A nona etapa do Campeonato do Mundo de Ralis, o ueno Rally del Paraguay, transformou-se numa das provas mais brutais, caóticas e imprevisíveis da história recente da modalidade, batendo recordes absolutos com impressionantes 27 furos registados num único dia e uma vaga devastadora de incidentes mecânicos e saídas de estrada.
Sami Pajari (Toyota GR Yaris Rally1) vence pela terceira vez consecutiva no WRC ao triunfar no Rali do Paraguai, e faz história, já que nunca um piloto que se estreou a vencer no WRC, triunfou três veses seguidas nesse ano. Foi uma prova que apanhou de surpresa grande parte da caravana, que no primeiro dia de rali sofreu quase três dezenas de furos, que baralhou por completo o escalonamento mais ou menos habitual das provas do WRC. Com o atraso de vários favoritos e o surgimento de outros protagonistas, a prova sul-americana foi bem mais complicada, e muito menos previsível do que há um ano.
Desta forma, e com os atrasos iniciais de Takamoto Katsuta (Toyota GR Yaris Rally1), Sébastien Ogier (Toyota GR Yaris Rally1) e Thierry Neuville (Hyundai i20 N Rally1) que tiveram de abandonar a prova ainda na 6ª feira, juntaram-se ainda atrasos menos significativos de Oliver Solberg (Toyota GR Yaris Rally1) e Adrien Fourmaux (Hyundai i20 N Rally1), deixando Sami Pajari, que também teve a sua dose de atraso, com um pneu delaminado na PEC3,na frente do rali, oportunidade que não enjeitou, levando o carro até ao fim na frente.
Hayden Paddon (Hyundai i20 N Rally1), foi segundo e outro dos que aproveitou bem os problemas à sua volta. Fixou-se no segundo lugar e sem forma de atacar a vitória, manteve um bom ritmo, e terminou o rali em segundo, a sua melhor classificação desde o Rali da Austrália de 2018 e o segundo pódio do ano depois do terceiro lugar na Croácia.
Adrien Fourmaux (Hyundai i20 N Rally1) bem persegue uma vitória, mas ainda não foi desta, embora tenha feito o suficiente para recuperar quase um minuto a Elfyn Evans e com isso chegar a mais um pódio, o terceiro deste ano.
Elfyn Evans (Toyota GR Yaris Rally1) foi quarto e fez uma boa operação de campeonato. Quando percebeu que os seus principais adversários, exceto Pajari, se foram atrasando, manteve-se longe as armadilhas, foi cedendo tempo, perdeu o terceiro lugar para Fourmaux, mas só perdeu pontos relevantes nesta prova, para Pajari (CONFIRMAR NO FIM)
Oliver Solberg (Toyota GR Yaris Rally1) foi quinto depois de perder mais de quatro minutos na PEC3, com problemas mecânicos, tendo terminado na melhor classificação que lhe era possível face às circunstâncias.
Dois furos e uma saída de estrada não permitiram a Joshua McErlean (Ford Puma Rally1) fazer melhor que o sexto posto, Jon Armstrong (Ford Puma Rally1), perdeu muito tempo na PEC3, manteve-se em prova até desistir no último dia depois de um toque em que danificou a suspensão traseira.
Depois dos abandono no primeiro dia Sébastien Ogier (Toyota GR Yaris Rally1) e Thierry Neuville (Hyundai i20 N Rally1) lutaram pela primazia no super-domingo, que terminou favorável ao francês, ainda que empatado com Oliver Solberg, enquanto Takamoto Katsuta, que começou o rali com um acidente, terminou-o com outro levando ao cancelamento da penúltima especial.
No WRC2, Diego Dominguez teve um desempenho notável para garantir sua primeira vitória nesta categoria, e logo em casa.
Com estes resultados, Elfyn Evans soma agora 216 pontos, mais 20 que Sami Pajari, com Oliver Solberg com 175, menos 21 que Pajari. Takamoto Katsuta atrasou-se, soma 160, Adrien fourmaux tem agora 149, mais um que Sébastien Ogier. O título deverá ser discutido entre Evans e Pajari, e com o balanço que leva o finlandês, Evans arrisca-se a perder mais esta oportunidade. Faltam três ralis, em qualquer deles a ordem na estrada fará diferença para os primeiros, a não ser que surja a chuva. Por isso vamos ver.

Os destaques
Sami Pajari rubricou uma exibição de enorme inteligência e regularidade, navegando com mestria pelo meio do “Apocalipse” para herdar a liderança e isolar-se rumo à sua terceira vitória consecutiva no WRC. Hayden Paddon também brilhou intensamente ao regressar aos pódios e liderar o rali pela primeira vez desde 2018, ao passo que Adrien Fourmaux protagonizou uma recuperação sensacional na tabela com uma série demolidora de vitórias em troços no sábado, e fez por merecer bem mais desta prova.
Pajari e Paddon consolidaram os lugares de honra aproveitando os azares alheios, enquanto Elfyn Evans perdeu preciosos segundos e a liderança devido a uma delaminação mais tardia. Pilotos como Sébastien Ogier, Thierry Neuville e Takamoto Katsuta perderam todo o terreno logo na manhã inaugural devido a acidentes e desistências madrugadoras.
A liderança trocou de mãos por diversas vezes entre Oliver Solberg, Hayden Paddon, Elfyn Evans e, finalmente, Sami Pajari. No WRC2, Diego Domínguez segurou a liderança caseira sob enorme pressão de Gus Greensmith.
O capotamento madrugador de Katsuta, os sucessivos furos e delaminações em massa dos pneus Hankook — que vitimaram os principais candidatos à vitória —, o braço de suspensão partido de Ogier e a falha mecânica de Solberg baralharam totalmente a hierarquia estabelecida.

O que fez cada piloto
Sami Pajari
Sami Pajari, navegado por Marko Salminen no Toyota GR Yaris Rally1, partiu para o Rali do Paraguai integrado na luta pelas posições de topo, assumindo desde cedo um papel de destaque numa prova marcada por condições extremas.
O rali do piloto finlandês começou de forma cautelosa com um quarto lugar na abertura, mas a vaga de incidentes e furos que dizimou o pelotão permitiu-lhe ascender na hierarquia.
Apesar de ter enfrentado problemas técnicos que o obrigaram a circular em modo de segurança e de um pneu em delaminação, Pajari manteve-se consistente enquanto os rivais caíam. No decorrer do segundo dia, e após uma espetacular reviravolta na frente que incluiu o azar de Elfyn Evans, Pajari assumiu a liderança da prova.
Dobrou a vantagem inicial para mais de vinte segundos, mesmo debatendo-se com um aileron traseiro danificado após embater numa vala e um susto com uma saída de estrada. Na derradeira etapa dominical, e apesar de um susto com uma asa traseira danificada e troços lamacentos, geriu a vantagem com inteligência e maturidade.
O momento decisivo da prova de Pajari ocorreu na sétima especial, quando os problemas de delaminação de Elfyn Evans abriram a porta para que o finlandès assumisse o comando isolado do rali, posição que nunca mais largou até ao fim.
Sami Pajari concluiu o Rali do Paraguai de forma irrepreensível, assegurando a vitória na prova e o terceiro triunfo consecutivo no campeonato do mundo, confirmando o seu estatuto de estrela em ascensão no WRC.
Hayden Paddon
Hayden Paddon, navegado por John Kennard no Hyundai i20 N Rally1, iniciou a nona etapa do WRC — a sua primeira participação no topo da terra desde 2018 — com o objetivo de somar pontos importantes e gerir o ritmo.
O neozelandês arrancou com um sólido terceiro lugar na primeira especial a apenas 4,8 segundos da frente. Beneficiando da vaga de azares, furos e desistências dos principais adversários durante a caótica primeira manhã, Paddon evitou as armadilhas do piso abrasivo e ascendeu ao comando da prova no termo da terceira especial, algo que não sucedia desde 2018.
Ao longo do segundo dia, manteve-se na luta direta pelos lugares cimeiros, cedendo a liderança para Elfyn Evans e depois recuperando o segundo posto da geral, gerindo os pneumáticos e adotando uma toada pragmática perante as alterações meteorológicas. No derradeiro dia, focado em assegurar o pódio, controlou a vantagem face aos perseguidores e resistiu aos troços escorregadios.
A ascensão à liderança na terceira especial, após a penalização e os problemas mecânicos de Oliver Solberg e dos restantes favoritos, marcou o ponto de viragem em que Paddon se firmou como candidato direto à vitória.
Paddon terminou a prova num excelente segundo lugar da geral, coroando um regresso notável aos lugares de honra do WRC e escrevendo mais uma página histórica ao lado de John Kennard.
Adrien Fourmaux
Adrien Fourmaux, acompanhado por Alexandre Coria no Hyundai i20 N Rally1, partiu para o asfalto e terra sul-americanos com ambições elevadas de lutar pelos lugares do pódio. Consegui-o, mas o que fez no sábado merecia o triunfo na prova. que belíssima exibição.
O arranque do piloto francês foi forte, rubricando o segundo melhor tempo logo na abertura, a apenas 3,1 segundos do líder. Contudo, a primeira manhã foi impiedosa: sofreu um furo e uma delaminação grave que o penalizaram fortemente em termos de tempo. Afastado provisoriamente da frente, Fourmaux protagonizou uma espetacular e agressiva recuperação durante a tarde de sábado, acumulando sucessivas vitórias em troços e reduzindo drasticamente a desvantagem para os rivais diretos, nomeadamente Elfyn Evans na luta pelo terceiro lugar. No domingo, continuou a pressionar a fundo, assinando tempos de referência e passou facilmente por Evans, deixado-o a cinco segundos no fim da prova.
A impressionante série de cinco vitórias em troços na secção vespertina de sábado relançou Fourmaux na luta afincada pelo pódio, culminando na redução drástica da diferença para o terceiro classificado para meros segundos à entrada do último dia. No domingo, depressa passou Evans e encerrou o rali com uma prestação de enorme combatividade, colhendo frutos da sua velocidade pura e demonstrando grande resiliência após os percalços iniciais.
Elfyn Evans
Elfyn Evans, aos comandos do Toyota GR Yaris Rally1, iniciou o rali com uma estratégia de gestão de margem e foco nas contas do campeonato do mundo.
O piloto britânico abriu a estrada na primeira especial gerindo o ritmo e evitando riscos desnecessários. Enquanto os principais rivais acumulavam furos e saídas de estrada na caótica manhã inicial, Evans manteve-se longe de problemas maiores, o que lhe permitiu ascender progressivamente na classificação geral até chegar ao comando da prova após o azar de Hayden Paddon na sexta especial.
Contudo, a liderança durou pouco tempo: na sétima especial, problemas de delaminação no pneu traseiro direito obrigaram-no a cumprir quilómetros em ritmo condicionado, perdendo mais de um minuto e caindo para o terceiro posto. No domingo, sob forte pressão de Adrien Fourmaux na luta pelo pódio e de olho nos pontos do quarto posto, Evans adotou uma postura mais cautelosa nos troços lamacentos.
O furo e a subsequente delaminação na sétima especial deitaram por terra a liderança de Evans, forçando-o a uma difícil gestão defensiva da terceira posição face ao ímpeto de Adrien Fourmaux, perdeu-a, mas salvou pontos preciosos para as contas do campeonato, embora tenha visto a sua margem de conforto na tabela ser reduzida pela forte concorrência de Pajari, que se aproximou no campeonato.
Oliver Solberg
Oliver Solberg, ao volante do Toyota GR Yaris Rally1, arrancou para a prova paraguaia com uma exibição demolidora, assumindo de imediato a liderança do rali. Solberg começou da melhor forma ao vencer a primeira especial e estendeu a vantagem no segundo troço com mais um melhor tempo, impondo um ritmo muito forte. No entanto, o cenário alterou-se drasticamente na terceira especial: o motor do seu Yaris parou numa travagem, obrigando-o a recorrer ao auxílio dos espectadores para o empurrar e reiniciar a marcha. Pouco depois, somou um furo lento que lhe custou mais de quatro minutos de atraso, destruindo a vantagem na liderança e relegando-o para fora do top 10 inicial. A partir daí, o jovem piloto iniciou uma prova de recuperação, gerindo os pneus e subindo gradualmente na tabela até alcançar o quinto lugar da geral no fecho de sábado.
A paragem súbita do motor e a necessidade de intervenção externa na terceira especial marcaram o momento de rutura que o demitiu da liderança incontestada da prova.
Solberg completou a prova no quinto lugar da geral, recuperando com maturidade de um incidente madrugador que parecia ter deitado tudo a perder.
Joshua McErlean
Joshua McErlean, aos comandos do Ford Puma Rally1 da M-Sport, partiu para o Rali do Paraguai com o intuito de rodar de forma consistente e capitalizar os erros alheios. O piloto irlandês cumpriu uma primeira etapa marcada pela prudência, registando um ritmo cauteloso na abertura. Beneficiando do elevado número de abandonos e furos que afetou os concorrentes com viaturas oficiais prioritárias, McErlean ascendeu surpreendentemente a um espetacular segundo lugar da geral no termo da primeira manhã caótica. Ao longo do segundo dia, com uma opção de afinação muito macia a pensar na chuva prevista, debateu-se com a gestão do desgaste e perdeu algumas posições face ao avanço dos adversários mais velozes, mantendo-se contudo firme no top 5 da geral e lutando taco a taco com Oliver Solberg.
McErlean garantiu um excelente resultado de conjunto no sexto lugar, embora um pequeno toque na publicidade lateral no derradeiro troço tenha apertado ainda mais a diferença para os perseguidores diretos.
Jon Armstrong
Jon Armstrong estreou-se ao mais alto nível com o Ford Puma Rally1 da M-Sport, enfrentando um dos ralis mais duros e imprevisíveis da época, mas acabou muito mal, com um abandono na PEC20 com a suapensão traseira do Ford muito danificada. O estreante britânico iniciou a prova com um desempenho regular na primeira especial, rodando a cerca de dez segundos da referência. Contudo, o seu rali transformou-se numa verdadeira provação na dramática primeira manhã: furou os dois pneus da frente em simultâneo, perdeu mais de um minuto e meio e, para piorar o cenário, ficou sem travões após embater numa rocha solta e efetuar um pião de 360 graus. Apesar das debilidades técnicas e de continuar a acumular problemas de abrasividade e visibilidade reduzida devido ao cair da noite e nuvens escuras, Armstrong lutou para trazer o carro até ao fim, mas não conseguiu, pois voltou a errar já perto do fim.
Sébastien Ogier
Sébastien Ogier, ao volante do Toyota GR Yaris Rally1, partiu como um dos grandes favoritos à vitória, mas viu a sua prova arruinada por uma sucessão implacável de azares.
O heptacampeão mundial começou a enfrentar problemas logo na abertura ao sofrer um furo lento na traseira esquerda e acumular ruídos anómalos. Na segunda especial, a situação degradou-se catastroficamente: um erro levou-o a embater num talude ao quilómetro um e meio, partindo o braço de suspensão dianteiro esquerdo.
Sem pneus sobresselentes suficientes e obrigado a parar para efetuar trocas numa fase de longas especiais, o francês perdeu mais de cinco minutos, ficando condicionado pelo pó de Adrien Fourmaux que o alcançou na estrada. Face aos danos extensos na estrutura tubular e suspensão, a desistência acabou por se tornar inevitável, obrigando-o a rumar ao regime de Super Rally para a jornada seguinte, onde se focou exclusivamente em rodar forte para conquistar os pontos da Power Stage e do Super Domingo.
Afastado da luta da frente logo na manhã inaugural, Ogier limitou-se a cumprir o resto da prova em regime de Super Rally, recolhendo dados e disputando os pontos atribuídos no derradeiro dia.
Thierry Neuville
Thierry Neuville, integrado na Hyundai Shell Mobis World Rally Team com o i20 N Rally1, ambicionava lutar pelos lugares cimeiros antes de ser travado por problemas mecânicos e físicos.
A prova do piloto belga iniciou-se da pior forma na primeira especial, quando sofreu um furo na traseira esquerda após uma escorregadela e um salto excessivo, acumulando danos visíveis na suspensão que o atrasaram em mais de dois minutos e meio. Tentando efetuar reparações de fortuna no local, Neuville viu a situação agravar-se na sequência dos troços seguintes, onde as dores no pescoço — sequelas de uma lesão anterior na Finlândia — limitaram severamente a sua capacidade de pilotagem e controlo da traseira do carro. Incapaz de continuar em condições seguras, acabou por encostar e desistir no final da primeira etapa. Regressou em Super Rally nos dias seguintes, focando-se em testes de afinação e na recolha de dados para o futuro.
Neuville transformou a restante participação num teste em condições reais, visando preparar as rondas seguintes do campeonato após um rali para esquecer.
Takamoto Katsuta
Takamoto Katsuta, navegado por Aaron Johnston no Toyota GR Yaris Rally1, partia para o Rali do Paraguai moralizado por uma época consistente, mas a sua prova terminou antes de quase ter começado e mais tarde, depois de regressar em Super Rally, novo despiste, levou ao abandono definitivo. Há fins de semana que mais valia não ter saído de casa e este foi um deles para o simpático japonês.
O piloto japonês protagonizou o incidente mais dramático do arranque do rali. Apenas a dois quilómetros do início da primeira especial, na curva inaugural de entrada na floresta, Katsuta entrou demasiado rápido, perdeu totalmente a aderência e sofreu uma violenta saída de estrada com capotamentos.
Conseguiu ainda engrenar a primeira mudança e arrastar o carro durante cerca de três quilómetros com o intuito de proteger o bloco do motor, mas os danos profundos no sistema de refrigeração, na estrutura inferior e na roll bar obrigaram-no a estacionar definitivamente. Afastado da prova principal, regressou em regime de Super Rally nas etapas seguintes, equipado com o snorkel de especificação para testes em piso lamacento e acumulando quilómetros de experiência em condições extremas.
Katsuta converteu o resto do fim de semana num teste alargado em condições de terra e lama, procurando recuperar a confiança e preparar os próximos desafios da época, mas no domingo, um novo aparatoso capotamento na PEC21 levou ao cancelamento do penúltimo troço.
Com uma gestão exemplar do caos e da imprevisibilidade que reescreveram a hierarquia do WRC no solo sul-americano, Sami Pajari confirmou o seu estatuto de estrela em ascensão ao assinar um triunfo histórico que relança a emocionante luta pelo título mundial. Dentro de duas semanas o WRC de novo na América do Sul com o Rali do Chile.











