Mais uma vez, escreveu-se uma das mais belas páginas da história da F1 em Interlagos. Lewis Hamilton fez a melhor prestação do ano e, muito provavelmente, a melhor da sua carreira, conseguindo o que poucos desportistas conseguiram… a unanimidade. Claro que os fanáticos encontrarão sempre algo a apontar, mas para a grande maioria dos adeptos de F1, o que Hamilton fez, comprova (mais uma vez) o seu talento.
O fim de semana do GP do Brasil foi uma espécie de “Best of” do piloto britânico. Começou o fim de semana a saber que teria de enfrentar uma penalização de cinco lugares, mas ninguém esperava que o britânico acabasse excluído da qualificação por uma irregularidade de …0.2mm (uma diferença tão pequena que quase dói, só de imaginar). Na altura escrevi que aquela penalização poderia significar o princípio do fim na luta pelo título mas, felizmente, estava enganado, pois Hamilton fez o inesperado e o que poucos poderiam ter feito. Foi fortíssimo nas corridas, quer na velocidade, quer na gestão dos acontecimentos. Na corrida Sprint em 24 voltas conseguiu recuperar 15 posições e na corrida de domingo, recuperou mais 10, enfrentando o seu grande adversário, que não teve argumentos para o segurar.
Hamilton já nos proporcionou muitos momentos memoráveis, rasgos de génio que dão ainda mais cor a uma carreira incrível, como aquela volta sublime em Singapura (2018), ou aquela tarde chuvosa em Istambul que lhe valeu o sétimo título (entre tantos outros). Mas o fim de semana de Interlagos mostrou-nos o talento de Hamilton em todo o seu esplendor, aliado a uma força mental tremenda, um atributo que foi desenvolvendo ao longo do tempo. Com esta prestação Hamilton bateu o pé a Max Verstappen, deu um pontapé no ego da Red Bull e avisou que não desistirá do oitavo título.
Foi uma das tardes mais belas da F1 e uma viagem no tempo, de regresso a uma altura em que um capacete amarelo, verde e azul me deixava colado à TV. A um tempo em que aqueles carros provocavam um fascínio que até hoje se mantém, em que o Sr. do capacete Amarelo se tornou num dos grandes culpados por gostar de corridas. Na altura via as corridas com a ingenuidade típica da idade, mas neste fim de semana, Hamilton permitiu-me voltar a viver os momentos do passado, desta vez de forma mais consciente e mais atenta. As comparações devem ser evitadas, mas no palco preferido do seu herói Senna, empurrado pelo apoio dos fãs brasileiros, os mesmo que gritaram pelo nome de Senna no fim da corrida, Hamilton atingiu o nível de brilhantismo pelo qual a lenda brasileira é recordada.
E este texto não pretende mostrar qualquer tipo de favoritismo. Nesta fantástica luta a dois, não tenho preferidos e, até este fim de semana, olhava para a estatística e via Verstappen como um justo campeão. Mas este fim de semana relembrou-me também que a F1 não é só estatística. É paixão! A paixão que levou milhares às bancadas… a paixão que fez Hamilton superar-se mais uma vez e pintar talvez a sua obra prima. Somos privilegiados por voltarmos a ter uma verdadeira rivalidade na F1. Intensa, dura, implacável, onde o enorme talento dos dois protagonistas não chega e é preciso mais… mais alma, mais coração. A reação de Toto Wolff ao apontar o dedo à câmara é sintomática e todos estão a dar corpo e alma nesta apaixonante luta. Mais do que nos digladiarmos nas caixas de comentários, com argumentos por vezes arrepiantes de tão bacocos, aproveitemos esta bela luta que ficará na história. Aproveitemos para absorver toda a beleza desta incrível época, para no futuro podermos contar como foi. E façamos mais viagens no tempo, àquele tempo que todos apontam como a era de ouro (seja lá qual for), à boleia destes dois prodígios e dos restantes talentos que compõem esta grelha. Que vença o melhor, mas sinceramente quem mais ganhou este ano fomos nós, os fãs. Da minha parte… obrigado Hamilton! Esta viagem foi apreciada e ficará guardada.











