicar estes pontos de contacto de alto impacto e acesso simplificado se quiser renovar a sua base de adeptos.
Que conclusões se podem tirar…
A posição de David Richards coloca no centro do debate uma questão que atravessa todo o desporto motorizado: como preservar a identidade técnica de cada modalidade sem a afastar de quem a pode seguir. No caso dos ralis, a dificuldade é evidente, já que os troços cronometrados se situam frequentemente a dezenas ou centenas de quilómetros dos grandes centros urbanos.
Ainda assim, a história recente mostra que existem caminhos possíveis. As super especiais em Lisboa, Porto, Braga ou Coimbra, os arranques cerimoniais em Praga, Cidade do México ou Atenas, os showruns de Fórmula 1 e o modelo urbano da Fórmula E demonstram que o contacto direto com o público pode gerar visibilidade e novos adeptos.
O desafio, como sublinha Richards, não é apenas organizar um evento pontual num cenário apelativo, mas criar uma estratégia consistente de comunicação, conteúdos e presença pública. Para o WRC, a questão deixou de ser apenas encontrar novos mercados: passa por voltar a tornar o rali visível para quem ainda não o conhece.
FOTO Facebook/Prodrive









