A questão das ordens de equipa vai começar a ganhar relevo no lado da Mercedes, com a luta pelo título ainda em aberto. Kimi Antonelli lidera, mas George Russell tem ainda tempo para se aproximar do colega de equipa. Como tal, a Mercedes terá de gerir a situação com pinças.
O primeiro vislumbre de uma ordem de equipa por parte da Mercedes surgiu no GP dos Países Baixos. Sob um virtual safety car provocado pelo Haas imobilizado de Esteban Ocon, a Mercedes optou por chamar Kimi Antonelli às boxes quando este ocupava a segunda posição em Zandvoort, com Russell a subir a esse lugar enquanto o italiano se posicionava atrás, já com pneus mais frescos.
Pouco depois do reinício da corrida, foi pedido a Russell que cedesse a posição a Antonelli, permitindo-lhe recuperar o segundo lugar e tentar perseguir o líder Lando Norris na luta pela vitória, pedido prontamente aceite. Russell envolveu-se depois numa disputa intensa com os Ferrari pela terceira posição, conseguindo manter-se no pódio, com a ajuda de um novo virtual safety car tardio, mas caiu para 59 pontos de distância de Antonelli, o que anulou praticamente os três pontos que tinha recuperado com a vitória na corrida sprint, deixando-o com a mesma diferença de pontos face ao italiano que tinha antes do início do fim de semana.
Ao refletir sobre esta ordem de equipa, o diretor-adjunto Bradley Lord explicou que uma reunião de equipa antes da corrida já tinha deixado claro que uma decisão deste tipo poderia ser tomada, sublinhando que a “prioridade” era dar ao carro que liderava nesse dia, Antonelli, a possibilidade de vencer a corrida. Questionado sobre se havia alguma preocupação quanto à reação de Russell à ordem, Lord foi direto: “não.” O responsável explicou o contexto em que o debriefing completo foi realizado: “devido à bandeira vermelha antecipada e ao horário atrasado, fizemos o debriefing completo na segunda-feira, em vez de imediatamente após a corrida. O George questionou naturalmente a instrução quando a recebeu pela primeira vez, mas compreendeu o quadro mais amplo.”
Lord detalhou ainda a lógica por trás da decisão: “o Kimi tinha aproveitado a oportunidade de fazer uma paragem gratuita sob o virtual safety car. Se o George tivesse feito a mesma paragem, teria caído para trás de um Ferrari e perdido a posição de pódio. Também tínhamos deixado muito claro, na reunião de estratégia de domingo de manhã, que o pelotão estava demasiado junto para os nossos pilotos perderem tempo a lutar um contra o outro. Essa discussão serviu de base para a decisão.” O diretor-adjunto sublinhou que a equipa teria agido da mesma forma independentemente de qual dos pilotos estivesse em cada posição: “se as circunstâncias tivessem sido invertidas, teríamos agido exatamente da mesma maneira. A prioridade era dar ao carro em segundo a melhor hipótese de atacar, ao mesmo tempo que dávamos ao carro em terceiro ar limpo e a melhor oportunidade de defender a sua posição.”
O diretor de engenharia de pista, Andrew Shovlin, respondeu depois à questão de saber se tinha sido considerada a possibilidade de Antonelli recuar, uma vez tornado claro que não alcançaria Norris, para dar a Russell acesso ao modo de ultrapassagem, na defesa face aos Ferrari de Lewis Hamilton e Charles Leclerc na luta pelo terceiro lugar. “Discutimos essa opção. O ganho era de cerca de duas décimas de segundo, principalmente na reta, que era também onde o George estava mais vulnerável”, afirmou Shovlin. O responsável explicou a cautela da equipa perante essa alternativa: “havia a preocupação de que tentar algo que não tínhamos ensaiado. Como o ganho de tempo por volta não era enorme, decidimos que era melhor o Kimi passar para a frente de forma limpa e dar ao George ar limpo para a melhor saída de curva e travagem possíveis.”
Shovlin destacou ainda a dificuldade específica destes carros em situações de perseguição próxima: “com estes carros, não se pode seguir com uma diferença de duas décimas. A melhor hipótese da Ferrari era ganhar impulso a partir da última curva ou atacar muito tarde sob travagem. A defesa do George foi impressionante.” O responsável reconheceu ainda a dificuldade do desafio enfrentado por Russell: “provavelmente não lhe teriam dado nem 50 por cento de hipótese de manter os dois Ferrari atrás; o virtual safety car ajudou a esfriar a situação durante uma ou duas voltas e permitiu-lhe gerir a energia, mas ele executou a defesa de forma soberba.”
Resta saber se a Mercedes ser confrontada com a tal “situação invertida” em que Russell está à frente e Antonelli segue atrás seguirá a mesma filosofia. Russell é inteligente e saberá colocar-se numa posição em que possa ser ele o beneficiado. Aí, a equipa terá de manter a igualdade de tratamento, ou apostar em Antonelli, declarando assim a sua prioridade, numa segunda metade de temporada em que a Mercedes permanece preocupada com o ritmo de evolução da concorrência.











