Félix da Costa: A difícil relação com o colega de equipa e o que está em cima da mesa para o futuro
António Félix da Costa está este fim de semana a competir no Estoril na prova de 300 km a contar para a Porsche Cup Brasil. Aos comandos do Porsche 992 #13 com as cores da TAG Heuer, faz dupla com Bernardo Sousa.
Félix da Costa vem de uma época de altos e baixos, onde voltou a demonstrar a sua grande velocidade, mas enfrentou desafios internos. O piloto português não esconde que viveu um dos anos mais complicados da sua carreira — não tanto pela performance em pista, mas pelo ambiente dentro da equipa, com uma relação difícil com o seu colega de equipa, Pascal Wehrlein, que colocou o piloto luso na porta de saída.
“Ambiente muito complicado dentro da equipa”
Numa entrevista ao AutoSport, no Circuito do Estoril, o piloto de Cascais explicou o que sentiu ao longo desta longa época, que se revelou mais dura do que o previsto:
“Foi muito difícil, especialmente fora do carro”, começou por confessar. “É impressionante: ao fim de 20 anos de carreira, todos os anos continuo a aprender coisas e a experienciar sentimentos novos. Este ano foi um bocadinho isso. Foi um ambiente complicado dentro da equipa, especialmente com o meu colega de equipa, e isso tornou as coisas difíceis logo desde a primeira corrida.”
O português não esconde que se sentiu afetado por esse clima. “O meu maior problema era dentro da minha box e isso, para o tipo de pessoa e de piloto que sou, complicou-me e afetou-me. Mas, mesmo assim, sempre que punha o capacete, 90% das vezes fomos rápidos, qualificámo-nos na frente, fizemos vários pódios. Atravessámos uma altura em que nos perdemos com o setup, tentámos reinventar a pólvora. Ao mesmo tempo, o [Oliver] Roland esteve muito forte, abriu uma distância de 40 pontos e desmoralizou um bocadinho toda a gente. Temos de dar-lhe crédito: teve uma fase fortíssima no meio da época.”
No balanço geral, Félix da Costa não considera que tenha sido um ano negativo. “Não é uma época má, foi sólida até. Lutámos pelo título, fomos líderes em certas alturas. Não tivemos o resultado final que queríamos, mas foi uma época mais ao meu estilo. Demorou três anos, mas fiquei contente por voltar à luta pelo título, lideramos a classificação.”

A difícil adaptação à Porsche
Quando assinou com a marca alemã, o português acreditava ter encontrado o casamento perfeito. Mas cedo percebeu que o desafio seria mais duro do que imaginava. Félix da Costa reconheceu a sua cota de responsabilidade no que viria a acontecer, admitindo que o início complicado afetou a sua posição na equipa:
“Quando me empregaram, contrataram um piloto que já tinha sido campeão. Esperavam um certo nível de performance que não conseguimos atingir logo. E, ao mesmo tempo, o meu colega de equipa estava muito forte. Acho que, inconscientemente, criou-se dentro da equipa uma ideia de que eu era o número dois. E quando finalmente consegui dar a volta às coisas, nunca me consegui desvincular dessa posição.”
Mesmo nas fases em que venceu corridas, sentiu-se sempre na sombra. “O problema foi que, apesar de ganhar corridas, o meu colega acabou por ser campeão. Rapidamente se esqueceu o que eu tinha feito. Muitas vezes ganhava quase só para roubar pontos aos outros. Estive sempre um bocadinho na sombra. E parte da culpa também é minha, por não ter entrado logo a bater o pé.”
Ainda assim, valoriza o que aprendeu. “Foram três anos onde possivelmente aprendi mais em toda a minha carreira. Aprende-se muito mais quando se está a levar na cabeça do que quando se ganha uma corrida. A nível de crescimento pessoal, estes últimos três anos foram os mais importantes.”

A relação com Pascal Wehrlein: “ Houve faltas de respeito que não gostei nada”
Uma das questões que mais marcou o ano foi a relação deteriorada com o colega de equipa, Pascal Wehrlein.
“Eu sabia que ele era uma pessoa complicada, mas surpreendeu-me pela positiva nos primeiros dois anos. A equipa dizia-me: ‘António, és o único que consegue levá-lo a jantar fora, o único que faz programas com ele’. E isso nunca tinha acontecido antes. O que me surpreendeu foi que a nossa relação foi do 80 ao 8.”
O piloto português lamenta a falta de reconhecimento. “O número 1 estava no carro dele este ano muito por ajuda minha no ano passado. Isso foi rapidamente esquecido. Houve faltas de respeito que não gostei nada, especialmente no início deste ano.”
A quebra, admite, foi irreversível. “Vi logo que não havia volta a dar. Ele é muito orgulhoso, e eu sabia que do lado dele nunca viria um pedido de desculpas. Ao fim de uma semana, fui ter com os meus chefes e disse: ‘Vocês sabem que isto nunca se vai resolver’. E eles responderam: ‘Nós sabemos’. A partir daí, soube que ia ter uma vida complicada dentro da equipa. No entanto, eles parecem dispostos a manter o cenário, pois acabaram de me propor um contrato de três anos. Fiquei surpreendido e disse que não entendia como queriam comprometer mais 3 anos com o ambiente desastroso que está dentro da equipa. Não consigo trabalhar dessa forma”.

O futuro: “Jota é hipótese em cima da mesa”
Olhando para o futuro, Félix da Costa não esconde a vontade de mudar de ares. “Não diria que é 100% a saída da Porsche, mas estou seriamente a olhar para isso. Quero voltar ao WEC.”
“Quando assinei, disseram-me que podia fazer tudo. Passado um ano, puxaram-me o tapete sem explicações. Fiquei sentido, senti-me um bocadinho traído. Agora quero voltar a ter o controlo da minha carreira nas minhas mãos. E sei que com a Porsche isso não é possível. Se conseguir montar esse plano, obviamente que a minha vontade passa pelo regresso ao WEC.”
“O campeonato vive uma era demasiado boa para eu não estar lá. Tenho propostas em cima da mesa e estou a trabalhar para voltar. Quero estar num carro competitivo, e idealmente tentar vencer em Le Mans. Ferrari e Toyota, as equipas de topo que lutam por esses lugres, não estão em cima da mesa, mas há outras opções muito boas. Se Deus quiser, vamos conseguir conjugar tudo e voltar a fazer os dois campeonatos.”
Questionado sobre a possibilidade de voltar à Jota, não hesita: “Adoraria. Foram uma família para mim. É uma das hipóteses que está em cima da mesa.”

A amizade com Verstappen e as férias em Portugal
Mesmo numa época complicada, houve tempo para desligar. O piloto português passou as férias com amigos de peso.
“Foi espetacular. Já é o segundo ano em que o Max e a família se juntam a nós. Tenho uma relação muito boa com a Kelly Piquet há muitos anos, conheci-a na Fórmula E. Juntámos as duas casas aqui em Portugal e eles adoram. É para continuar.”
Claro que as corridas nunca ficam totalmente de lado. “Tentamos não falar muito porque as nossas mulheres não gostam, mas é inevitável. A quantidade de histórias que ficamos a saber… Agora com a mudança grande na Red Bull, ouvir os bastidores foi ótimo.”

Uma nova era à vista
Félix da Costa não fecha a porta a qualquer cenário, mas parece pronto para deixar a Porsche. Os rumores apontam para uma saída da estrutura germânica, com a Jaguar a ser o destino provável. Não houve um adepto de motorsport português que não ficasse encantado com a ida de AFC para a Porsche. Uma marca mítica, um programa de Fórmula E forte e um programa a de WEC que poderia ser uma porta de entrada rumo ao topo da resistência para o português. A realidade acabaria por dar um cenário diferente.
Os primeiros tempos da Porsche foram complicados. Os resultados não foram os melhores e AFC não tinha encontrado ainda o norte, numa estrutura fria, talvez demasiado fria para o calor do português. Depois veio o golpe do WEC: primeiro nenhum dos pilotos foi autorizado a fazer o WEC (em 2024) e este ano, a equipa deu primazia ao inexperiente Wehrlein, com o já consagrado Félix da Costa a ficar para segundo plano. Só isso poderia ter sido suficiente para terminar a relação de confiança, mas tudo ficou ainda pior com a degradação do ambiente com o colega de equipa. Félix da Costa não quis dizer o que aconteceu, mas algo sério terá sido para minar uma relação que até vinha a ser saudável. E Félix da Costa é um dos pilotos que mais se esforça para ter um bom ambiente na equipa.
AFC continua a ser um dos destaques da Fórmula E. Além de ser um dos melhores, tem também uma base de fãs muito forte. Conhece os timings certos de quando ser mais egoísta e quando tem de ser “team player”. Muitas vezes coloca os interesses da equipa em primeiro. É o que faz dele nesta fase um dos pilotos mais cobiçados. E não é por acaso que a Porsche quer renovar com ele, apesar de tudo. Mas Félix da Costa tem de voltar ao WEC. Um piloto que já demonstrou tanta qualidade na resistência não pode ficar afastado, quando muitos adversários conseguem conciliar programas. Que o futuro traga um bom projeto, à imagem do talento e da qualidade do piloto de Cascais. É provável que não falte muito para termos novidades.
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