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Entrevista a Miguel Barbosa: “Estamos a entrar numa fase muito boa do Todo o Terreno a nível mundial“

José Luis Abreu by José Luis Abreu
1 Dezembro, 2021
in TT
A A
Entrevista a Miguel Barbosa: “Estamos a entrar numa fase muito boa do Todo o Terreno a nível mundial“

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Depois de 12 anos sem rumar ao Dakar, Miguel Barbosa está de volta aos ‘Jogos Olímpicos’ do Todo-o-Terreno. Leva a seu lado Pedro Velosa, o carro é um ‘velho’ conhecido, a Toyota Hilux, e a estrutura a Overdrive. Já esteve no Dakar em África, a partir de Lisboa, na América do Sul, e agora, é a vez da Arábia Saudita. A ideia, é rumar ao Dakar nos próximos anos.

FOTOS Go Agency/Ricardo Oliveira; AIFA/Jorge Cunha

Miguel, 12 anos depois da tua última participação, como vai ser este ano?
“São 12 anos, é muito tempo, são muito mais do que gostávamos que tivesse sido, mas por força das circunstâncias, não foi possível. Já em 2010 fizemos um grande esforço para estar presentes no Dakar, vínhamos de dois anos bons, o terceiro não aconteceu, foi o cancelamento de 2008. Portanto queríamos capitalizar essa aprendizagem que vínhamos a fazer, em crescendo, tínhamos muito para evoluir no Dakar, e era possível, mas em 2010, mas quando vamos, percebemos que há uma forte quebra de retorno mediático, pelo facto da prova ser na América do Sul, por vários motivos, a distância sobretudo a diferença horária, muitas vezes acabava já era muito tarde em Portugal, não era possível enviar imagens, portanto fez-nos desitir numa altura que eu acho que ainda tínhamos muito para dar. Tivemos que deixar, o retorno foi muito fraco e enveredamos por outros projetos, e agora achámos que depois de conquistarmos o título do ano passado, em 2020, o oitavo título, era altura de voltar, até porque o Dakar é na Arábia Saudita e eu tive a oportunidade de lá estar há dois anos, está mais perto de nós, esta diferença horária é-nos muito positiva, e acho que é possível voltar a trabalhar bem esta prova.
É é isso que estamos a fazer, mas não deixam de ser 12 anos sem qualquer tipo de provas deste género, portanto, por um lado estamos um pouco apreensivos, porque também não conseguimos fazer nenhuma preparação, isso já sabíamos, apesar de termos tentado estar presentes em Marrocos, e até agora na Baja Hail, mas não conseguimos, vamos um bocadinho a ‘seco’ para o Dakar, mas faz parte do ‘jogo’. Mas temos é que estar felizes de poder estar presentes numa prova como o Dakar e há que contornar este défice.”

Estreaste-te em 2006 como Rookie do Ano, correste ainda em 2007 e 2010, que recordações tens desses tempos?
“O primeiro ano foi bom, fomos também a ‘seco’ para o Dakar, diziam-nos que não íamos fazer grande prova, mas acabamos, junto com o Miguel Ramalho, por fazer uma prova fantástica, foi incrível partir de Lisboa, o público, a prova, foi mágico, o TT teve um ‘boost’ gigante, sentimos uma grande abertura do público, dos patrocinadores.
O terceiro ano, 2008, teria sido fantástico, foi o ano que conseguimos testar em Marrocos com a X-Raid, fizemos bons testes de suspensão tínhamos o carro muito performante, era o BMW X5, tínhamos acabado de ganhar em Portalegre, o carro estava em excelente nível, estávamos inseridos na equipa oficial da X-Raid, tínhamos tudo para fazer uma boa prova em 2008.
Não aconteceu e foi uma forte machadada, nas nossas aspirações no Dakar, esse ano. Isso deixou também marcas financeiras que tivemos que ir resolvendo.
Na América do sul gostei muito da prova, publico fantástico, prova muito diferente do que tínhamos feito até aí, muito variada, achei diferente, nem mais fácil nem mais difícil que África, até pelo contrário, achei a areia um bocadinho mais difícil, areia mais quente mais mole, dunas difíceis, mas sobretudo um Dakar mais variado do que o que acontecia em África. Gostei bastante da América do Sul. Fiquei fascinado pela prova naquele continente, gostava de ter voltado, mas devido à questão do retorno mediático, não voltámos. Mas sem dúvida, fiquei fã do Dakar na América do Sul.”

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Agora, vais correr no Dakar com a Toyota Hilux, o Pedro Velosa ao lado e com uma grande estrutura…
“Estamos com a Overdrive como estrutura de apoio, vamos com o Pedro Clemente (Engº), que esteve sempre connosco em Portugal, vai ser o nosso chefe de carro, já é alguém que já trabalha comigo desde que entrei no TT há 20 anos, temos uma boa simbiose.
Com o Pedro Velosa, temos tido também um percurso interessante, campeões em 2012, agora 2020, ele têm uns quantos Dakar, até tem mais do que eu, de camião e outras, é um navegador com experiência, a equipa está bem montada, damos muita importância à equipa com que vamos, o suporte que temos é fundamental numa prova como esta, sempre defendi isso, acho que é um esforço necessário, face ao investimento que temos.
Portanto, vamos com excelentes condições, vamos com um T1, o nosso carro normal. Neste momento o TT está em plena fase de mudança, de regulamentação técnica, e no sentido certo, a meu ver, é o que eu já defendo há muito tempo, os carros já deviam ter seguido esta linha há muito tempo, é a linha americana de liberalizar, suspensão, motores, largura, acho que é isso que dá espetáculo traz segurança, e eu acho que é o caminho certo. Nós mantemo-nos fiéis ao nosso T1, porque é tudo muito fresco, recente, não teríamos tido possibilidades de levar um T1+, mas levamos um carro que é competitivo, fiável, já deu provas, já sabemos que teremos de gerir bem a questão dos furos, com estas rodas pequenas, tem sido um problema, mas pronto, vamos ver, não estamos muito preocupados com a performance, porque sabemos que estamos muito bem servidos nesse aspeto.”

O que achas dos regulamentos deste ano? O que muda face ao ano passado?
“Acho que estamos a ir no caminho certo, os T1 estão com um regulamento mais permissivo em termos de largura, em termos de curso de suspensão, já fazia falta, um primeiro passo passou dos 250 mm para os 280 mm e agora outro passo grande, rodas maiores, tipo buggy, mas 4X4, isso é bom, volta também a ser permitido motores turbo, portanto vamos ver carros mais engraçados, mais espetaculares e mais performantes. Acho que vamos no sentido certo. Tudo isto levou a que, com o que a organização tem estado a fazer a nível de navegação e tudo mais, acho que claramente estamos a caminhar no bom sentido .Acho que temos aqui uma pessoa chave, que é o David Castera, que há muito tempo disse uma coisa relativamente ao Rali de Marrocos, que se transmite também para o Dakar e que eu acho que é muito importante.
As provas têm que agradar aos pilotos, ele fartou-se de dizer isso em Marrocos, que a prova iria ser pensada para os pilotos, para agradar aos pilotos e é verdade os pilotos são os clientes das provas, e eu vejo o David Castera a pensar no bom sentido, portanto eu acho que estamos a entrar numa fase muito boa do Todo o Terreno, a nível mundial.“

A navegação parece continuar a ganhar grande importância no Dakar, faz sentido ou pode estar a chegar-se a algo que é demasiado complicado?
“Não sei muito bem o que aí vem, mas tenho tentado falar com pilotos, co-pilotos, falei com o Nani Roma, que me disse ser muito importante hoje em dia a navegação, há que pensar bem no que se vai fazer, quando há uma mudança de direção, vale mais perder um bocadinho de velocidade, ter a certeza, há se calhar um trabalho maior entre piloto e co-piloto. É um objetivo do Dakar baixar as velocidades, o que eu acho difícil, mas ao dificultarem a navegação, isso vai ser uma novidade para nós, vamos descobrir. O road book digital, entregue de manhã, também estou muito curioso de como isso se vai passar. Temos ouvido muito boas críticas, a dizer que é positivo, portanto estou ansioso por entrar neste novo mundo.”

Já lá estiveste como observador, falaste com muita gente, o que sabes deste Dakar da Arábia Saudita?
“As pessoas gostam muito da prova. O terreno é de eleição, é um país que acolhe bem a prova, tem o espírito, tem condições para receber bem a prova e os concorrentes, em termos logísticos, têm um poder financeiro que assegura toda esta logística, quando foi o covid eles mantiveram a prova, se fosse na América do Sul estaria em risco de não existir, portanto acho positivo estar nestes países que têm capacidade, acho que é muito importante para o futuro desta prova. Este rali é bem montado, eu estive lá os estádios estão ao serviço da organização, os bivouac que são montados, e tudo mais é de uma elevada qualidade. São os Jogos Olímpicos da modalidade, como eu sempre disse, e portanto o nível tem que ser muito alto, e claramente ali estão a esse nível.”

Como é a preparação física para uma prova destas? Quando começa e como se processa?
“Sempre me preparei bem, sempre achei que era uma área chave, a preparação, no fundo é continuar a fazer o que temos feito, mas massificando um bocadinho, é uma prova mais longa, mais dura, portanto é massificar o que já fazemos. Continuamos com o nosso treinador de sempre, o Carlos Fernandes, é meu treinador há muitos, muitos anos. Portanto o mesmo trabalho com foco no Dakar, algo mais intenso, direcionado para uma prova mais longa”.

Como é o Dakar em termos de cansaço, é mais físico ou mental? Já tens essa experiência…
“O Dakar é uma prova de extrema dureza física e mental, estamos debaixo de muito stress, durante muitas horas. São muitos dias de competição, sempre ao mais alto nível, o que é muito desgastante. Física e mentalmente. Eu acho que esta prova muda radicalmente se nos corre bem ou se nos corre mal.
No Dakar as coisas podem ser como uma bola de neve, se as coisas se complicam. Um problema acontece, atrasamos-nos na classificação, chegamos mais tarde ao bivouac, há menos tempo para rever o carro, preparamos pior o dia a seguir, descansamos menos, depois já não partimos no nosso lugar habitual, no dia a seguir, já vamos no pó de carros, camiões, etc, corremos mais riscos e vamos perdendo mais tempo para aquele que é o nosso comboio, o que se pode tornar complicado.
O Dakar tem que ser regular, porque isto pode transformar um Dakar que é duro, mas OK, faz-se, conseguimos ir gerindo o esforço físico e mental, técnico, etc, mas se começamos a ter problemas atrás de problemas, é um calvário”.

E quanto aos favoritos deste Dakar 2022, Mini, Toyota, BRX, Audi? Outsiders?
“É um bom ano, porque há muita coisa a acontecer. Temos aqui novas tecnologias a aparecer, como é o caso da Audi, para mim com dois dos melhores pilotos neste momento, como é o caso de Stephane Peterhansel e Carlos Sainz, fica a faltar o Nasser al Attiyah, dois dos principais candidatos estão em carros sobre os quais colocamos muitas dúvidas, o que é que eles vão ter. Conhecendo quem está envolvido, de certeza que vamos ver algo muito bom, mas vamos ver, é uma incógnita, eles também não têm feito provas, têm escondido bem o ‘jogo’, outros dos favoritos vão numa categoria que é completamente nova que é a T1 Plus, e para mim o Nasser al Attiyah que é um dos pilotos top, ao nível do Peterhansel e do Sainz, o que significa que os principais pilotos estão em carros novos, e se a ‘coisa’ não correr muito bem, até porque não houve muito tempo para testar, e nós vimos que tem havido aqui avanços e recuos nisto.
A Própria Prodrive, com o BRX Hunter, era para fazer algumas provas, não fez, pois teve alguns problemas técnicos, com o Sébastien Loeb e com o Nani Roma. Portanto nós vemos aqui os principais ‘players’ todos, numa situação que não é assim tão confiável como estamos habituados. Estamos habituados a vê-los em carros que temos a certeza que em condições normais, vão acabar o Dakar.
E neste momento coloca-se muito essa questão, está tudo muito curioso, para ver isso, portanto eu também acho que isso pode balançar aqui um bocadinho, pois há outros pilotos com bons carros na categoria T1 portanto acho que vai ser um ano engraçado nesse aspeto.
Portanto, os favoritos são os do costume, as marcas oficiais, os pilotos que referi, Stephane Peterhansel, Carlos Sainz, Nasser al Attiyah, Sébastien Loeb também numa excelente estrutura, mas acho que há aqui uma série de pontos de interrogação que podem apimentar a classificação. Espero que assim seja, para termos um Dakar divertido.

Estão a começar a aparecer novas tecnologias no Dakar, era inevitável…
“Acho que todas as tecnologias são bem vindas, e o desporto automóvel é uma excelente plataforma para desenvolver isso tudo. Acredito mais num caminho como biocombustíveis, combustíveis sintéticos como no WRC e na F1, acho que são coisas muito mais sensatas e palpáveis, mas temos que estar abertos a tudo e isso também é bom para o desporto”.

O que projetas ainda para o teu futuro como piloto?
“Quando nos estamos a lançar num desafio como este no Dakar é já com os olhos postos nos próximos três, quatro anos, não faria sentido num investimento destes. Agora o foco vai ser Dakar, tentar fazer provas que nos permitam fazer bons Dakar, portanto o futuro passa por aqui, basta ver a idade de pilotos como Peterhansel, Sainz e mesmo o Nasser al Attiyah, que são bem mais velhos, espero é que consiga continuar a reunir as condições para o fazer.

Dos oito títulos nos campeonatos de TT que alcançaste, qual te deu mais gozo ganhar?
“Todos, cada um foi especial, cada um foi em momentos diferentes da minha vida. Claro que o primeiro é sempre o primeiro, fomos subindo de patamar e chegámos ao nível máximo nacional, por que tanto lutei, mas isso foi há 20 anos, mas em todos os campeonatos sempre estive rodeado de excelentes pessoas e é isso que me motiva, estar rodeado de boas pessoas, bons projetos, bons patrocinadores, e depois é fazer acontecer e isso é que é a parte em que me sinto realizado, dar o nosso melhor, mas fazer acontecer. Todos fazem parte de um todo, não consigo escolher este ou aquele como mais especial. Todos foram muito bons”.

O que achas que ainda faz falta a ‘este’ Dakar, ser ainda mais mediático, por exemplo?
“Acho que esse é o passo que é preciso dar no Dakar. Acho que a prova perdeu muito o seu contacto com a Europa, acho que a ASO devia rever a sua política. Nós temos tentado montar algo para trazermos imagens para Portugal de modo a fazermos uma melhor trabalho, mais profundo, com análise, mas é muito difícil pois há logo uma série de impedimentos, ‘fees’, direitos, etc, e eu acho que o Dakar deveria procurar outro caminho, porque é uma modalidade diferente dos ralis, da F1, precisava de ter uma abordagem diferente de modo a massificar a relação e o conhecimento das pessoas, acho que está muito ‘seleto’. Não sei como! Eu percebo que isto é um negócio, há custos, mas é algo que eu penso que merecia uma reflexão. Está tudo a ir no bom sentido, mas penso que realmente há algo a trabalhar nesse aspeto. Essa parte tem que ser repensada. Acho que é o próximo passo a dar…”

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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