Em declarações ao MotorSport News, o patrão da Volkswagen Motorsport, Jost Capito revelou recear que Sébastien Ogier possa deixar o WRC em 2017 se a questão da regra das ordens de partida não for alterada…para melhor, de acordo com o seu ponto de vista. O piloto francês não vence qualquer prova do Mundial de Ralis desde o Rali da Suécia, e apesar de comandar o Mundial com grande avanço, não está contente com o que diz ser uma regra injusta e da qual fala quase em todas as provas em que a sua posição na estrada não é a melhor.
No passado recente, o líder do Mundial abria a estrada somente no primeiro dia de prova, mas passou a fazê-lo nos dois primeiros dias e agora com a evolução das restantes equipas, especialmente Hyundai com o novo carro e a Citroën a partir tão de trás, vieram colocar muito mais pressão em Ogier, cuja classe já não chega para perder nos dois primeiros dias e recuperar no terceiro. Até porque este ano os pilotos que regressam em Rally2 já não partem na frente no segundo dia de prova, facto que atenuava um pouco as perdas de Ogier em ralis como México, Argentina, Portugal, Polónia, etc.
Fala-se inclusivamente na possibilidade da FIA estender a regra ao terceiro dia de prova, e isso pode ser a gota de água para Ogier. Jost Capito já avisou que o risco passa pelo WRC perder o seu Campeão: “Penso que ele pode sair do WRC. Perguntem-lhe, mas eu sei como ele pensa. Talvez isso não seja mau segundo o ponto de vista de algumas pessoas”, disse Capito ao MotorSport News.
O que pensava Ogier no Rali de Portugal
Sebastien Ogier chegou a Portugal depois de duas ‘derrotas’, no Rali do México e na Argentina e foi aí que começou a falar com mais vigor desta questão da ordem de partida. Nunca até à prova portuguesa a VW tinha perdido três ralis seguidos desde que chegou ao WRC em 2013, e em Portugal foi o que se sabe e a série continuou na Sardenha e na Polónia. Quando o questionámos quanto ao que esperava da prova portuguesa a resposta saiu célere: “Não sei, o ano passado fiz tudo o que podia. Não foi possível vencer, mas ainda assim fiz um grande rali. Se pudesse escolher já, assinava já andar ao mesmo nível e um lugar no pódio. Se puder fazê-lo penso que seria um bom feito para nós. Não vejo algo que pudesse ter feito melhor desde o início desta época! Portanto deixo para vocês julgarem porque agora é diferente. Claro que há razões, e uma delas é a ordem de partida, pois cada ano é mais difícil abrir a estrada e agora atingimos um limite em que para mim é simplesmente impossível de vencer ralis. Já o ano passado foi difícil abrir a estrada e vencer ralis de terra quando o piso está seco. Não estou lutar contra pilotos estúpidos, há imensos pilotos com bons carro e já não é possível compensar.
Achas que está a pilotar como nunca? “No final da época passada disse que estava muito contente com o nível que atingi com o passar dos anos, mas até aqui, esta época não cometi muitos erros, dei sempre o máximo. É frustrante, difícil de aceitar quando se dá muito, muitas vezes mais do que antes e não é possível vencer. É frustrante, mas eu olho para o ‘filme todo’ pois quero ser Campeão no fim do ano. Portanto, marco tantos pontos quanto possível. Qualquer desportista entende a minha frustração, porque simplesmente não é desportivismo. É difícil, porque todos à minha volta, os membros das outros equipas entendem, porque sabem que não é correto. Todos temos interesses diferentes, mas eu sou o único que sofro. Portanto, sou o único que falo. Para ser honesto, gostava que isto parasse. Espero que quem gere o desporto perceba que isto assim é demais e que devemos encontrar um melhor compromisso para o futuro. É difícil os pilotos juntarem-se e mudarem as regras porque todos temos interesses distintos, é difícil encontrar pontos comuns. Mas temos vindo a falar disso, e penso que dos concordam em mudar para algo, diria, que faça mais sentido… Mas talvez haja ralis em que és beneficiado… “Sim? Digam-me um…” Catalunha? “Há rails em todo o lado, as condições são exatamente iguais para todos! Mas eu digo-te um, o Rali de Monte Carlo. Esse é vantajoso partir à frente. Concordo totalmente. Mas é o único em que tenho uma vantagem real. A Alemanha, se estiver a chover, sim, também é vantajoso, mas se estiver seco não é vantajoso abrir a estrada no campo militar porque está o piso todo sujo. Não quero ter vantagem, o que quero é que encontremos uma regra em que em todos os ralis os melhores pilotos lutem pela vitória em condições semelhantes. E há possibilidades para o fazer e é isso que devemos procurar” disse Ogier em Portugal. Duas provas depois, a questão continua e se olharmos para os números, são tudo menos normais. Parece natural que um piloto como Ogier não vença uma prova do WRC desde o Rali da Suécia? É o que acontece…
Ogier venceu em Monte Carlo e na Suécia, já no México, primeira prova em piso de terra e o vencedor foi Jari-Matti Latvala, que partiu da oitava posição. Na Argentina, venceu Hayden Paddon, que partia da quinta posição, em Portugal o vencedor foi Kris Meeke cuja ordem na estrada nos dois primeiros dias foi o 13º lugar, em Itália, triunfou Thierry Neuville, que era oitavo na estrada e finalmente na Polónia, foi a vez de Andreas Mikkelsen, com um furo de Ott Tanak na penúltima especial. Não há dúvidas que a ordem de partida é penalizadora, e a questão agora é saber o que é mais importante para o WRC.
Matton ‘responde’ a Ogier
É lógico que as regras penalizam quem lidera o campeonato, mas a diferença para quem está em segundo não é muito grande, e assim sucessivamente. É verdade que se torna difícil vencer ralis, mas na frente da tabela do campeonato as coisas não mudam muito. Veja o que pensa Yves Matton: “Do meu ponto de vista, há duas formas de ver esta situação. E para mim é muito fácil compreendê-la porque estamos a participar no WTCC e nos turismos temos também uma grande desvantagem com o lastro, e com certeza não estou satisfeito com isso. Se olhares apenas para o aspeto desportivo, não é a melhor situação. Mas para o interesse do campeonato, não é mau. Depois, o Ogier fala muito quando diz que é uma grande desvantagem para ele, mas esquece-se de dizer que no asfalto não é uma desvantagem. Que na Suécia, dependendo do tempo, pode ser vantajoso ser o primeiro na estrada. Que na Finlândia, se estiver a chover, é melhor ser o primeiro na estrada. No final, talvez em 60% do tempo ele esteja em desvantagem, mas não a penalização não é tão elevada como ele diz. Mais: os pilotos que estão a lutar contra ele pelo campeonato têm quase a mesma posição na estrada. Se forem segundos classificados no campeonato são os segundos a ir para a estrada. E vimos também que na Argentina ele não foi capaz de bater o Paddon no último troço e que em Portugal foi batido pelo Mikkelsen nas mesmas condições”, disse.
A verdade é que a questão está a ser discutida entre as mais altas esferas do WRC e esta ‘ameaça’ de Ogier, pela boca de Capito é claramente uma forma de pressão para influenciar a decisão. Aproveitando o facto de Matton ter referido os lastros do WTCC, vem bem a propósito e também se pode falar do BOP no Mundial de Endurance e afins. São meios que as ‘regras’ encontram para permitir que o espetáculo seja o melhor possível para o público, pois sendo verdade que todos concordam que é injusto para Ogier, se calhar é bem pior para o WRC ser sempre o mesmo a vencer, porque é bem de longe o melhor piloto de todos, claramente um dos melhores de sempre da história dos ralis.
O AutoSport falou há alguns meses em ‘off’ com um responsável da FIA e aí percebemos claramente que estão bastante bem mais inclinados em privilegiar o espetáculo, mesmo correndo o risco – sabe-se agora – que Ogier vá embora. Mas esta é uma excelente questão para os adeptos debaterem. Vencer sempre o mesmo porque é de longe o melhor piloto ou as regras ‘ajudarem’ que vários possam ganhar?










