A FIA está a considerar a reintrodução da qualificação no Campeonato do Mundo de Ralis a partir de 2027. O principal objetivo é reduzir as disparidades competitivas resultantes da ordem de partida em pisos de terra, um desafio que se torna ainda mais crucial com a chegada das novas especificações técnicas WRC27.
Embora a decisão de indexar a ordem de partida à classificação do campeonato tivesse como propósito evitar um fosso crescente entre os pilotos de topo e os restantes, a realidade atual, marcada por um maior equilíbrio competitivo, mostra que os melhores classificados enfrentam uma desvantagem significativa devido à crucial importância da ordem de passagem na estrada. Perante este cenário, a reintrodução da qualificação está agora em consideração.
Este formato, que não é aplicado na categoria principal dos ralis mundiais desde 2013, encontra-se atualmente em discussão interna nos organismos desportivos. Tradicionalmente, a qualificação tinha como função determinar a ordem de partida, possibilitando aos pilotos contornar a desvantagem de “limpar a estrada” nos troços de terra.
Emilia Abel, diretora de estrada da FIA, confirmou que a reinstauração deste formato está a ser avaliada, enfatizando que se trata de uma fase preliminar de diagnóstico. «Isto faz parte da discussão sobre os regulamentos desportivos. Estamos atualmente na fase em que todas as opções estão em cima da mesa, mas isto terá, antes de mais, de ser alinhado com o Promotor, depois com uma comissão e, posteriormente, validado por esta», declarou a responsável ao Dirtfish.
O desafio da ordem de partida e a vantagem competitiva
Atualmente, o Campeonato Europeu de Ralis (ERC) adota um sistema em que os 15 pilotos mais rápidos na qualificação partem por ordem inversa em provas de terra, ou na ordem obtida em provas de asfalto. Este modelo serve de referência para a FIA na análise da sua potencial implementação no WRC.
O debate adquire maior urgência devido à nova regulamentação técnica prevista para 2027. Com a Toyota, a RallyOne Project e a RMC Motorsport a empregarem componentes de carros Rally2, e a M-Sport a desenvolver uma atualização aerodinâmica (“Kit”) para o seu Fiesta Rally2, a diferença de aderência entre os primeiros e os últimos carros a passar na estrada poderá ser determinante.
Com efeito, no formato atual, um Rally2 bem conduzido, mesmo fora do top 10, consegue tempos próximos dos primeiros Rally1, apesar de uma diferença de 100 cv no motor. Consequentemente, com os regulamentos de 2027, e com carros de potência semelhante, quem partir mais atrás terá uma vantagem consideravelmente maior. A qualificação surge, assim, como a forma mais equitativa de ordenar a rapidez de cada competidor de forma natural.
Sem o sistema de qualificação, um kit Rally2 a partir do top 20 beneficiaria, provavelmente, de uma vantagem de aderência significativa face a um WRC27.
Atualmente, com cerca de 10 Rally1, esta questão é mitigada, mas no futuro, com um número significativamente maior de carros com potências similares, a ordem de partida tornar-se-á crucial. Imagine-se o líder do campeonato, na primeira prova de terra do ano, a terminar a PEC1 em 25º ou 30º lugar…
Assim, parece consensual reintroduzir a qualificação, o que se afigura mais justo.
Seria ainda possível considerar formatos com duas ou três passagens, utilizando o tempo médio ou o melhor dos três. De qualquer modo, e reconhecendo que todas as opções têm os seus prós e contras, é fundamental que os melhores pilotos não sejam penalizados pela ordem de partida na estrada.
Por que a igualdade perfeita é uma ilusão nos ralis?
O efeito “limpeza”: Nas provas de terra, o primeiro carro a passar na estrada atua literalmente como um ‘varredor’, removendo a terra solta e perdendo, por isso, muita aderência. Os concorrentes subsequentes encontram uma trajetória progressivamente mais limpa e com maior tração até se atingir um ponto ideal.
Degradação do piso: Posteriormente, inicia-se a degradação do piso. À medida que os carros vão passando, a superfície deteriora-se, por vezes de forma drástica. Podem surgir regos profundos, pedras cortantes à superfície e o solo pode soltar-se, penalizando os que partem mais atrás em termos de estabilidade e risco de furos. Além disso, o pó em suspensão (que pode forçar o atraso de partidas em caso de ausência de vento), a humidade que se evapora com o sol ou uma chuva súbita alteram o estado do troço de forma radical em poucos minutos.
Nos ralis, a igualdade absoluta de condições é uma quimera. Vencer não se resume a ser o mais rápido, mas sim à capacidade singular de adaptação à mutabilidade implacável da própria estrada. E ter alguma sorte, claro, mas tudo isso faz parte do ADN dos ralis…










