Numa conversa no Podcast de Mike Billions, António Félix da Costa falou sobre o acesso e barreiras ao automobilismo de elite, das Fórmulas de Promoção, a profissionalização e negócio da Fórmula 1, novas tecnologias, competição de topo e a realidade Nacional dos pilotos portugueses.
A barreira económica e a complexidade dos bastidores no desporto automóvel internacional continuam a ditar o sucesso na pista, muitas vezes sobrepondo-se ao talento natural. Numa partilha detalhada e sem filtros no podcast de Mike Billions, o piloto português António Félix da Costa abriu o livro sobre os custos astronómicos, as frustrações políticas e os sacrifícios exigidos para alcançar e manter o estatuto profissional no topo do automobilismo mundial.
O preço da exclusividade: “se fosse hoje, eu nunca teria chegado”
O acesso às fórmulas de promoção atingiu valores sem precedentes, transformando o desporto numa disciplina fortemente elitista. Atualmente, fazer uma temporada competitiva no Campeonato de Fórmula 3 da FIA custa cerca de 1,5 milhões de euros.
Félix da Costa, que na sua juventude contou com o apoio e a alavancagem comercial da família, confessa que a realidade atual é proibitiva.”Se fosse com os preços de hoje, eu nunca teria chegado. Não é para quem quer, é para quem pode. E eu não gosto de fazer parte de um desporto que é assim tão exclusivo.
Um karting, uma coisa deste tamanho com um motor de 90 cv… tu não podes gastar 200 mil euros para correr ali. Estamos a brincar!? Isto tem de ser chave na mão. Queremos descobrir talento ou não?”, questiona o piloto da Jaguar na Fórmula E.
Como se percebe, esta exclusividade financeira afeta diretamente a transição para a Fórmula 1, onde o mérito desportivo e os títulos na Fórmula 2 são, por vezes, secundarizados por conveniências políticas e comerciais.
Félix da Costa recorda a sua própria experiência na estrutura da Red Bull, quando viu o seu esperado lugar na equipa principal ser ocupado pelo russo Daniil Kvyat.”Eu tinha o meu contrato de Fórmula 1 assinado, estava tudo, e recebo uma chamada do Helmut Marko a dizer: ‘António, o lugar já não está disponível’.
Na altura ia ser a primeira vez na história que ia haver um Grande Prémio na Rússia. Não preciso de dizer mais nada. Com 17 ou 18 anos eu não entendia, pensava ‘eu sou melhor que este gajo’, não percebia a parte política.
Hoje em dia não só entendo como sei que aquilo tinha de acontecer”, desabafa, lembrando que chorou “baba e ranho” nesse dia.
Simuladores milionários e a rotina sufocante fora das pistas
Para quem consegue romper o funil e tornar-se profissional, o trabalho vai muito além das corridas de domingo. Com a redução drástica dos testes reais para conter despesas devido ao teto orçamental (budget cap) — fixado oficialmente em 150 milhões de dólares na Fórmula 1 —, os simuladores de alta tecnologia assumiram o protagonismo.
Félix da Costa, que divide a sua atividade entre a Fórmula E (Jaguar) e o Mundial de Resistência (Alpina/WEC), descreve uma rotina desgastante.”Os simuladores custam muito dinheiro, tipo 10 a 15 milhões de euros.
É como o dos aviões, mas maior porque precisamos de forças G.
Entro às oito da manhã e saio às seis da tarde. Saio de lá todo roto! É o dia inteiro a olhar para um ecrã numa sala, é um bocado deprimente até. Testamos setups um milímetro mais baixo na altura do carro. Testamos dois e o simulador já sabe que bate no chão, é assim tão preciso.”
O nível de exigência física e mental é levado ao limite, ao ponto de uma corrida de 24 horas ser decidida por margens ínfimas. O piloto recorda o amargo de boca recente nas 24 Horas de Daytona, onde terminou na segunda posição por escassos segundos devido a uma falha na afinação provocada pela mudança de temperatura da pista. “Ficámos em segundo a cinco segundos do primeiro, ao fim de 24 horas a andar. Estou com um melão… cinco segundos ao fim de 24 horas! É para o pessoal ter a noção da precisão que isto tem de ser. A malta senta-se ao domingo à tarde, liga a televisão e diz: ‘Ei, este gajo não guia nada, que burro’. Há muito trabalho nos bastidores.
A falta de apoios em Portugal e o futuro do talento nacional
Quando questionado sobre o futuro do automobilismo português e o surgimento de novas promessas, como Noah Monteiro (filho de Tiago Monteiro) na Fórmula 4, Félix da Costa lamenta a falta de cultura de apoio estrutural em Portugal antes do sucesso estar garantido, contrapondo com o modelo de bolsas de mérito dos Estados Unidos.
“O Tiago [Monteiro] tem de arranjar 500 mil euros por ano para o Noah correr em boas condições.
Porque se só arranjares 350 mil também corres, mas depois tens travões maus, os pneus não sei quê, e é dinheiro deitado ao lixo. Isso aconteceu comigo. Cheguei a ter reuniões com os nossos ministros. Ia ao Estado e dizia ‘ajudem-me a vingar’. E ouvia: ‘Não há nem um euro’. Depois, quando estava à porta da Fórmula 1, vieram todos bater-me à porta para entrar para a fotografia. Aí eu disse que já não queria. O nosso problema é esse: queremos agarrar os atletas quando já estão feitos”, conclui o piloto luso.
Muito e bom para ouvir no Podcast. CLIQUE AQUI









