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Rali da Austrália: Sol, surf, cangurus e koalas

José Luis Abreu by José Luis Abreu
14 Julho, 2024
in AutoSport Histórico, pv2, Ralis, WRC
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Rali da Austrália: Sol, surf, cangurus e koalas

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No final de 2019 comemoraram-se os 30 anos da inclusão do Rali da Austrália no WRC. Realizada de forma intermitente nos últimos tempos, teve regresso previsto em 2021, não se concretizou, e o WRC tem vindo a ‘divorciar-se’, erradamente da Oceania. É um ‘crime’ lesa WRC, o Rali da Nova Zelândia não estar na competição, e a Austrália também tinha uma boa prova. É verdade que, se tivessemos de escolher, seria a Nova Zelândia, mas as saudades também ficaram da Austrália.
Infelizmente, hoje em dia é “quase só” o dinheiro a fazer a diferença.
Portanto, vamos recordar mais uma provas ‘das’ que ainda “devia lá estar”…

Em 1989, o evento teve lugar na Austrália Ocidental, quase por acaso, mas acabou por se tornar um dos mais populares ralis do campeonato. A FISA (como se chamava então a federação que comandava os destinos do automobilismo mundial) decidiu-se por introduzir de repente a prova no calendário do WRC, sem outras provas a concurso e pontuando apenas para o campeonato de Pilotos. A sua inclusão apressada foi justificada pelos entusiásticos relatórios acerca da prova candidata, no ano anterior e ficou facilitada com o cancelamento da prova que deveria ter lugar na costa oeste do estados Unidos.

A Austrália foi então o primeiro novo país no calendário do WRC desde o Brasil oito anos antes e nessa altura as equipas já se tinham esquecido de como era preciso adaptarem-se às novidades. Orgulhosamente, a Michelin anunciou que não era preciso reconhecer o terreno com antecedência, apenas ara descobrir, de forma desagradável, o notável fenómeno das pedras redondas de bauxite, tendo apenas uma noite para descobrir como evitar os furos constantes.
As equipas e os organizadores da Costa Ocidental do país ficaram impossibilitados de se deslocarem até à cidade de Perth, por causa de uma greve das linhas aéreas, forçando-os a seguir para Perth com passagem por Singapura ou pela Nova Zelândia. E foi um milagre que as coisas até tenham corrido bem…
A Austrália trouxe, porém, uma lufada de ar fresco ao campeonato. Para lá de provocar novas e inesperadas situações, coisas da natureza, como doenças diferentes e potencialmente mortais, serpentes em áreas para os espetadores e cangurus a saltar um pouco por todo o lado, incluindo nas classificativas, provocaram um certo embaraço nas autoridades locais e alteraram mesmo o formato das etapas. As Superespeciais eram feitas com os pilotos a partirem na ordem inversa, para aumentar a excitação e, anos mais tarde, este foi o primeiro rali seriamente ameaçado por problemas de escoamento das águas da chuva, que invadiam de repente os leitos secos das estradas e não tinham por onde escoar. É certo que a chuva não era propriamente uma desconhecida na região, mas a água teimava em sair das estradas, deixando-as demasiado moles, até o sol forte aparecer e as secar de novo. O principal problema era a presença de grandes árvores ali mesmo ao lado da estrada – e algumas mesmo a crescerem bem no centro da estrada!

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Chegando a setembro, o mundo dos ralis estava quase totalmente embrulhado na anual confusão de que piloto vai para que equipa, na temporada a seguir. E, nesse ano em particular, falava-se em especial da chegada da Subaru ao WRC, em 1990. Michael Ericsson, que tinha ganho as duas anteriores provas do WRC, foi subitamente despedido pela Lancia, que cancelou mesmo a sua inscrição na Austrália, porque descobriu que ele estaria a negociar a sua passagem para a Toyota no ano a seguir, substituindo-o por Kenneth Eriksson – que, motivado por estas movimentações, entrou no rali decidido a mostrar serviço.
Curiosamente, Juha Kankkunen, que era então piloto da Toyota, decidiu-se por deixar a equipa e ir para a Lancia, cansado de quase dois anos de azares consecutivos com o Celica GT Four de quatro rodas motrizes e motor turbo – na mesma altura em que a Toyota acabava de anunciar qual o modelo de série em que iria basear o seu próximo carro de ralis. Na verdade, esse carro não iria estar pronto antes do arranque da temporada de 1992. Fosse como fosse, até o rali da Austrália começar nunca houve um momento de sossego, tantas eram as novidades e as notícias.
Cinco equipas de fábrica, na sua máxima força, inscreveram-se para a Austrália: Toyota, GM, Mazda, Lancia e Mitsubishi, com a Suzuki a inscrever dois Cultus 1.300 cc de tração dianteira e a Simon Racing a mandar dois Renault 5 GT Turbo, também de tração dianteira, aa Alain Oreille.
Mesmo podendo manter-se no WRC até ao final da época, esta foi a derradeira aparição dos Delta Integrale com motor de oito válvulas, antes da Lancia surgir com os 16 V logo em Sanremo. A confiança da Lancia não estava em muito bom nível, até porque não estava a ser ajudada pela Michelin, que não levou a sério a prova australiana.

E o resultado foi simples: os Toyota mostraram-se intocáveis, vencendo 29 das 32 classificativas, com Eriksson a ganhar mais que o eventual vencedor, Kankkunen, mas a encontrar problemas no último dia, quando o motor se recusou a pegar e o carro teve que ser empurrado desde o parque fechado ao controlo de partida. Isso deixou baralhados os comissários, que não sabiam se era ou não permitido. Assim, ‘just in case’, impuseram-lhe uma série de penalizações, atirando-o temporariamente do segundo para o quarto lugar.
Reposta a verdade desportiva, esta ‘dobradinha’ da Toyota foi o clímax de um longo e árduo período de desenvolvimento, que durava já desde a Córsega, mas do ano anterior. O efeito desta vitória foi espetacular. O original Celica 4×4, chamado ST165, acabou por ganhar um total de 13 provas do WRC, o seu sucessor, o ST185, venceu mais 16 e a versão final, o ST205, acabou por ganhar uma.

A Toyota deixou de ser uma marca especialista apenas em provas feitas em África, tornando-se numa força permanente nos ralis ao longo de todo o mundo. Além disso, esta vitória teve um efeito devastador e nunca cabalmente por ele explicado, em Juha Kankkunen, que a encarou como uma afronta por ter decidido trocar a Toyota pela Lancia. E, na verdade, em 1990 a Toyota ganhou cinco ralis, enquanto o próprio ‘KKK’ apenas venceu um com a Lancia – e outra vez na Austrália.

A forma exata como Kankkunen celebrou essa vitória, nessa anoite, é inenarrável, mas o certo é que ele apareceu com um aspeto muito doente na manhã seguinte, durante a cerimónia de entrega de prémios. E houve logo quem garantisse que ele tinha misteriosamente partido algumas costelas durante o rali. Obviamente que não havia qualquer razão para rir, para o popular finlandês!

Melhores momentos
Desde que chegou ao WRC que o Rali da Austrália sempre foi muito mais do que sol, surf, cangurus e koalas, pois na sua história houve sempre muita
competição e drama. Realizado à volta de Perth, a prova depressa ganhou boa reputação entre a comunidade do WRC, pois a localização e natureza do evento assim o determinaram. Pode dizer-se que a prova australiana foi a primeira a seguir um modelo que é hoje em dia regra no WRC. Parque de assistência central e troços em trevo. Por isso, não foi de admirar que tenha ganho vários prémios de ‘Rali do Ano’, como sucedeu em 1995, 1999 e 2000. Nestes 25 anos e depois de várias troças de localização, as principais memórias surgem de Bunnings, uma especial com um fabuloso anfiteatro, perfeito para os espectadores, que podiam ver os três espetaculares saltos e a passagem de água. Quem não se recorda de Colin McRae ali a saltar com o Subaru Impreza,
com Nicky Grist, no final a dizer ao seu piloto: “Grandes saltos. Foram altos, pá, estou com uma dor de cabeça!”
Também houve polémica, por exemplo em 2000, quando os pilotos queriam evitar ser os primeiros na estrada e paravam na especial. Carlos Sainz fê-lo entre placas de controlo e foi excluído do evento. No ano seguinte, a mesma situação, Colin McRae chegou tarde a um sorteio e teve de abrir a estrada.
A Ford fez François Delecour penalizar 13 minutos por avanço, para limpar a estrada para McRae mas o francês despistou-se e mandou Daniel Gataloup oito dias para o hospital. Por falar em acidentes, quem não recorda os múltiplos capotanços de Carlos Sainz no seu Toyota em 1991 quando lutava com o
Lancia de Juha Kankkunen pelo titulo mundial. O espanhol capotou na superespecial, tentava recuperar tempo no dia seguinte, capotou outra vez, regressou à estrada, depois de perder apenas três ou quatro segundos, mas pouco depois teria um dos maiores acidentes da sua carreira, ao capotar nove vezes. Em 1999, Nicky Grist, ao lado de McRae: “Pensei que ia morrer quando vi a árvore” Mas não, só partiu um dedo do pé. Em 2002, François Duval bateu de lado numa árvore e foi parar ao hospital e Delecour e Grataloup voltaram a ter um acidente grave, agora com um Mitsubishi. Marcus Gronholm despistou-se três vezes em quatro anos. No país dos cangurus, claro que também houve encontros imediatos com os simpáticos animais. Sucedeu a Petter Solberg e Harri Rovanpera, ambos com efeitos semelhantes. Abandono e o funeral dos cangurus. Por fim a fabulosa exibição de Colin McRae com a Skoda em 2005, num abandono dramático na assistência que fez Nicky Grist chorar. Histórico, acabou por ser nesse ano a única vitória François Duval no WRC.

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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