O que sucedeu a vários pilotos neste Rali do Algarve com a atribuição de tempos nominais já terá sucedido muitos milhares de vezes na história dos ralis. Há sempre alguém que se ‘lixa’, porque é quase impossível decidir com justiça para todos. Não pode haver um “árbitro para cada jogador”, passe a expressão e fique a ideia, e ao longo do tempo, os organizadores e os Comissários Desportivos de todo o mundo foram aprendendo com as experiências anteriores e cada vez mais as decisões desagradam menos. Mas nem sempre…
Estas são, quase sempre decisões muito difíceis de tomar, porque nunca se pode olhar para um caso específico quando se tem de responder a um problema com diversos pilotos.
Não foi só Miguel Correia que ficou prejudicado com o facto da PE2 ter sido neutralizada. Todos os que rodam atrás de Bernardo Sousa o foram.
Mas este caso de Miguel Correia é o mais mediático, porque impactou diretamente com a luta pela vitória no rali.
A história não é simples, mas conta-se bem…
Na PE2, o rali ficou partido ao meio com a necessidade de entrarem as ambulâncias e os bombeiros no troço, e com isso passou não só a haver três tipos de concorrentes: os que terminaram o troço, os que começaram mas não concluíram e os que nem sequer arrancaram…
Como se calcula, isto tornou a prova um caos, com diferenças enormes entre concorrentes nos troços da manhã.
Quando se chegou a meio do dia na Fatacil em Lagoa, na assistência, sabia-se que muitos dos tempos iria ter que ser revistos.
Logicamente a Direção de Prova teria de atribuir tempos nominais, e mesmo sabendo que há muitos concorrentes que podem ter queixas quanto ao registo que lhes foi atribuído, como não conseguimos falar de todos, vamos falar de um caso especial: Miguel Correia.
A Direção de Prova do Rali do Algarve decidiu atribuir tempos nominais aos concorrentes na PE2, depois do que sucedeu nesse troço com os dois acidentes. Olhando para os registos parciais, Miguel Correia passou de uma vantagem de 5.5s no Km 9.82 Km (7m40.9s) face a Ricardo Teodósio (o último tempo parcial registado antes de interrupção), um registo que só era batido por Craig Breen, que registou aí 7m26.3s, para uma desvantagem de 11.4s depois da atribuído o tempo nominal.
Eis a justificação da Direção de Prova: “Em sequência da anterior Notificação DP Nº1 e após a passagem dos concorrentes pela PE 4, Silves 2 e consequente análise dos tempos, decidiu a Direção de Prova retificar os tempos de referência anteriormente indicados, referentes à PE2 Silves 1.
Assim, e por constatar que os concorrentes que efetuaram as duas passagens pela PE Silves em circunstâncias consideradas normais, melhoraram em média o tempo da segunda para a
primeira passagem em 27 segundos, foi considerado como o mais adequado e de forma a
garantir a equidade e a verdade desportiva, somar os 27 segundos referidos anteriormente ao tempo efetuado por cada um na segunda passagem da PE4 Silves 2, para atribuição dos tempos na PE2 Silves 1. Assim, os tempos atribuídos a estes concorrentes são os seguintes:
PE 2 Silves 1
13 Miguel Correia/Jorge Carvalho Skoda Fabia R5 EVO RC2 10:46,2
36 Rakan Al Rashed/Dale Moscatt Skoda Fabia Rally2 RC2 10:59,2
22 Diogo Salvi/Hugo Magalhães Skoda Fabia R5 RC2 11:15,8
12 Lucas Simões/Nuno Almeida Ford Fiesta R5 Mkii RC2 11:18,1
73 José Merceano / Francisco Pereira Mitsubishi Lancer EVO IV A8 12:21,5
71 Luís Mota / Alexandre Ramos Mitsubishi Lancer EVO VI A8 12:36,2
72 Nuno Mateus / Francisca Mateus Mitsubishi Lancer EVO VI A8 12:47,2
115 Márcio Marreiros/Ricardo Barreto Mitsubishi EVO IX P3 12:04,6
104 Fernando Teotónio/Luís Morgadinho Mitsubishi EVO IX X3 12:18,0
110 André Cabeças/Diogo Costa Mitsubishi Mirage X6 12:29,0
121 Armando Carvalho/Ana Santos Mitsubishi EVO IX X3 11:52,6
112 Nuno Carujo/Pedro Silva Mitsubishi EVO IX X3 15:37,7
116 João Bica/João Sena Mitsubishi EVO IX X3 12:06,9
Sabe-se que é muito difícil decidir de forma perfeita e que agrade a todos este tipo de situações, mas uma coisa temos a certeza. Se não lhe tivesse sucedido nada de estranho, na PE4, dificilmente Miguel Correia perderia 11.4s no final dos 14.37 Km da especial, quando no Km 9.82 estava a ganhar-lhe 5.5s. O que Miguel Correia recebeu como tempo nominal, foi perder 16.9s em 4.55 Km. As decisões não são nunca tomadas para um caso específico, mas sim (normalmente) para um grupo de pilotos afetados, mas este caso é bem sintomático da justiça com que alguns casos terminam.
Veja o que Miguel Correia disse ao AutoSport: “a verdade desportiva não esteve do todo em cima da mesa, estas decisões têm que ser pensadas, tem que haver um fio condutor, não se pode atribuir o mesmo tempo a vários pilotos com registos de andamentos completamente diferentes. Vinha com um avanço significativo para o vencedor da especial, que foi o Ricardo Teodósio, faltavam poucos quilómetros para o final, portanto saio daqui um bocadinho descontente”, disse.
FOTO: AIFA/Rui Reis










