WEC – Um treino na box de António Félix da Costa
Não é todos os dias que se tem acesso à box de uma equipa de competição, ainda mais em tempo de Covid, mas António Félix da Costa recebeu o AutoSport na Box da Jota, às 8h de Portimão, segunda ronda do mundial de endurance.
O convite surgiu depois de uma conversa descontraída com o piloto português, que teve a simpatia de nos abrir as portas a uma realidade nem sempre acessível.
Ao entrar na box da JOTA, somos confrontados com uma parede de ecrãs, onde números e gráficos se sucedem numa cadência quase hipnotizante, com os mecânicos em constante agitação, preparando o que é necessário para os próximos passos da equipa, e os engenheiros mergulhados nos ecrãs à sua frente. A entrada da box chega a ser algo intimidatória, pois parece que entramos num mundo onde o foco de todos, sem exceção, está nos tempos por volta que vão surgindo quase metronomicamente. Além dos engenheiros e dos mecânicos, passamos por caras conhecidas como Stoffel Vandoorne, Tom Blomqvist e Anthony Davidson (entre outros) que também não largam os ecrãs por um segundo, analisando ao detalhe todas as mudanças que ocorrem.

Um sorriso no meio dos números
O primeiro sinal de vida que tivemos veio de Félix da Costa, que nos acenou e nos recebeu de sorriso aberto, explicando como tinham corrido as primeiras voltas do treino, admitindo que a travagem não era ainda a ideal e que as relações da caixa teriam de ser revistas. Foi interessante ver que quando AFC saiu do carro, além do seu engenheiro, também os pilotos do carro #28 se juntaram ao debrief, com o português a complementar a sua explicação verbal com os maneirismos típicos de quem explica o comportamento do carro em pista, numa linguagem gestual universal que todos entendem, enquanto as anotações eram inseridas num tablet para descortinar na reunião subsequente.
O facto de ver pilotos dos dois carros partilharem informação causou-nos alguma estranheza mas Duarte Félix da Costa, que passou a ser o nosso cicerone quando António entrou no carro, explicou que a JOTA era a única equipa com dois carros em pista e que o português fez força para que ambos os lados da box trabalhassem em conjunto para encontrar o melhor compromisso de afinação do carro, aproveitando esta vantagem. Até à qualificação de sábado, tudo funcionaria em prol de encontrar a melhor afinação e a partir da qualificação, seria cada um por si.

O momento solene
Um dos momentos mais interessantes de seguir foi a preparação dos pilotos para a entrada no carro. Anthony Davidson, o simpático comentador das transmissões da Sky na F1, sofreu uma metamorfose inesperada. De cara fechada, foi colocando a balaclava e ajustando meticulosamente todos os pormenores, dando a aquele momento um ar solene de cerimónia que segue um protocolo rígido e que não pode ser afetado por nada. Vimos o mesmo com Félix da Costa, que assim que recebeu a ordem de que iria entrar no carro, desfez-se do sorriso e usou a mesma pose solene para colocar o capacete e se preparar para entrar na infernal máquina que, a cada paragem nas boxes, nos ensurdecia.
No lado dos engenheiros, a hipnose coletiva mantinha-se inalterada desde os primeiros momentos, com os pilotos que não estavam no carro a seguirem os tempos, quase sem pestanejar. Do lado dos mecânicos vimos sorrisos, trocas de impressões e brincadeiras… até chegar o momento da ação onde se iniciava um bailado aparentemente caótico, mas todo ele organizado em que cada um tem uma tarefa definida, sendo que os restantes têm como missão não atrapalhar.
Notamos que Félix da Costa era um pouco a alma daquela box. O português trocava impressões com o seu lado da box e, pouco depois, ia para o lado oposto arrancar um sorriso a tripulação do #28, sempre trocando impressões. Uma forma de trabalhar leve, bem disposta, mas sem nunca perder a seriedade necessária na alta competição.

O brake test de Montoya
Os últimos minutos do treino aproximavam-se, altura em que as trocas de pilotos seriam novamente ensaiadas, para que tudo corresse como esperado na corrida. Davidson voltou ao seu momento solene de colocar o capacete, mas desta vez foi interrompido por Félix da Costa e a cara do britânico transformou-se, mostrando um sorriso de boa disposição enquanto contava as peripécias da última saída para a pista. Aparentemente, o britânico atrapalhou Juan Pablo Montoya que respondeu bem ao seu estilo. Davidson contou o sucedido no meio de gargalhadas:
“Viste quando eu saí para a pista e apanhei o Montoya? Eu ia por dentro, mas ele foi largo na curva e não gostou. Havias de ter visto! O tipo colocou-se à minha frente e fez-me dois brake test (quando o piloto que vai à frente trava bruscamente para desestabilizar o que vai atrás). Quando ele fez o primeiro comecei-me a rir, quando fez o segundo desatei às gargalhadas. E ele, de certeza, que sabe que eu fiquei a rir” contou Davidson.
Os duo da JOTA aproximou-se da entrada da box e entre mais algumas brincadeiras, prepararam-se para ensaiar as trocas de pilotos. O treino terminou pouco depois e os pilotos reuniram-se logo ali para trocar mais impressões sobre o treino, numa espécie de mini conferência, onde se juntaram alguns engenheiros, enquanto os mecânicos tratavam de recolher os carros.

Despedimo-nos do Duarte, e deixamos o António a falar com os seus colegas de equipa, sem querer atrapalhar aquela que é uma das fases mais importantes, onde os pilotos discutem o que deve ser melhorado.
Saímos da box e ainda o poder hipnotizante dos monitores atraía uns quantos engenheiros que iam devorando os dados recolhidos. No domingo, todo o trabalho feito deu frutos e a equipa garantiu uma dobradinha e Félix da Costa venceu em casa.
Uma box de competição é um mundo à parte, onde ficamos surpreendidos com o aparato da maquinaria. A forma como todos seguem atentamente chega a fazer alguma confusão, tal a avidez com que colhem cada tempo por volta. Estamos num mundo onde máquinas que valem milhares de euros, comandadas por alguns dos mais talentosos pilotos do mundo, se digladiam em pista. Um mundo onde uma equipa que conta com dezenas de homens e mulheres dá o máximo para conseguir vantagem sobre o adversário. Uma vantagem que, por vezes, se traduz no tempo que demoramos a piscar os olhos. Todo este trabalho e esforço em busca de um pedaço de tempo, que no dia a dia é irrisório… mas que em pista faz a diferença entre perder e ganhar.
O nosso agradecimento ao António e ao Duarte por nos terem permitido ver de perto este fantástico mundo.
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