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Rally Olympia 1972: O precursor do Rali da Alemanha

José Luis Abreu by José Luis Abreu
15 Dezembro, 2022
in Autosport Exclusivo, AutoSport Histórico, pv2
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Rally Olympia 1972: O precursor do Rali da Alemanha

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Apesar do Rali da Alemanha só estar no WRC desde 2002, e até 2019, voltando agora como parte do Rali da europa Central, realizado em três países, a sua história é rica e numa Alemanha dividida, o desporto era uma boa razão para unir as pessoas, e o Olympia Rally 1972 foi um excelente exemplo disso mesmo…

O Rali da Alemanha tornou-se recentemente uma das provas mais importantes do Mundial de Ralis, não só pela estrutura e desafios da prova, mas principalmente devido à forte indústria automóvel alemã. Mas o evento só adquiriu o seu estatuto neste milénio. No Séc. XX, antes e depois da reunificação nacional, a Alemanha manteve-se fora do Mundial de Ralis, ainda que o envolvimento da Alemanha no desporto automóvel sempre tenha sido muito significativo. Os primeiros cinco Campeões da Europa de Ralis (1953-1957) a maior competição de ralis pré-Mundial, foram alemães ocidentais, aos comandos de carros de quatro marcas alemãs distintas, mas a verdade é que o primeiro Rali da Alemanha só nasceu em 1982.
Pode facilmente imaginar-se que o arranque tardio de um ‘verdadeiro’ Rali da Alemanha sucedeu apenas como consequência da divisão alemã pós II Guerra Mundial em dois países distintos, mas de forma bizarra, a hesitação deu-se por razões bem diferentes, ciúmes e invejas entre os homens das duas autoridades desportivas da Alemanha Ocidental, a ADAC (Allgemeiner Deutscher Automobil-Club) e a AvD (Automobilclub von Deutschland). Os organizadores regionais só poderiam funcionar se ligados a uma destas duas entidades. Só quando a FIA deixou claro aos alemães que só lhes daria uma prova do Mundial de Ralis se combinasse troços da zonas das famosas vinhas da região de Saarland (sob o controle da ADAC) com a zona militar de Baumholder, que estava sob o controlo da AvD, é que tudo avançou…

Promover os Jogos Olímpicos
Os ralis alemães sempre estiveram muito ativos tanto no lado Ocidental como no Oriental, e os ralis eram uma boa forma de cruzar fronteiras, o que acontecia regularmente. O Monte Carlo tinha, tradicionalmente partida também numa cidade alemã, o Rallye Lyon Charbonnieres, prova pertencente ao Europeu de Ralis partiu várias vezes de Estugarda, outro grande evento alemão era o Três Cidades, que se realizava entre Munique, Viena e Budapeste. Mas o primeiro grande rali alemão teve lugar apenas em 1972, o Olympia Rally, uma prova que visava ajudar a promover os Jogos Olímpicos que se realizariam na Alemanha nesse ano. Era um evento muito ambicioso, com seis dias e partida no Centro Olímpico de Kiel, dirigindo-se para norte, terminando na cidade Olímpica de Munique. Eram 3.000 Km de um percurso com 67 especiais, que tocava por diversas vezes a fronteira da Alemanha de Leste e por lá entrava diversas vezes durante o evento.
Nesses tempos, quando até ali as marcas alemãs nos ralis, primavam pela ausência no Mundial, nesse evento, surgiu a BMW, Ford alemã, Opel e Porsche, todos, com exceção da Mercedes. Os privados também foram atraídos, mais de 300, um número que só uma vez o WRC viu, no Rali de Monte Carlo de 1982. De qualquer forma a prova ficou um pouco aquém do esperado em termos da presença de nomes sonantes, ainda que a Ford inglesa tenha inscrito Hannu Mikkola e a Alpine também tenha levado dois carros. Foi uma semana de mudanças constantes na fortuna das equipas, a maioria devido às quase constantes mudanças na meteorologia. No final houve um ponto mau para os organizadores, é que no top 20 final estavam 18 carros de marcas alemãs, e dois Alpine-Renault, um deles no topo da classificação. Recentemente perguntámos a Jean-Pierre Nicolas que memórias tinha dessa semana: “Os ralis eram bem diferentes nesses tempos! Olhando para trás, as maiores diferenças eram nas ligações, que poderiam ser tão importantes quanto as provas de classificação. Estávamos habituados a isso, ligações a alta velocidade. Eram normais, por exemplo na Córsega, na verdade por toda a França, Itália, Espanha e Portugal. Ao rodarmos do norte para o Sul da Alemanha, isso fazia com que tivesse que haver grande logística por parte das equipas, mas não era um grande problema. Nesse tempo não existiam tantos carros de apoio e assistência como há hoje. Lembro-me que na minha equipa tínhamos três pequenas carrinhas e três Renault 16, carros de resposta rápida. Lembro-me também que os reconhecimentos eram muito difíceis pois era um rali extremamente longo, e fazíamos duas passagens por troço, uma para tirar notas e outra para verificá-las. Era um rali fantástico e os troços de terra eram realmente agradáveis. O meu co-piloto era o Jean Todt que habitualmente pedia a alguém para tirar as notas por ele. Na maior parte das vezes era a minha mulher, mas por acaso no Olympia Rally veio ele próprio”.
“Outro aspecto curioso das minhas memórias é que foi o rali em que conheci o Walter Rohrl. Ele guiava um dos Ford Capri alemães. Antes disso não o conhecíamos, mas ele já lutava pela frente do rali e isso deve ter sido uma surpresa para muita gente. O Ford Capri não era o carro mais competitivo do seu tempo mas ele andava na luta connosco. Era um ‘gajo’ fantástico. Quando estivemos na Opel em 1976 e 1977 ele foi dos melhores companheiros de equipa da minha vida. A vida era fácil com ele. Era sempre um bom amigo durante os reconhecimentos ou testes. O Walter foi um dos melhores…”

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‘Mind Games’ dos anos 70
Na altura, o companheiro de equipa de Nicolas era Bernard Darniche, e segundo me lembro teve um muito mau rali, penso que se enganou num controlo horário e saiu de estrada. Recordo-me que o Jean Todt o colocou sob muita pressão durante o rali. Ele foi ter com o Bernard e disse-lhe que eu estava a ser lento porque tinha que aprender o carro primeiro (o novo A110 com um novo motor com mais cilindrada, 1860cc) mas que eu estava pronto para atacar. Na especial seguinte o Darniche capotou. E era suposto sermos colegas de equipa! A vitória foi muito importante para a Alpine porque o mercado alemão já era o mais forte da Europa. Nesse ano não disputamos todos os ralis mas o Olympia era um teste muito bom para o novo motor. Usávamos o novo motor de 1860 cc pela primeira vez e este rali foi uma boa preparação para o ano seguinte, quando entrámos e vencemos o Mundial de Ralis” recordou Nicolas, que também se recorda da meteorologia: “Tenho uma boa história com isso. Havia uma especial com três passagens à volta do Nurburgring e durante os reconhecimentos disse ao Jean (Todt) que se calhar era melhor tirar notas, o que fizemos. Durante o rali estava um nevoeiro terrível e nessas condições fomos muito rápidos graças às notas do Nurburgring, onde batemos os especialistas alemães! As memórias de todo o evento são incríveis. Mesmo agora quando encontro alemães da minha idade, todos se lembram que ganhámos o rali”.
Jean Pierre-Nicolas venceu diversos ralis em Alpine-Renault, mas este Olympia é especial. Mas como seriam os ralis de então, no pré-arranque do Mundial de Ralis em 1973, comparados com os de hoje? “É sempre difícil comparar depois de tantos anos, o Alpine não era muito potente, mas era leve portanto tinha uma boa relação peso-potência, o que era fantástico. Mesmo sendo um carro pequeno, era muito robusto. Lembram-se quando venci o Rali de Marrocos com o Alpine? E a Córsega? Podíamos vencer em qualquer superfície porque o carro era muito forte. Éramos uma equipa pequena mas muito amigável, em que o chefe Jacques Cheinisse construiu à volta do Jean-Luc Therier, o Darniche e eu próprio. Quanto aos ralis, mudaram como a noite para o dia.”
Houve aventuras um pouco por todo o lado. O Ford Escort conduzido pelo piloto de corridas Dieter Glemser, bateu espalhando ramos de árvores pelo troço, Mikkola desistiu quando um eixo de suspensão de partiu e ficou sem uma roda, Warmbold levou o seu BMW até à liderança, mas depois saiu de estrada facto que levou a danos no motor, o BMW Coupé de três litros de Rauno Aaltonen teve problemas com o distribuidor. A chuva forte atrasou muitas equipas que só tinham pneus de asfalto seco. A perseguição de Tony Fall aos líderes, Nicolas e Rohrl chegou ao fim quando teve uma falha no eixo de transmissão, Rohrl parou com uma válvula do motor partida. Mesmo depois da chegada a Munique, o assunto não estava terminado para as equipas, já que, durante os dias seguintes existiram avanços e recuos com os resultados a serem conhecidos somente após algum tempo e só aí se ficou a saber que Nicolas bateu os Opel Ascona de Anders Kullang e Jean Ragnotti. Não voltaria a haver um rali de tamanha importância, até que o Rali da Alemanha entrou no WRC em 2002. E foi um rali extremamente caro de organizar, e não teria sido possível sem a ajuda da indústria automóvel alemã. Pena que tenha sido um carro estrangeiro a ganhar o rali!

Tags: Rali da AlemanhaRally Olympia 1972WRC
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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