Robert Kubica venceu as 24 Horas de Le Mans. Pode parecer apenas mais um nome inscrito nos livros da história de uma das corridas mais prestigiadas do automobilismo mundial – se não a ‘maior’, mas esta vitória é muito mais do que isso. É o fecho poético de uma jornada marcada por talento, sofrimento, persistência e, acima de tudo, uma resiliência quase sobre-humana.

Kubica nasceu com velocidade nas veias. O seu talento no karting abriu-lhe as portas da Europa do automobilismo ainda muito jovem, vindo de uma Polónia sem tradição na Fórmula 1. Subiu degrau a degrau até alcançar o sonho: tornar-se piloto de Fórmula 1, e não apenas isso – em 2008, venceu o Grande Prémio do Canadá pela BMW Sauber, tornando-se o primeiro polaco a ganhar uma corrida de F1. Nesse mesmo circuito, no ano anterior, já tinha protagonizado um dos acidentes mais assustadores da história recente do desporto, saindo vivo de uma colisão a altíssima velocidade que poderia ter acabado em tragédia.
Mas o destino ainda lhe guardava outro golpe. Em 2011, durante um rali em Itália, Kubica sofreu um acidente brutal que quase lhe tirou a vida e deixou o seu braço direito com sequelas severas. Para qualquer outro piloto, teria sido o fim. Para Kubica, foi um novo começo. Longe dos holofotes, passou anos a recuperar, a reaprender, a lutar contra um corpo que já não respondia da mesma forma – mas com a mesma cabeça de sempre: determinada, metódica, apaixonada pelas corridas.

Contra todas as expectativas, voltou. Regressou à Fórmula 1 em 2019, com a Williams, não para ganhar corridas, mas para provar algo muito maior: que a força de vontade pode desafiar o impossível. Mais tarde, encontrou refúgio e motivação noutras categorias, como o Mundial de Endurance. E agora, em 2025, aos 40 anos e meio, sobe ao lugar mais alto do pódio em Le Mans.

Não é apenas uma vitória numa corrida. É a vitória de um homem que caiu e levantou-se com estrondo. De um piloto que enfrentou a morte, duas vezes, e nunca deixou de acreditar na beleza da vida. De alguém que personifica o que significa amar verdadeiramente o desporto motorizado – não pelas taças, mas pela paixão, que nasceu na Polónia, mas que aprimorou em Itália, quando dormia num quarto por cima da oficina da sua equipa em Itália.
Hoje, Robert Kubica não venceu só Le Mans (claro que não me esqueço que não venceu sozinho, teve a seu lado na AF Corse, Yifei Ye e Phil Hanson, mas é de Kubica que queremos falar). Venceu o destino. Venceu o tempo. Venceu as dúvidas que muitos já não tinham há muito. E, acima de tudo, venceu-se a si próprio. Não sendo de um piloto português, o triunfo de Robert Kubica não podia ter calhado melhor para quem como eu se estreou em Le Mans, após mais de duas décadas a ver a corrida pela TV e a ajudar os meus colegas que lá iam ao circuito.
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