Foi há 20 anos no Rali do Japão que o imperador dos ralis – Sébastien Loeb – escreveu o número 27 na história do WRC. A sua carreira no WRc durou até 2022.
Há marcas no desporto que parecem esculpidas na rocha, destinadas a resistir ao teste do tempo e à erosão dos anos. No verão de 2006, os trilhos sinuosos e traiçoeiros do Rali do Japão serviram de cenário a uma consagração que mudaria para sempre a geografia dos ralis mundiais. Num universo onde a precisão cirúrgica se cruza com o abismo do risco, um nome elevou-se acima de todos os outros para reclamar um trono que nunca mais deixou de ser seu.
Com a sua 27ª vitória no Campeonato do Mundo de Ralis, Sébastien Loeb ultrapassou a lenda espanhola Carlos Sainz, inaugurando uma era de hegemonia sem precedentes. O que começou naquela madrugada nipónica viria a estender-se até uns impressionantes 80 triunfos, mantendo-se o gaulês no topo da montanha face ao perseguidor mais direto, Sébastien Ogier, que ainda pode lá chegar, embora não seja nada fácil, pois provavelmente iria obrigá-lo a ficar mais dois, ou três anos no WRC, o que duvidamos seriamente…

O duelo de titãs que eclipsou os números
Apesar do peso histórico da marca alcançada nas Ilhas Japonesas, a frieza estatística cedeu rapidamente lugar à intensidade crua da competição. A batalha travada nesse Rali do Japão metro a metro frente a Marcus Grönholm consumiu todas as atenções do piloto da Alsácia, que preferiu desvalorizar a glória do recorde em prol da exigência do momento.
«No início da terceira etapa pensei que oito pontos para o campeonato já eram bons, mas depois percebi que podia chegar aos dez pontos, o que seria melhor!», confessou no final, visivelmente extenuado pela contenda. «Foi um duelo emocionante até final e, psicologicamente, foi também um momento especial. No último troço corremos, realmente, alguns riscos, andando, por vezes, acima dos cem por cento. Mas o sabor de uma vitória tão especial, a alegria da equipa e, uma vez mais, a ausência de erros, valeu todos os riscos que tivemos que correr! Quanto ao recorde, é óbvio que é importante, mas não era a minha primeira motivação. O mais importante, repito, é ganhar o campeonato». Ganhou esse em 2006 e todos de seguida até 2012. No total, nove. Não é por acaso que Ogier, também com nove, tenta a 10º.
A voz da experiência e o peso de uma era
Enquanto Loeb reescrevia os livros de recordes, a reação do homem que até então partilhava o Olimpo não se fez esperar. Carlos Sainz, dono de 26 triunfos que pareceram intocáveis durante muito tempo, fez questão de felicitar o sucessor, sem deixar de enquadrar a proeza nas mutações competitivas da modalidade.
O espanhol reconheceu o mérito excecional do francês, mas lembrou que nos seus anos dourados a concorrência se distribuía por uma pluralidade maior de construtores e forças em confronto, contrastando com a bipolarização de topo que começava a desenhar-se no horizonte da disciplina.
Olhando para trás, aquele domingo no Japão não foi apenas o fecho de um capítulo estatístico, mas a certidão de nascimento de uma dinastia incomparável nos troços do planeta.









